Há mais de 3 anos, a população de Ananindeua vivencia um verdadeiro caos. Ruas e vias intrafegáveis, tomadas por lixo, buracos e lama, escolas caindo aos pedaços, obras em postos e unidades de saúde abandonadas, material sendo saqueado e população sem atendimento. Mas, em vez de destinar os recursos disponíveis para sanar esses problemas graves, a Prefeitura de Ananindeua preferiu destinar centenas de milhares de reais para pagamento de bandas para animar o Carnaval deste ano. Detalhe importante: tudo sem licitação.
O Diário Oficial do município publicou, no dia 3 do mês passado, um Termo de Inexigibilidade de Licitação (processo nº 007/2016). No documento, a Prefeitura de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude (SECELJ), contratou, por R$ 240 mil, os serviços da empresa JKS Pinheiro Evento, Comércio e Serviço-ME. O contrato refere-se a apresentações de 16 bandas, no Carnaval da cidade.
LAMENTÁVEL
O vereador Braga (PMDB) lamenta que, enquanto postos de saúde estejam sem médicos e remédios e as escolas sirvam merenda escolar de péssima qualidade, o prefeito de Ananindeua tenha torrado verba pública no Carnaval.
“A atual gestão perdeu tudo de bom que foi deixado da administração passada, que ganhou prêmio nacional de melhor merenda escolar. É lamentável”, critica. O vereador alerta para o fato da empresa JKS Pinheiro estar ganhando novos contratos na Secretaria de Cultura. A mesma firma, segundo ele, “ganha todas” nas secretarias de Educação e Assistência Social. “Seria interessante apurar para onde está indo todo esse dinheiro”.
Apesar de reconhecer que a programação do Carnaval vem de outras gestões, o vereador Kley Alves (PT) avalia que o valor despendido por Pioneiro para o evento é alto. Segundo ele, não restam dúvidas de que atualmente há outras prioridades de investimentos no município. “O valor é alto e pelo menos metade desse recurso poderia ser utilizado para equipar nossas UPAs, que hoje sofrem com a falta de aparelhos para exames e até remédios básicos”, critica Kley.
PROMESSAS E ABANDONO NA RUA JARDIM BRASIL
Mês passado, a reportagem do DIÁRIO mostrou o abandono da rua Jardim Brasil I, à altura do quilômetro 5 da rodovia BR-316: o mato quase chega à altura dos muros e os buracos e a lama se espalham. No local, saneamento, iluminação pública e asfalto são artigos de luxo. Os assaltos são frequentes e os moradores se sentem esquecidos pela Prefeitura.
Cansados de esperar por providências, ainda em 2013 os moradores da via resolveram se unir e fazer um abaixo-assinado, entregue ao titular da Secretaria Municipal de Saneamento e Infraestrutura de Ananindeua (Sesan), Osmar Nascimento.
A dona de casa Raimunda Cruz, 62, lembra que o secretário informou na época que já existia projeto para drenagem e pavimentação da rua. Porém, até agora nada foi feito.
“Ele disse que só faltava a verba ser liberada. Os anos estão passando e nada. Parece que aqui não tem gente”, lamenta. E nesta época do ano a situação dos moradores só piora. Com as chuvas, a rua alaga e vira um lamaçal. Para ir ao trabalho, a recepcionista de eventos Elizabeth Gomes, 31, é obrigada a sair de casa e levar o uniforme de trabalho na sacola. Ela troca de roupa na casa da sogra, que mora em Belém.
ESCOLA PERDE PORTAS, JANELAS E ATÉ TELHADO
A educação também padece em Ananindeua. Pais, alunos e professores reclamam da qualidade do ensino e da estrutura física das escolas. Um exemplo é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Liberdade, na rua Elcilêndia, no bairro do Icuí. Lá, há tempos figura uma placa de obra, sem a informação do início e término.
Em outra placa, bem ao lado, se indica a ‘construção’ do Ginásio Poliesportivo. Orçado em R$ 501.902,31, ele começou a ser erguido em janeiro de 2015. Até agora, apenas as paredes, sem reboco, apareceram. Também não há previsão da entrega do ginásio.
Enquanto isso, professores reclamam que a escola precisa de piso novo, climatização nas salas, portas, janelas e até de telhado. Mas até agora, nada começou a ser feito, além da confecção e colocação da placa da Prefeitura de Ananindeua.
Há também necessidade de reparos nas instalações elétricas. Há fiações ligadas incorretamente, conhecidas popularmente como “gatos”. Os telhados estão com goteiras e falta merenda para os alunos.
Preocupada com as condições estruturais e de segurança da escola, a doméstica Rose Amaral Souza, 32, até pensou em transferir a filha para outra instituição de ensino. Mas a escola é próxima de casa e a filha tem déficit de aprendizado. A mãe não tem outra opção. “É complicado. Minha filha evita até levar as coisas. A polícia só vem aqui quando tem assalto”.
SERVIDORES DE UNIDADE DE SAÚDE AMEAÇAM PARAR
Servidores da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Icuí se rebelaram recentemente contra a Prefeitura de Ananindeua: eles ameaçam paralisar as atividades caso o prefeito Manoel Pioneiro não atenda reivindicações da categoria já discutidas com a Secretaria Municipal de Ananindeua (Sesau). Os trabalhadores realizaram um ato público no último dia 2 de fevereiro, em frente ao hospital, na Estrada do Icuí, munidos de cartazes. O protesto teve apoio até de pacientes.
Os manifestantes denunciam que o hospital público será privatizado e que os técnicos de enfermagem estão sem receber a Gratificação de Atividades Especiais (GAE).
Eles citam ainda uma suposta falta de aparelhos essenciais a exames, como raio-x. As condições são precárias tanto para os servidores quanto para os pacientes.
No dia do protesto, não havia nem os analgésicos Dipirona e Buscopan na UPA. Há dias em que faltam materiais básicos como luvas, álcool e algodão, necessários diariamente. “Temos que fazer coleta para comprar água”, diz uma enfermeira.
À época dos protestos, no início de fevereiro, o aparelho de Raio-X já estava há um mês sem uso por falta de manutenção. Além disso, dois respiradores estavam encostados, expondo o desperdício de dinheiro público. Segundo os funcionários, a empresa que faz a manutenção dos equipamentos estaria a cinco meses sem receber e não há manutenção de computadores, aparelho de ventilação mecânica e de máquina de raio-x. Estava tudo sem uso.
(Luiz Flávio/Diário do Pará)
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