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Educação estadual: uma realidade precária no Pará

A grade enferrujada da porta de entrada, mal fechada por uma corrente igualmente desgastada, já dá uma ideia de que o que está por trás é ainda pior. Na Escola Estadual Clube de Mães Sagrada Família, na rodovia Arthur Bernardes, em Belém, os alunos são ob

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A grade enferrujada da porta de entrada, mal fechada por uma corrente igualmente desgastada, já dá uma ideia de que o que está por trás é ainda pior. Na Escola Estadual Clube de Mães Sagrada Família, na rodovia Arthur Bernardes, em Belém, os alunos são obrigados a assistir às aulas no pátio, ao relento. A sala improvisada não tem quadro magnético e o barulho dos veículos que passam na agitada rodovia atrapalham o aprendizado.

A escola tem apenas 5 salas para atender a 441 estudantes do ensino fundamental, do 1° ao 5° ano e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos turnos da manhã, tarde e noite. Duas salas estão inutilizadas: uma por falta de energia elétrica e a outra por causa de uma parede rachada, que balança ao ser tocada. Em outros momentos, a direção obriga os alunos a ficar em casa para que outros possam ter aulas. E esse cenário de caos está longe de ser um problema apenas desse colégio. Basta um rápido passeio pela Região Metropolitana de Belém (RMB) para descobrir que a triste realidade se tornou regra dentre as unidades escolares administradas pelo Estado.

SEM AUTORIZAÇÃO

O DIÁRIO foi às ruas para ver de perto algumas das situações tão denunciadas pelos leitores, e que acabaram virando temas de reportagens publicadas pelo jornal nos últimos meses. Insegurança, falta de infraestrutura, instalações precárias, necessidade de reformas urgentes. O retrato da educação estadual é de total precariedade. E o Governo tenta esconder.

Esta é a entrada da Escola Fé em Deus: muita terra e mato por todos os lados. (Foto: Fernando Araújo/Diário do Pará)

Prova disso é que a equipe de reportagem não teve a entrada autorizada em 90% das escolas visitadas - o que não impediu de confirmar a veracidade das denúncias feitas por professores, pais e alunos. Professor de Educação Física da Sagrada Família desde 2008, Carlos Nascimento conta que já são muitos anos de promessas de uma reforma que nunca se concretiza. Enquanto isso, as aulas da disciplina na quadra da escola, descoberta, só acontece em dias de muito sol. “Se chover, o chão fica um verdadeiro sabão”, conta. O calor expulsa as crianças das apertadíssimas salas de aula. As goteiras, em dias de chuva, também. “Todas as vezes em que chove, os alunos são obrigados a voltar para casa devido às inundações”, denuncia o professor.

PROBLEMAS SÓ SE MULTIPLICAM

Em junho do ano passado, na Escola Estadual Dr. Freitas, no bairro do Umarizal, em Belém, um ventilador de teto despencou durante uma aula em cima dos estudantes. Dois meses antes, uma chuva forte destruiu parte do arquivo de 40 anos da biblioteca da Escola Estadual Deodoro de Mendonça, também na capital. Com um detalhe: ela tinha sido reformada havia pouco tempo pelo Governo. O DIÁRIO também denunciou as condições da Escola Estadual de Ensino Fundamental Professora Emiliana Sarmento, do bairro da Pedreira.

Em um vídeo feito por funcionários, é possível observar problemas no teto, grandes goteiras, proteções feitas às pressas, alguns documentos molhados e até mesmo infiltrações próximas a interruptores, oferecendo um enorme risco aos estudantes do local. (veja o QR Code nesta página). Já em fevereiro deste ano, a Escola Estadual Raymundo Martins Viana expôs os estudantes ao risco. Em uma sala de aula, parte do forro havia desabado por causa das chuvas. Mesmo diante do perigo, os alunos assistiam às aulas normalmente.


Na Escola Estadual Professora Dilma Souza Cattete, no conjunto Pedro Teixeira, o mato alto inutiliza a quadra e outros espaços de convivência. O pior é que a escola passou, em 2013, por uma reforma que custou R$ 700 mil. Mas quando os alunos voltaram às aulas, foram surpreendidos pelos mesmos problemas: salas com infiltrações, quadra de esporte sem piso e muro quebrado, bibliotecas fechadas e mato por todo lado.

JATENE QUER "DESMONTAR" ESTRUTURA DE EDUCAÇÃO

Não fosse suficiente esse cenário desolador, na manhã do dia 7 de abril, o governador Simão Jatene colocou em prática um projeto que levou às ruas trabalhadores em Educação Pública de todo o Estado, tamanha a indignação. Considerada pela categoria um "desmonte" da Educação no Pará, a proposta trata da diminuição das aulas de todas as disciplinas da grade curricular. Um duro golpe nos mais pobres, que veem na educação o caminho para mudar a realidade e ter um futuro melhor. Se antes eram 5 aulas de Português e Matemática por semana, agora serão somente 4. As de História e Geografia, de 3, vão diminuir para apenas 2 por semana, por turma. Para as demais disciplinas, lecionadas em 2 aulas por semana, fica espaço somente para uma. Mais uma vez, a justificativa dada pelo Poder Executivo é o da “economia a qualquer custo”, “corte de gastos” - quando Educação deveria ser prioridade.

A quadra de esportes da escola Dilma Cattete está inutilizada. (Foto: Fernando Araújo/Diário do Pará)

A preocupação dos docentes neste momento é, principalmente, com os alunos, que hoje já têm sérias dificuldades em leitura e cálculos. Quadro que deve se agravar com a redução da carga horária. A categoria teme também a sobrecarga dos profissionais, que terão de se desdobrar para dar conta do mesmo conteúdo em menos tempo.

DIREÇÃO

Foram dois dias em busca da direção da escola para conversar sobre o assunto. Mas a diretora, Lúcia Moraes, ou estava em reunião ou ausente para receber a equipe do DIÁRIO - uma justificativa bem semelhante às ouvidas pela equipe nas demais escolas estaduais procuradas.

(Carolina Menezes/Diário do Pará)

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