Por mais de 20 horas, a tetraplégica Ivanilda Oliveira, de 50 anos, ficou recebendo apenas soro e oxigênio no Pronto-Socorro Municipal do Guamá, depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). De acordo com a nora dela, Edilene Oliveira, o acidente aconteceu na última terça-feira (01), na cidade de Barcarena, onde Ivanilda mora. Após receber os primeiros atendimentos no hospital daquele município, a mulher precisou ser transferida para Belém. Edilene contou que o encaminhamento seria para o hospital Mario Pinotti (PSM da 14), reinaugurado há uma semana. Porém, Ivanilda foi levada pela ambulância direto pro Guamá. “Disseram no hospital da 14 que não poderiam atendê-la por que ainda não estavam funcionando”, detalha. Mas a superlotação e as péssimas condições da unidade deixaram a família da paciente desesperada.
Durante as horas que ficou ao lado da sogra, Edilene relata uma situação caótica. “A maca está no chão. Na verdade, todos estão no chão”, afirma. Para piorar a situação, até a noite de ontem não havia previsão de transferência de Ivanilda para outro hospital. “O médico só olhou para minha sogra e disse que o caso dele era grave, que não deveria ficar aqui”, lamentou Edilene. Ontem à tarde, a equipe de reportagem do DIÁRIO foi até as duas principais unidades de saúde de Belém, localizadas nos bairros do Marco e Guamá. Na primeira, tudo fechado. No outro, a já conhecida superlotação.
O DIÁRIO recebeu imagens e vídeos de familiares de pacientes que registraram a rotina de atendimento: doentes sentados em cadeiras plásticas, outros deitados em macas improvisadas no chão, todos espalhados pelos corredores e até na recepção do hospital. Um homem se desespera sobre o corpo do familiar, que agoniza em um leito perto do chão. Outra pessoa abana uma idosa, por falta de ventilação.
SEM ACOMODAÇÃO
A pouca visão que a reportagem teve por uma brecha na entrada já denunciava o descaso: enfermeiras agachadas atendendo doentes espalhados pelo chão. Outros que não conseguiram nenhum tipo de acomodação e aguardavam o atendimento em pé. Foi o que relatou a dona de casa Cleidiane Lobo, de 32 anos, que acompanhava o primo, Dênis Lobo, morador do município de Curuçá. Segundo ela, no início da manhã de ontem, Dênis sentiu fortes dores abdominais. Ele precisou ser transferido para Belém para realizar alguns exames e receber o encaminhamento necessário de um especialista para o caso.
A suspeita é que Dênis esteja sofrendo com pedra na vesícula. Porém, até o final da tarde de ontem, ele continuava padecendo com as fortes dores e em pé. “Ele fez exames de sangue e está aguardando para fazer uma ultrassom. Só depois, o médico vai dizer se precisa ser internado”,afirmou Cleidiane.

Enquanto o “reformado” hospital está sem uso, pacientes são atendidos no chão do Pronto-Socorro Municipal do Guamá. (Foto: Janduari Simões/Diário do Pará)
MÉDICOS SÓ ATENDERÃO CASOS DE URGÊNCIA
Um Boletim de Ocorrência (B.O.) foi registrado no dia 25 de fevereiro por uma equipe de seis médicos do Pronto-Socorro Municipal (PSM) do Guamá e divulgado, com exclusividade, pelo DIÁRIO, em reportagem do último domingo (28). No B.O., os médicos denunciam a ausência de aparelhos necessários a cirurgias de emergência, mesmo com 9 pacientes em estado grave. Duas mortes teriam ocorrido no hospital na madrugada daquele dia. Um dos equipamentos, um carrinho de anestesia, teria sido transferido para o PSM da 14, que, coincidentemente, na mesma data foi apresentado à imprensa. Por causa desse caos no atendimento ao cidadão, os médicos plantonistas de urgência e emergência farão novo protesto no PSM do Guamá e na saúde no município, desta vez em caráter permanente, a partir de hoje. Apenas os pacientes graves serão atendidos.
A decisão foi tomada em assembleia da categoria feita pelo Sindicato dos Médicos do Pará. Os profissionais querem melhores condiçõesde trabalho, alémde reajuste dosplantões extras.
SOLICITAÇÃO SEM RESPOSTA
Ontem, o DIÁRIO enviou e-mail à Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), perguntando os motivos de o PSM da 14 de Março não ter sido reaberto ao público e se já há uma nova data para que o hospital volte a funcionar de fato. Não houve nenhum retorno. O jornal também continua esperando esclarecimentos sobre a retirada do carrinho de anestesia do PSM do Guamá para o hospital da 14 de Março. conforme matérias já publicadas pelo jornal. As perguntas que a Sesma ainda não respondeu: Qual a empresa responsável pelo reparo no equipamento defeituoso? Esta empresa já prestou outros serviços para a secretaria? Para onde o aparelho foi levado? Qual a ordem de serviço para a referida manutenção? E quanto custouo reparo?
(Michelle Daniel/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar