Os olhos brilham. E chegam a ficar levemente marejados, enquanto a técnica em mineração Amélia Parente, 59 anos, fala da antiga paixão que ela nutre pelo seu Fusca. O interesse pelo carro começou na infância. Seu avô já era um colecionador de “fusquinhas”, como carinhosamente ela chama. Amélia confessa que, aos 17 anos, chegou a pegar o carro escondida do avô para sair com as irmãs e algumas amigas. A travessura adolescente se repetiu por várias vezes. E, pasmem, Amélia conseguia carregar umas 12 pessoas dentro do seu carango. “Eu sumia e ele ficava aborrecido. Depois me beijava e dizia que estava tudo bem, porque entendia”, conta ela. E tudo não passava de uma curtição, uma grande brincadeira entre amigos.
A VIDA NO FUSCA
Quando completou 23 anos, Amélia adquiriu o seu primeiro Fusca. A partir daí, não parou mais. Atualmente desfila com um de modelo 82. Ela sente orgulho, com toda razão: também sabe se virar quando o seu Fusquinha precisa de algum ajuste ou de reparos. Ela mesma troca o farol, conserta o motor, troca freio, o limpador e até o retrovisor.
O Fusca é o meio de transporte de Amélia. Ela faz viagens com o carro, que tem um bagageiro para carregar cama e até madeira. E quando é preciso, o banco traseiro é retirado. Dá até para fazer mudança. Filha de Amélia, a geóloga Amélia Carolina Parente, 26, mostra que herdou da mãe o amor pelo carro - e faz jus ao ditado que diz: “filha de peixe, peixinha é”. Ela comprou um Fusca 1972, assim que tirou a carteira de habilitação, há cerca de 4 anos.
Amélia e a filha são as únicas mulheres que participam dos encontros do “Clube dos Fuskeiros do Pará” dirigindo seus próprios Fuscas. “É uma extensão da nossa própria personalidade. É um carro conhecido mundialmente e, quiçá, até fora do mundo (risos). Quem tem preconceito, realmente, não sabe o que é viver”, dizem, em coro.
Presidente e um dos fundadores do Clube dos Fuskeiros do Pará, fundado há 6 anos, o motorista de ônibus Paulo Ronaldo Trindade, 46, é só alegria quando fala de seu Fusquinha 74, azul. Não é para menos. Aquele brinquedinho de criança acabou virando o sonho de consumo de Paulo - que, felizmente, se realizou para além das brincadeiras de menino. Quando comprou seu primeiro Fusca, em 2008, ele ouviu falar dos clubes que existiam pela cidade. Decidiu ir para a Praça da Sé distribuir panfletos, na tentativa de reunir outros amantes do lendário veículo. Conseguiu.
CONTANDO VANTAGENS
Entre gargalhadas, Trindade lembra que chegou a convidar 30 pessoas, mas só apareceram 4 no encontro naquela mesma praça, em Belém. Mas ele não desistiu, até que em 2010 conseguiu reunir 45 “fuskeiros”. E, assim, nasceu o clube. De lá para cá, as reuniões passaram a ser frequentes. E, neste mês, mais precisamente no último dia 20, foi celebrado o Dia Nacional do Fusca. Em 22 de junho, há mais comemoração, para marcar o Dia Mundial do Fusca.
Ronaldo ressalta que a vantagem de ter um Fusca é que a manutenção é barata. Ele é econômico, as peças são baratas e o licenciamento idem. Existem pelo menos 4 lojas em Belém que dispõem de peças para o carro, além da internet onde podem ser encontradas facilmente. O pequeno Gabriel de 8 meses, fruto do seu casamento de Ronaldo com Nilza Lima, 21, já saiu da maternidade dentro do Fusca da família.
