Mães de plantão, famílias e futuras mães com gestação à vista buscam cada vez mais métodos naturais para trazerem seus filhos ao mundo. A saúde materno-infantil vem sendo cada vez mais perseguida através dos chamados partos humanizados que geram vários benefícios para mães e bebês, mas também trazem riscos sérios caso não sejam muito bem planejados e executados. O reflexo desse desejo é expressado nas redes sociais, que mostram o interesse crescente por novas técnicas como partos em piscinas e em casa e outros.
Hamilton Franco Júnior, 55 anos, 30 anos de formado, médico obstetra e toco-ginecologista, falou com o repórter especial Luiz Flávio um pouco desse cenário e sua avaliação sobre os métodos alternativos de realização e partos alternativos:
P: A saúde materno-infantil vem sofrendo sensíveis mudanças nos últimos anos, com a procura cada vez maior pelo que foi denominado de parto humanizado. Como o senhor vê essa nova realidade?
R: Realmente a procura pelo parto humanizado hoje é muito grande. Esse tipo de parto é a integração do trabalho de parto, com a participação do acompanhante da paciente, geralmente o esposo ou uma pessoa muito próxima da parturiente, que possa dar mais segurança à paciente no desenrolar do trabalho de parto. Para que isso aconteça, é necessário toda uma preparação desde o momento da descoberta da gravidez e por todo o pré-natal, com a participação ativa da família e amigos mais próximos. O parto natural é o mais recomendado. O vaginal. A cesariana deve ser aplicada em casos de complicações no trabalho de parto e que ponham em risco a vida da mãe e do bebê. São as chamadas cesarianas eletivas, que são agendadas e onde há impossibilidade do parto normal por vários motivos, como fetos atravessados, placentas prévias, entre outros.
P: O parto cesariano se tornou cultural no Brasil...
R: É mais ou menos por aí. Durante muito tempo, esse tipo de parto prevaleceu, tanto na esfera hospitalar pública quando na privada, com exceção das Santas Casas. Muitas pessoas acham que a cesariana é mais segura e não teria riscos, quando na verdade os riscos de infecção são muito maiores no pós-operatório, que também é mais prolongado e doloroso. O parto humanizado e normal exige todo um preparo, conhecimento e dedicação envolvendo médico, pacientes e familiares. Na verdade, muitas vezes a paciente não está disposta a passar por isso, ou o médico não dispõe de tempo e paciência para o processo. Aí a cesárea é o caminho mais curto, mas certamente não é o mais recomendado. O mais importante de tudo é nunca colocar em risco a vida da mãe e da criança que vai nascer.
P: Nos últimos anos, muitas pessoas vêm defendendo nas redes sociais partos alternativos, como o Leboyer (método que busca dar atenção ao bebê e proporcionar um nascimento com conforto, similar ao do útero materno) e a utilização de doulas (acompanhantes profissionais de parto, que dão ajuda às gestantes). Como o senhor vê esse movimento?
R: Para mim, como médico, o parto humanizado é, acima de tudo, o parto seguro, com acompanhamento pré-natal e que garanta a integridade de mãe e bebê, realizado numa sala de parto toda equipada e com equipe capacitada e preparada para o procedimento. Partos realizados por doulas, por exemplo, são muito românticos, mas nada poéticos... Elas cobram pequenas fortunas para realizarem partos na casa das pacientes. Os valores podem variar de R$ 5 mil a R$ 10 mil. A doula acompanha todo o trabalho de parto, que é feito de maneira totalmente artesanal, deixando a natureza agir e sem qualquer intervenção cirúrgica. Em caso de qualquer problema, todos têm que correr para o hospital. Sem esquecer que doulas não possuem formação médica. São técnicas que não saberão o que fazer num caso de complicação no parto. Há partos normais feitos por doulas que duram dias.
P: Como médico, o senhor então não recomenda esse tipo de parto?
R: Eu, médico com mais de 30 anos de profissão, particularmente, não recomento. Já vi muitas situações dramáticas ao longo da minha carreira. O risco de se perder o bebê é grande. Nesses casos, só chamam o médico se a coisa complicar, o que não é nada ético, concorda? É uma situação bem complicada. O parto feito de maneira correta deve ser realizado num centro cirúrgico por obstetra indicado e qualificado para tal. Mas repito: é uma opinião particular. Cada um procede como achar correto e de acordo com seu bom senso. O parto humanizado não necessariamente precisa ser um parto alternativo. Na minha concepção, humanizar é cuidar, tornar o processo o mais natural possível ,dentro de parâmetros seguros, tendo profissionais capacitados atendendo durante toda a gestação e com a paciente tendo ao seu lado marido, pais e amigos.
P: O chamado parto Leboyer, trazido ao Brasil na década de 70, é caracterizado pelo chamado “parto sem violência”, procurando tornar a experiência menos traumática possível. Como o senhor vê essa técnica?
R: O chamado parto Leboyer é feito em casa, geralmente dentro de uma banheira ou piscina. Os adeptos defendem que esse tipo de parto é benéfico porque a criança é trazida ao mundo dentro da água, mesmo ambiente onde foi gerada. Ocorre que a vida do bebê é garantida pelo cordão umbilical, e não com a água ou com o ar especificamente. Quando esse bebê não está mais em meio líquido ele instintivamente chora, com os pulmões sendo expandidos naturalmente. Agora, você fazer um parto dentro da água e cortar o cordão dentro desse meio promove o risco do bebê morrer afogado. O riscos existem e são reais, principalmente as hemorragias durante o trabalho de parto, que são fatais caso não haja intervenção imediata. Pode acontecer de a criança nascer e o útero não contrair, o que também é grave é exige a retirada do órgão. Pode ocorrer também uma situação em que o bebê pare de respirar... Por outro lado, não vejo esse boom por partos alternativos nas redes, como muitos falam. Avalio que se os partos vaginais pelo método Leboyer estiverem entre 3% a 4% do total, é muito. São estimativas. Não chegam a 5%. O que cresce mesmo é a utilização das doulas, que beira os 10%.
P: Houve o fechamento de maternidades em Belém e isso obrigou os planos de saúde a investirem em estrutura, tecnologia e profissionais de qualidade para mulheres grávidas...
R: O HapVida, onde eu trabalho, está dando um passo à frente com a inauguração do Hospital Materno-Infantil Riomar, o primeiro da rede, em todo o Norte e Nordeste, com espaço próprio para o parto humanizado. A unidade Materno-Infantil, equipada com tecnologia de ponta, possui UTI Pediátrica-Neonatal, Centro Obstétrico, Raios-X, Ultrassom, Urgência e Emergência, centros de diagnóstico por imagem e laboratórios. O atendimento incluirá as especialidades de ginecologia e pediatria (até 14 anos), além de cirurgias de outras especialidades na área materno-infantil.
P: O que o senhor como médico recomenda às mães que desejam fazer um parto alternativo?
R: Em primeiro lugar está fazer um pré-natal adequado. Em segundo, procurar sempre interagir com seu médico e com sua equipe. Ter calma e deixar evoluir seu trabalho de parto, sempre procurando priorizar o parto natural, mas sempre com a consciência de que a qualquer momento pode ter que passar por uma intervenção cirúrgica, caso haja risco para sua vida ou para seu filho. Hoje, os planos de saúde estão se engajando cada vez mais nas diretrizes da Agência Nacional de Saúde (ANS), que preconiza sempre o parto natural, apesar de que essa modalidade custe o dobro do parto cesáreo, que vem caindo nas estatísticas de partos em todo o Brasil.
(Luiz Flávio/Diário do Pará)
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