É preciso ampliar a compreensão da responsabilidade comunitária no enfrentamento aos criadouros de larvas do mosquito Aedes aegypti. E, para isso, deve-se partir da percepção de que não adianta apenas cada um cuidar do seu espaço. É preciso que todos cuidem do meio ambiente da cidade como um todo. É essa a proposta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a instituição da Organização das Nações Unidas (ONU), cujo objetivo é proteger a vida, promover o desenvolvimento e fazer respeitar os direitos das crianças. Em 2016, completam-se 30 anos desde que a primeira epidemia de dengue foi registrada no Brasil. E hoje, com tantas derrotas acumuladas frente ao mosquito, o grande desafio é mudar o comportamento da sociedade. O desafio de desmobilizar os criadouros da larva do mosquito exige o cumprimento de regras básicas que são repetidas exaustivamente nas campanhas educativas. Só assim epidemias de grandes proporções são evitadas.
Sobre esse esforço, o DIÁRIO convesrou com Antônio Carlos Cabral, oficial de programas do Unicef em Belém. Cabral falou sobre a proposta do fundo no Pará e no Brasil para o combate efetivo ao Aedes aegypti - que hoje é vetor de doenças como febre amarela, dengue e o zika vírus, que vem atingindo mulheres grávidas pelo país e causando a microcefalia em recém-nascidos, num grave problema de saúde pública.
P: De que forma o Unicef vem acompanhando o crescimento dos casos de microcefalia, decorrentes da proliferação do zika vírus no Pará e no Brasil?
R: O Unicef está totalmente focado nessa epidemia de zika vírus que surgiu no mundo, é preocupante, e vem atuando em parceria com o Governo Federal e os governos estaduais e municipais no enfrentamento dessa doença. De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, em 30 de janeiro, estamos com 4.783 casos suspeitos de microcefalia, com 3.670 em investigação, o que corresponde a 76,7% dos casos notificados. Há 404 casos confirmados de microcefalia. Desses, 17 foram relacionados com a contaminação por zika vírus. Até então tínhamos 76 óbitos por microcefalia no geral e, desses, 15 foram investigados e confirmados com relação direta com o zika no Brasil.]
P: E aqui no Pará?
R: Aqui no Pará, de acordo com o boletim do Ministério da Saúde de 30 de janeiro, seis casos de microcefalia permaneciam em investigação sem nenhuma confirmação de relação com o zika. No meio desta semana, ao que tudo indica, surgiu o primeiro caso ocorrido no bairro do Tapanã, que, se for confirmado, deve aparecer no próximo boletim epidemiológico.
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P: Há décadas o mosquito Aedes aegypti provoca doenças pelo mundo. Nunca se conseguiu que fosse devidamente controlado. A que você atribui isso?
R: Historicamente convivemos com epidemias de dengue há muitos anos. O primeiro caso da doença, aliás, foi registrado em 1981 aqui na Amazônia, na cidade de Boa Vista, no Acre. A partir de 1986, passamos a conviver com epidemias da doença no Brasil. São 30 anos em que convivemos com essa doença. A grande questão é: por que não conseguimos mudar o comportamento das pessoas, para que façam os procedimentos que evitem os criadouros da larva do mosquito, cumprindo as regras que são repetidas exaustivamente nas campanhas educativas? Ainda não conseguimos responder... Enquanto isso, o mosquito se reproduz assustadoramente e passa a transmitir outros vírus além da dengue e da febre amarela, como o zika e a chikungunya.
P: E qual é a proposta do Unicef a partir desse contexto?
R: Queremos trabalhar não apenas a prevenção do quintal, da casa e do espaço que o cidadão vive, mas trazer esse conceito de mudança de comportamento para a comunidade como um todo. O desafio é conseguir que a população não cuide apenas do seu espaço, mas passe a preocupar com o ambiente da sua rua, do seu bairro, da sua cidade como um todo. As pessoas ainda não entenderam que não podem se isolar no mundo da sua casa e precisam ver que a situação da sua rua, do seu bairro, também vai lhe impactar. As pessoas continuam jogando lixo em entulho nas vias e canais como se isso não lhe dissesse respeito. O espaço público é comum a todos. Aliado a isso, o poder público precisa de políticas mais eficientes, para não deixar que esse lixo se acumule pela cidade.
P: Como funciona a parceria do Unicef com o poder público?
R: Cada município está preparando seu plano de contingência para combater o Aedes, baseado na prevenção a partir da vigilância epidemiológica. O que o Unicef fez foi uma parceria com os ministérios da Saúde e Educação para o combate ao vetor. É baseado no combate ao vetor através da educação, mobilização social e na comunicação. Estamos entrando em contato com os 115 municípios participantes do programa Selo Unicef no Pará para que façam um mapeamento da doença.
P: Já foi feito algum tipo de levantamento para identificar como a infestação do mosquito se encontra aqui no Pará?
R: No fim do ano passado, foi realizado um Levantamento de Infestação Rápida (Lira) pelo Aedes aegypti através do foco de infestação dos mosquitos. Pudemos descobrir como a infestação se comporta nos municípios. Aqui no Pará, dos 144 municípios, apenas 56 (39%) realizaram o Lira. E destes, 10 municípios foram detectados em situação e risco (Água Azul do Norte, Altamira, Breves, Floresta do Araguaia, Medicilândia, Novo Progresso, Rondon do Pará, São Félix do Xingu, Sapucaia e Xinguara), 21 em situação de alerta e 25 em condição satisfatória.
P: O que fazer para que esse levantamento chegue a um número maior de municípios?
R: Estamos trabalhando junto aos municípios em situação e alerta, independente de participarem do programa Selo Unicef, para se comprometerem e enfrentarem de frente a tarefa de combate aos criadouros do mosquito. Queremos fazer com que os nove Estados da Amazônia Legal apoiem os municípios na realização do Lira, para termos uma avaliação de situação e risco. Em outra frente, queremos que as universidades se integrem a esse processo a partir de seus projetos de extensão, colocando seus alunos para conhecer na prática essa realidade difícil que precisa ser enfrentada.
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P: No caso das doenças provocadas pelo Aedes aegypti, a subnotificação ainda é grande...
R: A verdade é que a maioria dos gestores não acreditava na possibilidade do surgimento de uma epidemia de zika e os municípios, por incrível que pareça, ainda têm resistido em enfrentar esse problema. E esse foi um dos motivos para que o Ministério da Saúde pedisse apoio do Unicef. O que está acontecendo para que esse comportamento não mude? Fazemos um curso de formação e de aperfeiçoamento para os articuladores do Unicef que trabalham dentro dos municípios, e vamos incorporar como formação um módulo de eliminação e criadores de mosquitos para dar cada vez mais instrumentos para ajudar na eliminação desses vetores. Isso é feito em cada um dos escritórios do Unicef espalhados pelo País, respeitando todas as especificidades de cada região brasileira.
(Luiz Flávio/Diário do Pará)
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