Em parceria com a Universidade do Texas Medical Branch, nos Estados Unidos (EUA), o Instituto Evandro Chagas (IEC) começará, ainda este mês, um estudo que deve disponibilizar, daqui a 2 anos, um tipo de vacina experimental contra o zika vírus para testes em seres humanos. A iniciativa tem o aval do Ministério da Saúde e vai custar cerca de R$ 8 milhões. Será a primeira vez que o IEC se envolve na criação desse tipo de substância, embora já tenha sido palco de testes de diversas outras vacinas anteriormente.
De acordo com Pedro Vasconcelos, pesquisador do instituto e envolvido diretamente no projeto, a abordagem envolve o uso de VLP (Virus Like Particles - em português, “partícula semelhante a vírus”) e é absolutamente inofensiva. Ou seja, tem poucas chances de causar danos colaterais, já que trabalha apenas com um protótipo criado em laboratório. Esse protótipo recebe duas proteínas retiradas do vírus e precisa de pouco tempo para ficar pronto. Com Vasconcelos, outros 3 paraenses também trabalharão no projeto: Daniele Medeiros, Bruno Tardeli Nunes e Roberto Teixeira Nunes, que irão para o Texas, além de outros 3 pesquisadores dos Estados Unidos.
O cientista do IEC adianta que uma etapa de todo esse trabalho já foi concluída: o sequenciamento completo do genoma do vírus, a ser publicado em breve, tornando-se público. “Foi dessa parte do estudo que tiramos as duas proteínas que induzem a produção de anticorpos”, explica Vasconcelos. “São a proteína de membrana e a proteína envelope”. A vantagem dessa abordagem é a possibilidade de que a vacina possa ser usada por pessoas de qualquer faixa etária e em gestantes.
VÍRUS VIVO
Uma segunda abordagem será desenvolvida simultaneamente, utilizando o vírus vivo atenuado, ou seja, modificado geneticamente de forma a deixar de ser transmissor de doenças. Trata-se de uma abordagem um pouco mais restrita, já que não pode ser aplicada a mulheres grávidas e que, diferentemente do primeiro cronograma (leia abaixo), necessitará de mais tempo de estudos - algo em torno de 5 anos, entre testes clínicos e em humanos. Outros pesquisadores do Brasil e do exterior que solicitaram esse isolado viral para o IEC também devem atuar, por conta própria, em estudos seguindo a metodologia dessa segunda abordagem.

Pedro Vasconcelos. do IEC: equipe irá trabalhar para desenvolver uma vacina, em até dois anos. (Foto: Ricardo Amanajás/Diário do Pará)
BRASIL JÁ TEM 1 MILHÃO DE CASOS CONFIRMADOS
Pedro Vasconcelos confirma que a iniciativa de desenvolvimento da vacina vem de uma solicitação pessoal do ministro da Saúde, Marcelo Castro, e do secretário executivo do ministério, José Agenor Álvares, para que se tentasse ver quais os mecanismos de se ter uma imunização da forma mais rápida e eficiente possível. “Entrei em contato com algumas pessoas e a equipe foi até lá discutir quais estratégias poderiam ser usadas na vacina”, detalha, informando ainda que aspectos como a emergência, a gravidade da situação e o fato de se tratar de um problema de saúde pública de caráter internacional (conforme classificação da Organização Mundial de Saúde), foram levados em consideração na hora de fechar a parceria. Bem como o fato de a Universidade do Texas possuir um Centro Internacional de Pesquisas de Arbovírus.
Em relação à dúvida que paira sobre haver de fato uma relação entre a microcefalia e o zika vírus, Pedro Vasconcelos lembra que a doença ainda é nova, se for levado em consideração que, o primeiro registro grave é de 2007, quando houve uma epidemia da doença, na República da Micronésia, localizada em uma região do Oceano Pacífico. Até então, havia apenas 20 casos registrados em todo o mundo. “Só se tem conhecimento das formas mais graves e raras de uma doença infecciosa quando os casos são muitos”, afirma. O pesquisador lembra que o Brasil já tem mais de 1,1 milhão de casos registrados da doença e a expectativa é de outros quatro milhões de casos nas americas. Assim como a universidade do Texas e o IEC, outros institutos pelo Brasil estão empenhados em buscar alternativas de imunidade contra o zika vírus. “Acredito que o Ministério venha, posteriormente, investir em outros projetos semelhantes de outros institutos”, diz. “O que houve, agora, foi um acordo firmado muito rapidamente, creio que pelas condições favoráveis de parceria entre o IEC e a universidade”.
TESTES
O pesquisador estima que o processo de desenvolvimento da vacina dure de 6 a 8 meses, e serão necessários de 4 a 6 meses para testes em camundongos (nos EUA) e em primatas não humanos (no Brasil). Verificada a antigenicidade (a capacidade de induzir respostas imunes) e a imunogenicidade (a capacidade de o organismo responder com a produção de anticorpos), a substância deverá começar a ser testada em seres humanos, processo que pode levar mais 2 anos.
Só então, de acordo com os resultados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), regulamenta ou não a sua utilização para a população em geral.
(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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