Desde o início deste ano, uma grande amizade nasceu. Cinco amigos se tornaram inseparáveis, dentro e fora da sala de aula. Eles compartilhavam momentos nos estudos, nos esportes, e nas brincadeiras. À medida em que esse vínculo se fortalecia, a intimidade se tornava cada vez maior. Com tanta familiaridade, vários apelidos surgiram ao longo do tempo. Para os adolescentes do 7° ano da escola Sophos, localizada na avenida Governador José Malcher, no bairro de Nazaré, em Belém, as alcunhas eram apenas uma forma de interação. Só curtição.
Até que, há 3 meses, uma aluna de 13 anos não achou graça nas brincadeiras dos meninos. E se ofendeu. Baixinha e acima do peso, passou a ser chamada de ‘mamãe ursa’, devido ao seu biótipo mais robusto. Constrangida com o epíteto, ela pediu para que os amigos parassem de chamá-la daquela forma. Mas eles continuaram. Já se sentindo humilhada, a garota procurou a coordenação da escola, que tomou uma postura mais severa. Os meninos foram chamados para uma conversa, entre os orientadores e os pais, e ouviram que a ‘zoação’, mesmo quando despretensiosa, é bullying.
A NOVA LEI
A palavra já era conhecida da turma. Todos sabiam bem o que ela representa. “Bullying” vem do verbo “bully” (em inglês, “intimidar”, “ameaçar”) e tem se tornado prática cada vez mais comum nas ruas escolas, universidades e também na web. O que estudantes, pais e professores não sabiam é que, muito em breve, o bullying passará a ser crime, no Brasil. Para tratar o problema de maneira mais dura, foi publicada, no último dia 9, a Lei 13.185, que tem 90 dias para entrar em vigor.
Pela proposta do Governo Federal, o bullying consiste em “intimidar, constranger, ofender, castigar, submeter, ridicularizar ou expor alguém, entre pares, a sofrimento físico ou moral, de forma reiterada e sistemática”. A pena prevista é de 1 a 3 anos de prisão, mais multa. Se o crime ocorrer em ambiente escolar, a pena será aumentada em 50%.
“NÃO É LEGAL”
Os garotos da escola Sophos não precisarão passar por isso. Entrevistados pela reportagem do DIÁRIO (sob a condição de não terem os nomes publicados), eles disseram que aprenderam a lição. “Eu era apelidado de ‘sem coração’, pois tinha asma e ficava sem respirar. E sempre levei na boa”, conta um dos meninos. “Mas, agora, sei que isso não é legal”. Ele garante que não voltará a usar características físicas dos colegas para ofendê-los, ainda que “sem maldade”.
Outro adolescente envolvido no episódio da “mamãe ursa” teve um exemplo ainda mais eloquente. Sua própria mãe foi vítima de bullying. Preocupada com o comportamento do filho, ela revelou que também sofria bullying na infância. “Ela me disse que se sentia isolada, depressiva e que esse tipo de brincadeira incomoda”, contou o menino, de cabelos cacheados e olhos amendoados. Hoje, sem apelidos, os amigos voltaram a se entender, e todos são tratados pelos seus verdadeiros nomes.
AUMENTO
Em maio deste ano, uma pesquisa do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o apoio da Universidade de São Paulo, confirmou que aumentou de 5% para 7% os casos de bullying nas escolas do País. O levantamento apontou, também, que 21% dos alunos já praticaram algum tipo de bullying contra os colegas, e que a prática é proporcionalmente maior entre os meninos do que entre as meninas.
(Roberta Paraense/Diário do Pará)
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