Se os centros penitenciários no Pará continuam sendo palcos de fugas em massa, a responsabilidade é do Governo do Estado e seu investimento insuficiente na estrutura de trabalho que lida com os detentos. A afirmação é de Ezequiel Sarges, 52, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos e Civis do Estado (Sepub). Ele é agente prisional com 19 anos de experiência dentro da Superintendência do Sistema Penal (Susipe).
Na madrugada de anteontem (1º), 38 presos do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará I (CRPP I), na Vila de Americano, em Santa Izabel do Pará, Região Metropolitana de Belém (RMB), conseguiram escapar escalando a muralha do complexo com a ajuda de uma “tereza” (corda caseira). Somente 2 deles foram recapturados até o momento.
Mário Silva, 50, agente prisional há 16 anos, afirma que o CRPP I foi construído na década de 70, para abrigar outro perfil de detento. “Hoje é diferente, eles são mais ousados. Uma reformazinha aqui e outra ali não ‘seguram’ os presos. Os agentes trabalham com medo”, denuncia ele, que integra a diretoria do Sepub. “Tem de demolir (o complexo penitenciário) e construir outro”, sugere.
ACUSAÇÃO
Silva afirma, ainda, que os sindicalistas devem formalizar acusação, nos próximos dias, ao Ministério Público do Estado (MPE) e ao Ministério do Trabalho relacionadas às péssimas condições de trabalho dos pouco mais de 2,1 mil agentes do Pará. Sobre a declaração do coronel André Cunha, superintendente da Susipe, dada horas após a fuga, de que houve corrupção de agentes, Andrei Tito, 38, com 16 anos de Susipe, afirma que as últimas fugas registradas sempre envolveram detentos portando armas de fogo. “Temos mais de 900 presos no CRPP I. Cerca de 50% deles recebem visitas. Imagine 5 ou 6 servidores vistoriando tudo o que os visitantes trazem”, contrapõe.

Outras fugas no Centro de Recuperação chocaram a população do Estado. (Foto: Celso Rodrigues/Diário do Pará)
Ezequiel Sarges reclama que desde 2012 o Governo do Estado tem em mãos um dossiê que denuncia toda a fragilidade do sistema prisional e nada faz. “O coronel André Cunha está em posição confortável, até mesmo proibiu o sindicato de entrar nas penitenciárias”, diz. Em resposta, o superintendente da Susipe destaca que há 2 novos pavilhões em Americano em construção, a serem entregues em março do ano que vem.
Também estão previstas, segundo ele, reformas para garantir a segurança nos demais pavilhões. Sobre a “cobertura”, ou seja, a presença de policiais militares nas guaritas que protegem o complexo, André afirma que o número de PMs destacados é determinação da própria Polícia Militar.
OUTRAS FUGAS NO CENTRO DE RECUPERAÇÃO
Nodia 3 de janeiro deste ano, 20 presos do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará I (CRPPI) tentaram fugir pela muralha do presídio usando cordas artesanais. Um grupo externo tentou dar cobertura disparando contra os sentinelas da muralha. O detento José Maria Andrade foi encontrado mortoem um dos pavilhões.
No dia 10 de abril deste ano, 6 presidiários fugiram do CRPP I por volta das 7h30, quando o complexo iniciava o procedimento das visitas. Antes da fuga, 5 agentes foram feitos reféns. Ninguém se feriu. Os presos portavam armas de fogo e atiraram em direção ao portão central da unidade enquanto fugiam. Dez dias após a fuga, a polícia encontrou um túnel emuma das celas do complexo penitenciário.
(Carolina Menezes/Diário do Pará)
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