Desde dezembro passado, o Instituto Evandro Chagas (IEC) registrou 26 casos de doença de Chagas no bairro do Bengui. Duas vítimas estão internadas em estado grave. “Estamos com um surto nesse bairro”, destaca o biólogo e farmacêutico, Aldo Valente, coordenador do Laboratório de Doença de Chagas do IEC.
As vítimas têm entre 7 e 72 anos. Os casos foram identificados em 14 moradias, em um espaço de apenas 300 metros. “Essas pessoas nos procuraram. Passamos o Natal e o ano novo estudando os casos”, diz Valente. As pessoas contaminadas apresentaram sintomas semelhantes a outras doenças como febre prolongada, manchas pelo corpo e dores nas articulações.
No ano passado, 94 casos no Pará chegaram ao conhecimento do IEC, três pessoas morreram vítimas da doença. Já a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) confirmou 209 casos, com duas mortes. “Essa é apenas a ponta do iceberg”, diz Valente, se referindo aos demais casos que não chegaram ao conhecimento dos órgãos. Dentre as vítimas fatais está o médico ginecologista Manuel Cardoso que, após 64 semanas apresentando o quadro clínico da doença de Chagas, não resistiu e morreu. O seu cunhado também contraiu a doença e conseguiu ser tratado.
TRANSMISSÃO
O pesquisador afirma que a transmissão da doença por meio do açaí contaminado pelo barbeiro infectado pelo protozoário Trypanosoma Cruzi foi descoberta há 20 anos, quando uma equipe do IEC passou a avaliar vários casos em uma mesma família, no município de Mazagão, no Estado do Amapá.
Após vários estudos de outros casos, este tipo de contaminação foi confirmada. “Tivemos evidências científicas que o açaí era o alimento envolvido. Quando identificamos isso, repetimos a experiência, aí sim, mudou o foco da doença”, conta Aldo Valente, que atua há 35 anos no IEC. Para ele, esta descoberta foi “um achado raro”. “Não é fácil mudar o paradigma do curso de uma doença que está descrita há 110 anos”, disse o pesquisador.
CONTAMINAÇÃO
Os estudos apontam que o barbeiro costuma migrar para o açaí durante o transporte do fruto até os pontos de venda. Isso ocorre, principalmente, no nordeste no Pará, região mais populosa, onde o açaí é nativo.
Os registros dos casos de contaminação pelo barbeiro constumam ficar maiores a partir do dia 24 de julho até dezembro, quando a incidência de chuva é menor e aumentam as ocorrências de queimadas. É nesse cenário que há uma dispersão do inseto do seu habitat e também inicia a safra do açaí. Os meses de setembro e outubro são considerados os mais propícios para a contaminação.
A DOENÇA
O pesquisador Aldo Valente explica que há 2 estágios da doença de Chagas: aguda e crônica.
A primeira fase dura de uma a seis semanas.
Dependendo da idade, estado nutricional e quantidade de alimento ingerido pelo paciente, o tratamento será hospitalar ou ambulatorial.
No caso crônico, a pessoa pode ter de conviver com a doença para o resto da vida.
Valente orienta os pacientes a buscarem ajuda de um infectologista ou bom médico clínico assim que os sintomas surgirem.
(Michelle Daniel/Diário do Pará)
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