Para proteger o carro do clima amazônico, quente e úmido, Ronaldo diz que, nesta época do ano, guarda as rodas originais do modelo 74 para não enferrujar. No lugar, coloca rodas de magnésio. De acordo com Ronaldo, Belém tem cerca de 150 “fuskeiros”. “Todo dia a gente descobre um novo”. Domingo passado teve encontro. Hoje, 31, farão uma carreata. “Vamos invadir Mosqueiro de Fusca”, avisa o fuskeiro.
CRIADO PARA HITLER
O primeiro Fusca nasceu a pedido do ditador alemão Adolf Hitler a Ferdinand Porsche.
O velho ”Beetle” foi nomeado Volkswagen - que em alemão que dizer “carro do povo”.
Era o início da década de 1930. Ferdinand Porsche desenvolveu o projeto na sua própria garagem, em Stuttgard, Alemanha. Em seu primeiro projeto, o Fusca era equipado com um motor dois cilindros refrigerado a ar - o que resultava em um péssimo rendimento.Só depois foi criado o motor com quatro cilindros.
A suspensão dianteira era independente, e funcionava por meio de barras de torção. Foi um projeto revolucionário: até então os carros da época eram feitos com motores refrigerados a água e suspensão com feixes de molas (tipo suspensão de caminhões) ou sistema de molas helicoidais.
PRIMEIRO POPULAR
Lançado em 1935, o Volks podia ser comprado por quase todos, ao preço de 990 marcos. Tinha motor refrigerado a ar, sistema elétrico de 6 volts e câmbio de 4 marchas - até então, só se fabricavam carros 3 marchas.
As evoluções foram constantes: vieram os freios a tambor, caixa de direção, quebra vento, saída única de escapamento, estribo e janelas traseiras. Em 1937, existiam 30 modelos sendo testados na Alemanha. Em 1938, iniciou a fabricação em série do carro. Detalhe: o apelido ‘Fusca’ nasceu no Brasil.
DE PARAR O TRÂNSITO
Quando o assunto é o seu Fusca, “Eliluce”, o comerciante Henrique Poiares, 44, literalmente não economiza tempo e dinheiro. Apesar do carro ser utilizado só para o lazer, Poiares conta que o fusca moderno com teto solar, encosto de cabeça, DVD, rodão aro 18 e sonzão faz parar o trânsito por onde passa. “Já cheguei atrasado em encontros, porque onde eu vou todo mundo quer tirar fotos. As pessoas abaixam os vidros dos carros e filmam. É que meu Fusca é todo transformado”, gaba-se.Henrique comprou o carro por R$ 6 mil. E confessa que já gastou em torno de R$ 25 mil para transformar o carro. Aos fins de semana, quando não tem encontro com colegas fuskeiros, ele e a esposa viajam no veículo. “O Fusca é o carro do século. É um filho pra gente. É um brinquedinho de adulto. A gente torce para chegar o domingo, porque é nossa segunda família”, brinca.
DESPEDIDA SOBRE QUATRO RODAS
O primeiro carro do odontólogo Heron Pedreira, 68, foi um Fusca. O atual, modelo 82/83, é o seu quarto modelo. Entretanto, a história mais engraçada vivida pelo amante do carro foi num Fusca modelo 72. Heron conta que, prestes a subir ao altar, quando estava iniciando sua carreira profissional, foi trabalhar no município de Maracanã, no interior do Estado. Na época, os amigos resolveram fazer uma despedida de solteiro para ele - no bendito Fusca.“Disseram: ‘vamos batizar teu carro’. Jogaram cachaça nele. Era um fusca 72 verde. O carro ficou todo encarchado e eu tive de lavar todinho para voltar para Belém”, conta sorrindo. Torcedor do time do Remo, Heron diz que, toda vez que sai, cobre o seu carro com uma bandeira do time do coração. Para ele, ao final de tudo, o que mais vale a pena são as amizades que nascem dessa paixão chamada Fusca. “Temos uns 5 grupos no WhatsApp. São pessoas fantásticas, que merecem todo o respeito da gente”.
(Pryscila Soares/Diário do PArá)
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