As amigas Patrícia Peixoto e Eliana Rodrigues são duas guerreiras. Elas lutam pelo bem mais precioso do ser humano: a vida. Em nome do direito de viver, vêm realizando verdadeiras cruzadas pelo Brasil em busca da aprovação do uso da medicação fosfoetanolamina, conhecida como “a pílula do câncer”. Ambas têm câncer de mama. E nem mesmo os efeitos colaterais da quimioterapiaconseguem conter a gana pelo desejo de viver. A batalha das duas amigas para conseguir um tratamento justo, humano e adequado fez com que elas criassem, com mais 8 colegas, o grupo “Amigas do Peito do Pará”, para ajudar mulheres que lutam contra o câncer de mama. Acabaram se tornando referência no Pará para essa causa.
Na última quarta-feira (9), Patrícia e Eliana desembarcaram em Brasília, para mais uma etapa desta luta pela vida. Debilitada por uma recente sessão de quimioterapia, Patrícia passou mal. Chegou a desmaiar no Palácio do Planalto, na sala do assessor da Secretaria de Relações Institucionaisda Presidência da República, Danilo Gennari. Elas estavam na Capital Federal para participarde mais um encontro de mobilização política pela liberação do uso da pílula do câncer.
Uma das reuniões aconteceu no Palácio do Planalto, de onde saíram com a esperança de ter um encontro com a presidente Dilma Rousseff, que já teve um câncer, no sistema linfático - a reunião pode acontecer na próxima semana. O DIÁRIO acompanhou a jornada das duas amigas em Brasília.
Além de terem de enfrentar o doloroso processo de lutar contra uma das mais graves doenças do mundo - serão quase 600 mil novos casos no Brasil, só este ano -, Patrícia, Eliana e todos os pacientes vítimas do câncer no Pará precisam enfrentar outro problema: o descaso do Governo do Estado. Hospitais que deveriam atender aos doentes sofrem com a falta de estrutura e/ou de pessoal qualificado. Esse é um dos motivos pelos quais Patrícia e Eliana são obrigadas a rodar o Brasil, em busca de apoio etratamento. Mas até desse problema, conseguiram tirar algo positivo. “Descobrimos, nesta luta, a força e a coragem para viver”, diz Patrícia.

Patrícia e Eliana: juntas na luta contra o câncer e pelo direito à cidadania. (Foto: Divulgação)
Mesmo com o apoio uma da outra, as amigas enfrentam uma dura realidade. Além do câncer de mama, Patrícia teve um tumor no pulmão e outro na língua. Cicatrizes, dores, limitação na capacidade respiratória, dificuldades de mobilidade e de uso adequado da força das mãos e braços não foramsuficientes para mostrar aos peritos do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que ela não é mais capaz de trabalhar. Tenta conseguir a aposentadoria, desde a última cirurgia na língua. Ao menos, já obteve o direito ao auxílio-doença, de R$ 2.700, que mal dá para pagar os custos com medicamentos: R$2.600.
ABANDONO
Pior situação vive Eliana. A professora ainda não obteve sequer o direito ao auxílio-doença e não consegue fazer a perícia pelo INSS. Vive da ajuda de pessoas amigas. “Não está sendo fácil. Hoje, não consigo trabalhar. Mas me sinto uma guerreira de Deus”, conta. “Senti o abandono da família e fui discriminada pela sociedade. Mas sigo lutando pela vida e em busca da felicidade”, diz.
Há 4 meses, as duas amigas não conseguem receber a medicação nos postos públicos de saúde. Familiares de Patrícia, que moram no Rio de Janeiro, ajudam, mandando dinheiro para a compra de remédios e para pagar o planode saúde. Eliana não tem a mesma sorte. Há 4 meses, não toma os remédios, entre eles a morfina, para ajudar a amenizar as fortes dores. Ela também não tem plano de saúde e depende do tratamento em hospitais públicos.
“Somos órfãs de cidadania e vítimas da burocracia. A burocracia é nosso pior inimigo. Quem luta contra o câncer tem pressa”, desabafa a professora. Hoje, elas são melhores amigas e trocam apoio e amparo. Compartilham do desejo de viver e de criar os filhos. Têm, ainda, outro ponto em comum. “Queremos ajudar as vítimas do câncer, que sofrem com o completo abandono do sistema público de saúde”, destaca Patrícia. Ela e Eliana não querem apenas vencer o câncer. Querem, principalmente, ajudar outros a vencê-lo.
(Luiza Mello/Diário do Pará)
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