Uma polêmica tomou conta da comunidade católica de Belém no último fim de semana. Internautas e pessoas ligadas à Basílica Santuário de Nazaré afirmaram que o afastamento das atividades do padre Geffison Silva, de 32 anos, teria sido supostamente motivado pelo fato de que o sacerdote teria engravidado uma fiel e tido uma filha com outra. O caso repercutiu como um escândalo entre cristãos da capital paraense, mas também levanta uma questão: o celibato ainda tem alguma validade nos dias de hoje?
"É importante entender que todas as religiões exercem algum tipo de controle sobre a sexualidade dos sacerdotes", afirma o cientista da religião e mestre em teologia José Antônio Mangoni. "No caso do celibato na Igreja Católica, a medida passou a ser uma obrigação a partir do século XVI, mas já era aplicada de certa forma desde o século XI".
Segundo ele, o celibato não é um dogma – uma ponto fundamental e indiscutível que fundamenta a religião –, mas, sim, uma medida disciplinar, passível de ser discutida, revista e até suspensa.
"As motivações para estabelecer o celibato foram diversas. Havia um viés econômico, para prevenir que a herança de padres mortos ficasse para a esposa ou para os filhos. Há também a motivação disciplinar, para manter o foco no seminário", continuou Mangoni.
Mesmo dentro do catolicismo, a questão do celibato é dividida. No rito latim, praticado em parte da Europa e nas Américas, o clero religioso não pode ter relacionamento, enquanto que o clero secular, como os diáconos, não possui o impedimento. Já no rito oriental, todo o clero possui permissão para o matrimônio, com exceção do patriarcado e de bispos. Nos cargos mais altos, como de arcebispo ou papa, o celibato é obrigatório.
A ideia por trás da medida é fazer com que o sacerdote possa dedicar a vida à religião sem sofrer interferência de agentes externos, ou de dividir a missão de vida com a família. Entretanto, mesmo a própria igreja está revendo validade da medida. "Conferências episcopais da Ásia e das Américas já discutiram se deveria ser mantido o celibato. A pauta ainda não entrou na agenda oficial do Vaticano, e até o regime de Bento XIV não havia discussão sobre isso, apesar de que o papa Francisco já assinalou a ideia de rever essa questão", afirmou Mangoni.
O papa Francisco admitiu que está refletindo sobre o celibato e a situação de padres casados que celebram missas no rito oriental. "Isso está presente na minha agenda", disse o Pontífice, ao ser questionado sobre o tema durante um encontro com sacerdotes em Roma, em fevereiro de 2015. Na ocasião, o Papa ressaltou, no entanto, que "aprecia" essa "regra de vida".
Opinião
Entre quem têm uma vida religiosa, as opiniões são diversas. O radialista Magno Fernandes, da Rádio Clube, chegou a entrar no seminário, mas acabou seguindo outro rumo na vida. "Saí do seminário por vontade própria, sem relação com o celibato. Mas acho uma medida correta. As questões familiares, com esposa, podem interferir no sacerdócio, então concordo que os padres devam se privar do matrimônio".
Atualmente casado, o próprio cientista da religião e mestre em teologia, José Mangoni, também integrou o seminário, mas tem uma opinião diferente. "Acho que o celibato poderia ser facultativo, com um controle da Igreja, e ser entendida como uma opção de vida, que não necessariamente impediria a carreira no sacerdócio", completou o teólogo.
O que dizem os fieis
Desde que o caso do padre Geffison veio à tona, milhares de paraenses usaram as redes sociais para opinar sobre o celibato.
"Como sacerdote, eu deveria estar aqui defendendo meu irmão no sacerdócio, mas infelizmente a indignação que estou sentindo me leva a criticá-lo pela tão grande hipocrisia de padres do tipo dele que nos condenam e nos acusam de sermos padres falsos por termos família. Cada vez me convenço mais de que estou no caminho certo, é melhor ser padre casado e honrar minha família, meus filhos, a Igreja e Deus, do que posar de padre Celibatário e por debaixo dos panos praticar Fornicação, Adultério e Bigamia, 3 mulheres de uma vez, isso é demais meu, o cara é tarado"(sic).
Gilberto Moura critica padres que não respeitam a prática católica. "Eu acho que se eu escolho ser padre, eu tenho que seguir as REGRAS da mesma. Se é certo ou não, se biblico ou não, deixemos para o Vaticano analisar isso de casamento de padres. Importante ressaltar que ninguém é obrigado a ser padre, mas se decide ser, DEVERÁ seguir as regras impostas por esta igreja"(sic).
Apesar de ser uma regra antiga na Igreja Católica, há quem defenda que o celibato deve ser repensado. "A Igreja precisa se renovar. O Padre é um homem como outro qualquer, e com necessidades fisiológicas que ele não pode reprimir, pois é da natureza dele. Um padre quando se forma tem seus 27 ou 30 anos, em plena juventude, logo com sua libido em alta e que ninguém e nem ele, consegue esconder. Melhor comungar com um padre casado que pegar a Santa Hóstia das mãos de um Padre que acabou de se masturbar ou estuprar uma criança. Renove-se Igreja Católica. Percebam as igrejas evangélicas arrebentando espaço até com enganações e sevícias, mas estão levando o católico das Igrejas Católicas!"(sic), diz Ruth Helena dos Santos.
Cleo Meireles defende o padre Geffison. "Se a Igreja católica não acompanhar as mudanças societárias, vai ficar vazia. Podem observar nas missas que acontecem na igreja de Nazaré, são as mesmas pessoas que participam e sem desrespeitar os idosos, pois são maioria. Vamos deixar de hipocrisia, pois todo mundo sabe das coisas erradas que acontecem na igreja como: pedofilia, corrupção, ciumeira,etc. E que negócio é esse que prega uma coisa e faz outra, mentindo para os fieis sobre o que aconteceu com o padre Gefison. E outra coisa? Quem nunca errou que atire a primeira pedra. O padre Gefison faz a diferença com suas pregações. O que não dá e pra ir à Igreja louvar a Deus com missas e pregações que dá vontade de dormir, Cristo é alegria. Vamos deixar de ser hipócritas".(sic)
Na sua opinião, o celibato deve ser uma regra da Igreja Católica?
(Gustavo Dutra/DOL)
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