No novo dicionário da língua portuguesa, editado pela Acadêmica Brasileira de Letras, o espaço destinado à definição da palavra “mãe” ocupa 15 linhas. Entre outros significados, mãe é a mulher que dá à luz, mas é também aquela que protege, defende, “dispensa cuidados a outrem”. Por isso, neste dia destinado a elas, o DIÁRIO reuniu 3 mulheres que deram à luz, e que também amam e tratam de pessoas que precisam de apoio em momentos difíceis, independentemente de laços de sangue. Deusa, Nízia e Nazareth não se conhecem, mas têm muito mais em comum do que imaginam. Exercem a maternidade para além dos limites da família e se sentem felizes e realizadas com a missão que abraçaram.
Para isso, Deusa de Souza, 53 anos, tem vida dura. Toda manhã, pula da cama antes de o Sol nascer, toma um café apressado e caminha até a parada, para pegar o ônibus que a levará da rodovia do 40 Horas até o outro lado da cidade, no bairro do Jurunas, em Belém. A rotina, que se repete há 20 anos, tem uma razão nobre: ela é voluntária na creche da ONG Paravidda. Mãe de três filhos (Ricardo, 38, Dayse, 37, e Danielle, 32), na creche Deusa cuida de 25 crianças, com idades entre 3 e 6 anos.
Ao chegar ao local, às 7h, ela prepara a sala, que em poucos minutos começa a ser ocupada por choros, sorrisos e gritinhos eufóricos, em meio a brincadeiras como pinturas e quebra-cabeças. As crianças passam o dia na creche e vão embora por volta das 16h, mas Deusa só deixa seu posto após as 17h. Antes de sair, arruma o local para receber as crianças no dia seguinte. Foi uma tragédia pessoal que levou a dona de casa a cuidar das crianças carentes com o mesmo amor que dedicou aos filhos de sangue. “Quando perdi meu companheiro, entrei em depressão. Chegar aqui me fez renascer”, conta Deusa.
REALIZADA
E tem mais. Sabe quanto ela recebe pelo trabalho na creche? Nada. “Sobrevivo com a pensão deixada pelo meu marido”. Para chegar à creche, Deusa pega um ônibus. Para voltar para casa, são dois. Mas não reclama. “Aqui, me sinto realizada”, diz. A sugestão para que se tornasse voluntária surgiu quando ainda acompanhava o marido em fase terminal no hospital.
Ela começou o trabalho na lavanderia da ONG. Dois anos depois, passou a atuar como monitora da creche. “Alguns dos meninos que estavam aqui quando eu entrei já são rapazes e moças. Eles vêm me visitar. É uma emoção grande”. A creche do Paravidda surgiu há 23 anos, quando a Aids era um estigma bem maior do que vemos hoje.
No início, a ideia era atender apenas a crianças que tinham o vírus HIV ou eram filhas de pais com a doença. Com o tempo, a instituição abriu as portas para toda a comunidade. “Era uma contradição lutarmos contra o preconceitos e termos uma creche que atendia apenas a crianças com Aids”, explica Jair Santos, presidente do Paravidda.
TANTO FILHO QUE SÓ DÁ PARA LEMBRAR ANOTANDO
Aos 89 anos, Nízia Chagas Brito não esconde a vaidade. Unhas bem feitas, a cabeleira branca bem penteada e um vestido colorido não deixam dúvidas: ela é pura alegria. Quando se pergunta quantos filhos teve, responde mostrando com uma folha de papel onde estão 18 nomes. Desses, 12 ela deu à luz. Outros 6 foram adotados.

A casa de Nízia vive sempre movimentada com tanto filhos, netos e bisnetos. É tanta gente que fica difícil reunir todo mundo para fotos. (Foto: Marcelo Lelis/Diário do Pará)
A primeira foi Aparecida. A menina havia acabado de nascer na Santa Casa de Misericórdia do Pará, quando Nízia chegou para visitar a madrasta, que também dera à luz. A mãe de Aparecida chamou Nízia e pediu que ela levasse a menina. “A senhora não quer uma criança?”, indagou a mãe da menina ainda sem nome. “Olhe como a menina é bonitinha... É sua filha”. Nízia resistiu, mas, diante do recém-nascido que chorava de fome, acabou cedendo. Começou assim uma longa história de adoções. Depois, vieram Kátia, Patrícia, Tamires, Franciene e Jonathan. Além dos filhos, já são 24 netos e 32 bisnetos. Difícil é reunir tanta gente para uma foto com a mãe.
Aparecida não é de muitas palavras. Tímida, confessa que ainda hoje, aos 52 anos, leva “bronca” da mãe. Só desata a falar quando o assunto é o amor e a gratidão que sente por Nízia. “Tenho muito amor por ela. Sou muito grata e só peço que Deus lhe dê saúde”.
ELA DISTRIBUI ALIMENTOS A MORADORES DE RUA
A palavra “voluntariado” ainda não era moda quando a paulistana Nazareth do Carmo, 55 anos, já tinha uma intensa atuação nesse tipo de trabalho. Desde a adolescência, ela já contribuía com a creche destinada a filhos de doentes de hanseníase que eram abrigados em uma instituição no bairro da Pratinha, periferia de Belém. Hoje, Nazareth é cerimonialista. Aos sábados, ajuda a realizar sonhos de debutantes e noivas em bailes e jantares cheios de glamour. Aos domingos, acorda cedo e prepara alimentos que são distribuídos aos moradores de rua do centro de Belém.

Nazareth reserva os domingo para preparar as refeitções distribuídas aos moradores de rua. (Foto: Daniel Costa/Diário do Pará)
O cardápio é variado: mingau. sopa, macarronada. Na semana passada, foram distribuídas 240 refeições (veja quadro à dir.), em locais como o Mercado de São Brás, o Ver-o-Peso e a avenida Presidente Vargas. Nazareth faz parte de um grupo cuja missão é levar alimentos e cuidados a quem não tem nada. Além de distribuir comida, o grupo faz curativos e passa um pouco de esperança. A equipe é discreta. Poucos aceitam aparecer. “A gente evita, por exemplo, postar nossas ações em redes sociais. A ideia não é nos promover, mas apenas ajudar”, diz ela, que foi indicada por outros integrantes da equipe para esta reportagem. No grupo, Nazareth, que tem uma filha biológica - Clarissa, 21 -, é conhecida como a “mãezona” de todos.
EM NÚMEROS - QUANTO OS VOLUNTÁRIOS GASTAM:
São 240 refeições por semana. 1 mil por mês.O menu da caridade:
Macarronada:
7 pacotes de macarrão, 6 quilos de picadinho, 8 sachês de molho de tomate.
Arroz com galinha:
5 quilos de arroz, 7 quilos de peito de frango, 3 de salsicha, 4 de chouriço, 4 latas de seleta de legumes, 2 pacotes grandes de batata palha.
Média de gastos:
R$ 200 reais por saída (dividido entre os integrantes do grupo).
Gasto médio em 3 anos:
R$ 31 mil, sem contar remédios, sucos, curativos e outras doações.
(Rita Soares/Diário do Pará)
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