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Saudades da terra natal!

Tomar um tacacá mesmo no calor, comprar açaí quando bate aquela vontade, vestir a camisa de Remo ou Paysandu e ir ao Mangueirão ver a maior rivalidade existente entre 2 clubes paraenses. Hábitos corriqueiros que fazem parte da vida de muitos que moram em

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Tomar um tacacá mesmo no calor, comprar açaí quando bate aquela vontade, vestir a camisa de Remo ou Paysandu e ir ao Mangueirão ver a maior rivalidade existente entre 2 clubes paraenses. Hábitos corriqueiros que fazem parte da vida de muitos que moram em Belém são sinônimo de saudade para quem é daqui e precisou fincar raízes longe da terrinha, às vezes até em outros países. Essa sensação de pertencer à cidade de origem, mesmo morando em outro lugar, é natural, segundo o mestre em antropologia da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Mário Brasil. “Isso marca nossa identidade cultural. Você, mesmo saindo, guarda o jeito de falar, a gastronomia, as festas religiosas, o lazer, o tipo de música, o time do coração. Belém, como várias outras capitais, tem uma marca de identidade muito grande”, destaca. E o que a ciência antropológica comprova através de estudos, os “papa-chibés” da capital paraense espalhados mundo afora vivenciam na prática.

DA AUSTRÁLIA

Que o diga Cláudio Rodrigues Coimbra, 46 anos. Ele precisou cortar o cordão umbilical com a terra natal em 1996, em nome da profissão de geólogo. O distanciamento, porém, foi aos poucos. Primeiro morou em Parauapebas, sudeste paraense, depois foi para municípios fora do Estado - São Luís (MA), Macapá (AP) e Brasília (DF) - até partir para outro continente, a Oceania. Hoje na Austrália, passou por Perth e Brisbane, cidade em que reside, no estado de Queensland. “Fui embora porque passei em um concurso e depois recebi proposta para trabalhar em uma grande mineradora na Austrália”, conta Cláudio Rodrigues. Seus laços com a cidade, porém, continuam firmes.

“Meus filhos todos nasceram em Belém e minha esposa também é da cidade”, destaca. Ele afirma que sente saudades de andar pelo Ver-o-Peso e ver o Remo jogando. “Eu acompanho as notícias do meu time até hoje. Do outro lado do mundo comemorei a subida do meu clube na Amazônia, da 4ª para a 3ª divisão”, explica. A última vez em que o geólogo visitou a “cidade das mangueiras” foi no fim de 2014, quando reencontrou velhos amigos e até voltou a se aventurar como músico em uma banda, a Solano Star. “Foi muito legal voltar a tocar e rever os parentes e amigos”.

Mesmo com todo esse amor, Cláudio não deixa de ser crítico quando perguntado sobre que presente gostaria que Belém ganhasse de aniversário. “Fico feliz quando volto e percebo atitudes isoladas de pessoas querendo conservar o centro histórico, por exemplo. Mas é triste perceber que Belém está mais para o Congo do que para Brisbane. Estive no Congo ano passado e achei bem parecido algumas coisas com minha terra natal”, analisa.

SÃO PAULO

Para quem mora fora de Belém, em terras brasileiras, é mais fácil aplacar a saudade. É o caso do médico Alcyd Pedro Paulo Ferreira, 47 anos. Ele deixou a cidade em que nasceu logo que se formou, em 1992, quando foi convocado pelo serviço militar. “Naveguei pelos rios da Amazônia por 1 ano, prestando atendimento médico à população. Depois, fui aprovado na residência médica em São Paulo, onde moro até hoje”, conta. Após 25 anos fora, Alcyd diz que ainda sente muita saudade da cidade em que nasceu. “Tento, com certa frequência, suprir esse sentimento indo a Belém ou encontrando, aqui em São Paulo, amigos paraenses para saborearmos a nossa culinária”. Nesses encontros, segundo ele, as lembranças de Belém costumam ser os momentos mais prazerosos.

A lista das lembranças é extensa. “A chuva, o tacacá da tarde, o cachorro quente de carne moída em cada esquina, o parque de diversões no período do Círio, o Círio, a Basílica de Nazaré, o sorvete de frutas regionais na Estação das Docas...”, enumera. Mas o que ele afirma sentir mais saudade é da Praça Batista Campos aos domingos. “Nada melhor do que beber água de coco sentado nos bancos da praça ou no gramado num dia de descanso”. O passeio vai ter de esperar até a próxima viagem. Mas, ainda assim, Alcyd deixa sua mensagem para a cidade natal. “O melhor presente é que o belenense se conscientize do potencial que a cidade oferece e passe a ter orgulho disso e cuide mais daí. Quem sabe assim possamos ser um exemplo para todo o nosso País em qualidade de vida”.

RIO DE JANEIRO

No município de Rio das Ostras, no estado do Rio de Janeiro, outro casal paraense nascido em Belém não esquece as origens. O agrimensor Antônio José dos Anjos, 37 anos, e a turismóloga Suzana Alcântara se divertem com a curiosidade dos fluminenses em relação à capital paraense. “Quando falamos que somos de Belém, as pessoas perguntam logo se é verdade que chove todo dia e se tem uma comida que demora uma semana para ficar pronta”, conta Suzana, sobre as associações feitas com o alto índice pluviométrico da região e a maniçoba, prato típico do Estado.

O seu marido, Antônio, lembra “do jeitinho típico de falar do belenense, das comidas, da chuva da tarde que não tem mais hora pra vir, dos amigos, da família e, principalmente, da mãezinha de Nazaré no Círio e do meu clube de coração, a Tuna Luso”. De presente nesses 400 anos, ele pede que o poder público deixe o bolo dos parabéns de lado e se preocupe com o que, para ele, realmente importa.

“Quero mais segurança para a população. Hoje moro em Rio das Ostras e vejo como principal diferença para Belém a segurança”, afirma Antônio, lembrando que já foi roubado em Belém. “Mas a população também precisa ser mais educada, não jogar lixo nas ruas”, analisa. Críticas a parte, a paixão pela aniversariante ‘quatrocentona” fala mais alto. “Sempre que posso estou em Belém. Quando estamos longe é que aprendemos a dar valor às nossas origens”, diz.

(Luiz Octávio Lucas/ Diário do Pará)

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