Por vias tortas, o brasileiro finalmente adquiriu uma boa noção de educação financeira. Na crise econômica, aprendeu a conhecer, de fato, seu orçamento e até onde pode gastar. Uma pesquisa feita pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em todas as capitais e em cidades do interior revela que 85,9% dos brasileiros se viram obrigados a ajustar o orçamento doméstico.
A mudança de hábito ocorre em virtude do agravamento da situação econômica do país. Assim, 87,0% dos entrevistados admitiram que agora estão dedicando mais tempo para pesquisar preços e 80,5% estão evitando comprometer sua renda com compras de calçados e roupas.
Porém, o estudo, divulgado ontem, ainda revela que 44,3% dos entrevistados estão com as finanças descontroladas. A lista de restrições em meio à turbulência financeira é variada: há os que agora evitam comprar produtos e serviços com os quais sempre estiveram acostumados; os que passaram a optar por produtos de marcas mais baratas e os que deixaram de viajar e de sair com os amigos para bares e restaurantes. As despesas com produtos de beleza e serviços como internet e celular e TV por assinatura também foram alvos de cortes ou readequações, mas em menor proporção que os demais.

DESISTÊNCIA
Para completar a lista, 25,9% dos entrevistados deixaram de ir à academia e 25,1% tiveram de abandonar cursos de idioma, escolas particulares ou faculdades. “A inflação, os juros elevados e o desemprego pioram a situação financeira das famílias e, muitas vezes, exigem mudanças no padrão de gastos”, diz a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Apesar do momento difícil, segundo ela, essa é uma hora propícia para desenvolver hábitos mais saudáveis e evitar desperdícios e compras desnecessárias.
NÃO PAGAR AS CONTAS É O PRINCIPAL TEMOR
Em Belém, os consumidores acompanham essa revolução. Rosalina Melo, 54 anos, é comerciária aposentada e divide as despesas com o marido, com quem arca, inclusive, os gastos dos estudos da filha de 25 anos que faz mestrado em outra cidade. “Está sendo complicado. O que gastávamos antes de mais superficial, agora reduzimos cada vez mais”, conta. A ida ao salão de beleza passou de 2 vezes ao mês para apenas uma, por exemplo. A família também diminuiu o pacote de assinatura de televisão gradativamente e hoje possui apenas o básico. “Muitas coisas que antes pagava fora de casa, agora sou eu mesma que faço, como os cuidados com a pele”, diz.

Maria Ramos: dinheiro só dá para comprar o necessário. (Foto: Fernando Araújo/Diário do Pará)
Maria Ramos, 49 anos, é trabalhadora rural e sustenta sozinha a casa, que, além dela, abriga a filha de 26 anos e a neta, de 5. Ela está inserida em outro grupo delicado da pesquisa: o de pessoas que têm medo de não conseguir pagar todas as suas dívidas. O maior temor do brasileiro com relação a 2016 é não conseguir pagar suas contas básicas, apontado por quase metade (48,2%) da amostra. “Tenho medo de não conseguir pagar tudo. Todo dia tem que cortar mais e mais os gastos. Antes, a gente ia à praia e se reunia em casa de amigos e agora o lazer é só dentro de casa mesmo”. Maria fala que as compras em loja, no geral, estão paradas, gasta só com o que falta, e o orçamento não dá mais nem para novos brinquedos para a neta.
MAIORIA CONHECE ALGUÉM QUE FOI DEMITIDO
A pesquisa mostra que o rearranjo das finanças, que o brasileiro tem posto em prática, busca também o aumento da renda: 41,7% dos entrevistados que estão empregados disseram estar fazendo ‘bicos’ para complementar o salário. O percentual é mais expressivo entre os jovens de 18 a 34 anos (49,5%) e membros das classes C, D e E (47,0%). Dentre os entrevistados que não estão trabalhando, o percentual é ainda maior e chega a 55,0%.
A escalada do desemprego tem atingido cada vez mais pessoas. Quatro em cada dez brasileiros (42,2%) têm algum familiar desempregado dentro da própria casa e 76,3% conhecem alguém que foi demitido nos últimos seis meses ou que tiveram de encerrar seus negócios.

Ana Paula foi obrigada a fechar seu estabelecimento comercial. (Foto: Fernando Araújo/Diário do Pará)
Ana Paula Silva, 40 anos, foi dona de um depósito de água mineral por 7 anos. Em 2015 começou a sentir a pressão do aumento dos preços e dos custos com a manutenção do comércio. Há 6 meses, a concorrência foi tão alta que fechou as portas. Desde então, está desempregada.
Hoje, ela e a filha de 19 anos se sustentam com uma pensão que recebem do pai da jovem. “Minha sorte foi que quando senti que as coisas estavam dificultando, fomos cortando o que era desnecessário”. A ida ao salão de beleza passou de a cada 15 dias para a cada 4 meses. “Antes, tínhamos TV por assinatura e minha filha frequentava academia. Tudo foi cortado, até o consórcio do meu carro”. (Colaborou Alice Martins Morais)
(Diário do Pará com colaboração de Alice Martins Morais)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar