Paraense de Santarém, o supervisor técnico do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), Roberto Sena, 55 anos, já acumula três décadas de trabalho à frente do órgão. Por aqui, é ele quem mensura e adianta o impacto de praticamente todas as variações econômicas que afetam diretamente a vida da população: aumento na cesta básica, reajustes nos combustíveis, mudanças nos postos de trabalho e inflação. Isso sem falar de sua participação constante em negociações relacionadas a reajustes salariais das mais diversas categorias. Mesmo com tanta experiência, ele admite que o as consequências da crise política e econômica que o Brasil atravessa preocupam. Nesta entrevista ao DIÁRIO, ele considera que, em termos de crescimento, o Brasil deve fechar o ano no negativo. Mas o economista acredita em uma boa recuperação. Mas isso, só no médio e longo prazo.
A inadimplência é um indicativo que falta dinheiro no bolso dos paraenses?
R: Sim. Fechamos o ano com 31% de inadimplência no Estado. Na verdade, esse marco é nacional. Nesse primeiro semestre, a situação piorou. Até o final do ano de 2014, a gente não falava de desemprego. Falávamos em crescimento econômico. Todo mundo convivia com inflação baixa, com preços baixos. Quando subia, era em patamares aceitáveis. Estava tudo bem. Os problemas começaram no início de 2015. Para os trabalhadores, mudaram as políticas ligadas ao Seguro-Desemprego, além de vários erros do Governo. Houve a liberação dos preços administrados, principalmente da gasolina e da energia elétrica.
Então, a crise vivida hoje é consequência disso?
R: Nesse caso, os preços não podiam mais ser segurados. Não havia o que fazer. Seguraram até onde deu. O Governo apostou muito forte. Não sei se eu não faria a mesma coisa. Vivemos uma crise internacional entre 2008 e 2009, que praticamente o brasileiro assistiu de camarote. De uma maneira geral, o Brasil só passou por ela. Mas às custas de quê? Do crédito, como aquele dado à linha branca (eletrodomésticos) e o IPI reduzido. Isso foi um incentivo ao consumo. Foi a política adotada na ocasião. Isso acabou desencadeando todo um processo. Em algum momento, essa conta ia chegar para ser paga.
A gasolina puxou bastante a inflação no ano passado, não?
R: Sim. Esse negócio foi tão forte que, para equilibrar, o Governo teve de liberar os preços administrados, no início do ano passado. A gasolina nunca esteve tão barata lá fora, e o Brasil teve que subir o preço da gasolina. Tudo para equilibrar as contas da petroleira. Sobre o fator do roubo da Petrobras, quem entende do assunto sabe que não foi por isso que a Petrobras entrou na crise que entrou. O desencontro das contas foi o que a deixou no vermelho. Estou falando do balanço negativo da Petrobras.
A crise política tem relação direta com a econômica?
R: Claro. O problema é que a questão política virou paixão, infelizmente. Nos Estados Unidos, você só tem dois partidos - os democratas e os republicanos - e não vemos um agredindo o outro. A minha preocupação é com a economia e com os vários trabalhadores que precisam de emprego, de renda. E por que estamos sentindo tanto isso agora? A gente anda nas ruas e vê lojas fechando as portas, os aumentos
nos supermercados...
E como os trabalhadores se encaixam nessa crise?
R: O ano de 2015 começou com a implementação do pacote fiscal que recaiu sobre os direitos dos trabalhadores, logo depois das eleições. Politicamente falando, foi um desastre. E o que foi pior, envolveu o Seguro-Desemprego e as aposentadorias. Bom, se a base de apoio do governo era toda era em cima dos trabalhadores, aí o pessoal começou a ficar confuso. Como que o movimento sindical vai dar apoio se a primeira pancada é em cima deles? Isso foi o início da história. Quando chegou o mês de março, largaram os preços administrados, gasolina e energia elétrica. Tivemos o efeito cascata. Foram dois eventos muito próximos um do outro. Não teve como segurar a economia.
Os ganhos salariais foram minguando também?
R: Sim. O balanço do Dieese mostra que 96% dos acordos trabalhistas fechados em 2014 zeraram as perdas e houve ganho real de salário. Todo mundo deu a inflação, no mínimo! Mas quando iniciou 2015, com todos os aumentos, a inflação deu um salto. A cada mês ia ‘acavalando’, até fecharmos 2015 na casa dos dois dígitos. Pode parecer pouco falar em 11% de inflação. Mas de 6% pra 11% é quase o dobro! Coisa que ninguém esperava. Fugiu da meta e o Governo não teve mais fôlego para segurar. E começaram as instabilidades. Pancada de um lado, de outro. Dólar disparando, indo a R$ 4!
A economia indo mal, a Política acompanha?
R: Se a economia estivesse indo bem, acredito que os fatores políticos ruins seriam bem menores. Os salários, que estavam com perdas zeradas ou tiveram ganhos reais, já perderam poder de compra no primeiro trimestre do ano. A energia elétrica no Pará subiu nada menos do que 50%. Aí, o feijão sobe mais 50%, o arroz sobe 40%, o açaí sube 40%. A inflação é uma média. Se o poder aquisitivo não acompanha o aumento dos preços, você começa a comprar menos. Se compra menos, o ganho real do salário cai a cada mês, e começam as demissões. A partir daí começa o efeito bola de neve...
Foi quando o fantasma das demissões apareceu no país?
R: As demissões começam no comércio e vão até o setor de serviços, que você não espera que precise demitir. Chega-se a um dos setores que mais geram mão-de-obra, que é o da construção civil. Antes, tínhamos muitas obras. Mas se o poder aquisitivo despenca, você vai comprar com que dinheiro? Aí, junta todos esses setores e mais a indústria, responsável por 80% do quadro de geração de empregos em todo o país, e também no Pará. Sem emprego, não tem salário, aí não compramos. Se não compramos, a indústria não produz. Se não produz, não emprega.
Como está o mercado de trabalho no Pará?
R: Fechamos o ano com o Pará perdendo aproximadamente 26 mil postos de trabalho. Foi a primeira vez em uma década. Em todo o Brasil, foram 1,5 milhão de empregos a menos. Isso movimenta toda uma geração que nunca tinha ouvido falar em desemprego. Eu desaprendi a falar sobre desemprego! Foram 12, 13 anos de uma maré muito boa.
Isso atinge toda a população, correto?
R: Todo mundo sofre com a economia ruim. Seja por situações externas, seja por políticas erradas. Juntou isso, tem-se o caos. Hoje, muitos países passam por situações adversas. A China, por exemplo, fechou 2015 com um crescimento de 6%. Proporcionalmente, é o mesmo que o Brasil decrescer 4%, porque vinha crescendo a 13%. Nosso País fechou 2014 com crescimento próximo de 0%. 2015, com quase 4% negativo. E vai fechar 2016 no negativo também. Serão 3 anos consecutivos de retração. Isso é péssimo para um país que precisa crescer, gerar emprego, renda. O emprego não vai crescer. A inflação deve cair. Mas isso não reflete melhora, e, sim, uma recessão.
Então, em 2016, a situação piora?
R: A maioria dos trabalhadores não terá ganho real. Em 2015, esse ganho já foi baixo, de até 1%. Já foi “inaugurado” o parcelamento de salário. Há 13 estados sem conseguir honrar os salários de servidores, porque o repasse é menor. A economia vai parando. Vai parando tudo. É como um carro. Sujou a vela, mas o carro está andando. Só que cada vez com menos força. Para ele não parar, tem de arcar com os custos da vela. Nesse cenário aí, temos muita preocupação. O dano é muito grande. O País é muito maior do que a crise, do que os políticos. Lutamos por uma democracia e precisamos exercê-la. Isso é o mais importante de tudo.

(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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