O último ano foi marcado por um reaquecimento do ativismo de mulheres frente a diversos temas - de violências sofridas a repúdios contra assédios e buscas por direitos vários, seja no campo de trabalho ou às questões comportamentais mais diversas. O que há de novo nesse movimento é que as opiniões vêm ganhando corpo e maiores repercussões com a ajuda das redes sociais. Mas, afinal, como essas novas vozes na web estão construindo uma nova história de engajamento político por avanços de direitos de mulheres? Qual o alcance, as peculiaridades e os impactos desse novo ativismo para uma nova participação política no Brasil? No País, onde 120 milhões de pessoas têm acesso à internet, a nova plataforma de debates tem uma peculiaridade: também é cada vez mais um dos maiores palcos para diversos tipos de violência, violação de direitos e ofensas contra mulheres.
Para avaliar esse cenário, o DIÁRIO conversou com a doutora em Ciência Política Luzia Miranda Álvares, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) que coordena o Observatório de Monitoramento da Lei Maria da Penha na região Norte e também o Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes (Gepem), que se destaca nas frentes de pesquisas sobre mulheres no Norte. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que cerca de 70% das mulheres em todo o mundo sofrem algum tipo de violência de gênero ao longo da vida. Entre 84 nações, o Brasil há tempos segue entre as dez piores em casos de agressões contra mulheres. Entre brasileiras, 77% das mulheres em situação de violência sofrem agressões semanal ou diariamente, indicam dados da Central de Atendimento à Mulher (o Ligue 180), da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Nesse quadro, o Pará se mantém na segunda posição entre os piores cenários de denúncias listadas no Brasil. Confira a conversa:
P: Os debates sobre a violência contra as mulheres e a igualdade de direitos cresceram nessa nova parte da esfera pública que se tornou as novas mídias. Uma nova onda feminista está em curso?
R: As novas mídias são uma nova ferramenta para manter o curso das demandas das mulheres e feministas, em todas as áreas de interesse em recuperar a cidadania. Secularmente as mulheres têm lutado para romper com o modelo tradicional feminino, que desloca o olhar da sociedade para um padrão instituído, subordinando-as. E, em cada época, elas utilizam os meios que tendem a visibilizar seu desalento com o que as submete, para fugir a esses padrões já traçados. Hoje há blogs, site, posts no Facebook e no Twitter, etc., usados pelas mulheres que nem sempre se consideram feministas, mas já têm consciência de que algo está incorreto numa sociedade que as acusa de depravadas e de vadias até pelo comprimento e o tipo das roupas que usam. Ontem elas tinham seus diários, as cartas íntimas, as greves de fome (pelo direito do voto), os escritos e as poesias anônimas que mandavam publicar nos jornais da época. E se formos à Revolução Francesa, nas assembleias, embora não tivessem direito de voz e de voto, elas escreviam as suas queixas em seus “cahiers doléance” (ou cadernos de argumentação), solicitando de outrem a leitura de seus escritos para informar aos deputados dos Estados Gerais o que necessitavam.
P: De que maneira as novas formas de comunicação têm contribuído para dar visibilidade à pauta feminista?
R: Ao abrir-se para um número considerável de novos atores sociais, que hoje têm maior acesso à área digital. E essa pauta contribui não só para a visibilidade das demandas das mulheres. São meio de informação para outros atores sociais, para novas alianças. Agregam-se grupos que apresentam pautas de reivindicação de direitos e contra a discriminação. Neste contexto, veem-se as (trans) sexualidades, por exemplo, um tema cercado de preconceitos, obscuridades, medos e desconhecimentos. E que se insere com maior visibilidade para tratar sobre corpos que se desconstroem e reconstroem continuamente, corpos inventados e ao mesmo tempo corpos reais, diversos daqueles que o modelo binário nos apresenta como únicos. Mas nem sempre essa visibilidade é cercada de positividade no meio digital. Há discursos contrários, em palavras odiosas de preconceito, tanto para as mulheres como para os demais grupos da diversidade racial e social.
P: Ao mesmo tempo em que as reivindicações das mulheres ganham espaço, temos também cada vez mais grupos que se opõem ao feminismo, usando as redes para combater e ridicularizar a pauta das mulheres...
R: As versões sobre a diferenciação do tratamento secular nas relações sociais entre mulheres e homens proliferaram socialmente. E trouxeram todo tipo de atitudes violentas, para que a manutenção do padrão de relacionamento entre os gêneros mantenha a hierarquização do “um” sobre o “outro”. E o “outro” somos nós, mulheres. Os discursos tradicionais não aceitam qualquer “risco” ao “status quo” e ao que aprenderam e absorveram como verdades repassadas na família, na escola, nas igrejas. Pessoas de todas as idades investem contra um comportamento feminino que teimam em considerar como aquele que desobedece a tradição. Mães em casa e nos afazeres domésticos sempre foram imagens do destino único das mulheres. Então, porque não usar também a mídia digital para desfazer as novas imagens femininas com as ferramentas que as feministas usam também para protestar? Nunca haverá unanimidade nas versões da representação social das mulheres.
P: Não há como negar que houve avanços na pauta das mulheres nas últimas décadas. Quais são as mais novas pautas de reivindicações?
R: A pauta mais expressiva e significativa é garantir direitos sociais e políticos. Parte dos direitos humanos foi surgindo ao longo do tempo e se inscrevendo num processo de hierarquização nas relações de gênero. E, conscientes de esses eram processos masculinos, as mulheres foram às ruas conquistar o direito ao voto, à educação, ao trabalho, aos salários iguais e contra violência que não as admitia como iguais aos seus parceiros. O que se vê hoje? Embora o eleitorado feminino suplante o masculino, há ainda a sub-representação política, no Executivo, no Legislativo e em todos os espaços de decisão política. Embora seja uma demanda histórica, conquistada, ainda hoje é passível de estar incompleta a cidadania feminina.
P: E em relação a diferença de salários pagos aos homens e às mulheres?
R: Antes, esse aspecto era justificado pela desqualificação do saber formal das mulheres. Hoje, mesmo com o aumento do número de mais escolarizadas e com pós-graduação, o diferencial dos salários permanece como uma questão que não pode ser deixada de lado. Assim, revigora-se o protesto para a eliminação disso. Desde 2011, as brasileiras donas de casa têm seu direito de aposentadoria garantido. Avaliação de políticas públicas para garantir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres também é demanda antiga. E a mais forte luta desde tempos pretéritos é contra a violência doméstica e sexual, que se antes era tratada como situação natural de um relacionamento. Hoje, há leis que protegem as mulheres das atrocidades aplicadas por seus parceiros, como Lei Maria da Penha. As conquistas foram significativas, mas as mulheres permanecem ainda hoje vigilantes para não perderem o que conquistaram.
P: Por que é tão difícil combater a violência contra as mulheres no Brasil?
R: O machismo e a a homofobia são antivalores culturais ancestrais, da cultura patriarcal, práticas que resistem ao reconhecimento das mulheres e demais atores sociais enquanto humanas e humanos. Há três questões: a desinformação entre as mulheres e da sociedade em geral sobre a hierarquização das relações de gênero que motiva a violência contra mulheres. E é importante inclusão dos homens nessas discussões, visto que a política do sistema patriarcal motivou os valores que definem essas hierarquias ainda hoje. Essa política é o que exige o seguimento do comportamento feminino tradicional, em desrespeito à criação de uma nova identidade delas. Por último, há a impunidade dos agressores. Se veem que a punição ocorre, refletem melhor antes da agressão.
P: É comum ver nas redes sociais da internet mulheres que se opõem à luta feminista. Por que isso ocorre? Como mudar essa realidade?
R: Mudar a concepção de todas as pessoas quanto à importância de valorização das mulheres continua não sendo fácil, porque o padrão patriarcal se mantém num sistema recorrente. Se hoje há muitas conquistas, as mulheres estão usando o ativismo para que estas se mantenham. E isso exige que estejam atentas também às que se opõem a esses avanços, à ruptura aos padrões estabelecidos. Sempre haverá práticas antifeministas.
(Rita Soares/Diário do Pará)
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