Por trás dos olhares carinhosos e do abanar frenético de rabos que se inicia diante do primeiro sinal de carinho, o que se esconde são passados marcados pelo abandono. Histórias que, apesar de sofridas, começaram a ser modificadas à medida em que cada cão e gato encontrou no abrigo Au Family, instalado no distrito de Outeiro, uma nova possibilidade de viver. Mesmo oferecendo alimentação, banho e um lugar seguro para dormir, a manutenção do abrigo para os cerca de 560 animais pode estar ameaçada por quem teria a obrigação de lhes defender.
Voluntária do abrigo Au Family, Melissa Matsunaga, 23 anos, conta que, na última terça-feira (26), um perito do Instituto Médico Legal (IML) esteve no local para vistoriar o abrigo mantido em cinco espaços interligados. Como consequência, várias exigências foram feitas para que o abrigo pudesse continuar em funcionamento.
Solicitaram uma série de documentos entre alvarás, autorizações e deram o prazo de 72 horas para conseguirmos, o que não é possível”, disse Melissa. Diante da impossibilidade de conseguir a documentação dentro do prazo estipulado, Melissa e os demais voluntários se preocupam com o que pode acontecer com os animais cuidados pelo abrigo. “Se fecharem o abrigo, serão 560 animais que a Prefeitura de Belém vai ter de assumir”, destacou.
Preocupados em evitar a reprodução dos animais abrigados, os funcionários do local se empenham em acomodar os cães e gatos que ainda não foram castrados apenas com os que já receberam castração. Ao todo, são 115 gatos e 445 cachorros que têm o espaço separado em canis como morada. Tudo é mantido apenas com recursos próprios e doações. “O espaço precisa de melhorias, mas não conseguimos terminar as obras, por falta de dinheiro”.
Em um dos terrenos utilizados pelo abrigo, um novo canil já começou a ser construído, mas as obras estão paradas há alguns meses por falta de recursos. Por mês, são necessários R$ 20 mil para arcar com os custos de aluguel, consultas veterinárias, 90 quilos de ração por dia, os salários de oito funcionários, entre outras despesas.
PODER PÚBLICO OMISSO
Funcionária do abrigo, a Marilete de Souza Sampaio, 45 anos, lembra que, além dos animais resgatados das ruas, o Au Family ainda cuida de vários gatos e cachorros que são abandonados constantemente na porta do abrigo. “As pessoas não querem ter trabalho de cuidar e amarram aqui na frente”, conta.
Apaixonada por cada um dos animais que ajuda a cuidar, ela já perdeu as contas de quantas vezes chegou a levar vários dos abandonados na rua para dentro da própria casa. “Lá em casa tem 20 filhotes de gatos que foram abandonados. Eu tenho todos eles como se fossem meus filhos”. Diante da irresponsabilidade e desumanidade de pessoas que abandonam seus animais nas ruas, a representante do Fórum Permanente de Defesa dos Animais – que congrega as associações ligadas à temática existentes no Estado -, Olinda Cardias, lembra que o problema já é de saúde pública. “O poder público é omisso quando não promove políticas públicas, educação humanitária e castrações em massa”.
Destacando que a situação enfrentada pelo Au Family é a mesma vivenciada por muitos outros abrigos existentes em Belém, Olinda demonstrou total apoio do Fórum ao trabalho desenvolvido pelo abrigo. “Exigir uma adequação dessas para uma entidade como essa é uma utopia. Eles estão aqui fazendo o trabalho que o governo não faz”, aponta.
O DIÁRIO solicitou posicionamento ao Centro de Perícias Científicas “Renato Chaves” (CPC) para falar sobre o possível rigor nas exigências para funcionamento do abrigo, mas não obtivemos resposta. A coordenação do Au Family tenta estender o prazo para cumprir as medidas recomendadas pelo CPC.
(Cintia Magno / Diário do Pará)
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