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Alunos e professores desabafam sobre educação

“O que fazer quando temos uma criança saudável, agitada e sem uma atividade lúdica dentro de casa, quando deveria estar na escola?” A pergunta indignada é da recepcionista Ana Paula Moraes, 36 anos. Gustavo, seu filho, de 8, passou para a terceira série d

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“O que fazer quando temos uma criança saudável, agitada e sem uma atividade lúdica dentro de casa, quando deveria estar na escola?” A pergunta indignada é da recepcionista Ana Paula Moraes, 36 anos. Gustavo, seu filho, de 8, passou para a terceira série do Ensino Médio e deveria estar em sala de aula desde o mês passado. Deveria. Ocorre que a Escola Estadual Paula Frassinetti, no bairro do Umarizal, em Belém, onde ele estuda, passa por uma reforma que parece interminável.

Iniciada em dezembro e orçada em R$ 446 mil, a reforma do colégio deveria ter terminado há 2 meses. De lá para cá, o início do ano letivo já foi adiado pelo menos duas vezes. “Posso não ter condições de colocá-lo em uma escola particular, mas pago muitos impostos”, reclama a mãe.

Outro motivo de revolta por parte de Ana Paula é em relação à demora na conclusão da reforma da escola. “Será que, com todo esse tempo e dinheiro, ainda não deu pra arrumar o que estava ruim?”.

PAIS E ALUNOS

Nesta segunda reportagem da série publicada pelo DIÁRIO sobre o caos na Educação do Estado, a voz que fala alto é a dos alunos e pais. Os relatos causam ainda mais revolta por serem frequentes. Pelos problemas, os alunos foram transferidos para a Escola Estadual Anísio Teixeira, que ficou tão lotada, que os “visitantes” tinham aulas nos espaços de convivência e as salas eram delimitadas com pedaços de tecidos. Como Ana Paula só trabalha à noite, ainda consegue ficar em casa durante a manhã, período em que seu filho deveria estar estudando. “Tenho sorte. Tem gente que trabalha em feira e leva o filho para lá porque não tem onde deixar”.

SEDUC

No dia 21 de abril, o DIÁRIO fez uma matéria mostrando a situação dos alunos da Escola Paula Franssineti. Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) havia informado que as aulas começariam até o dia 25 e que um calendário especial de aulas será adotado para suprir o período da reforma geral.

MEDO FECHA ESCOLA

Desde o dia 28 de abril, a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio do Outeiro está com as salas vazias. O prédio não está em obras nem faltam professores. O problema é muito mais grave: a insegurança. Cansados dos constantes assaltos no local, professores e estudantes decidiram não continuar frequentando o colégio. O medo falou mais alto.

Na Escola de Outeiro, nem as grades protegem os professores e alunos dos assaltos constantes. (Foto: Carmem Helena)

“A gente vem para a escola com muito medo. Fica difícil aprender alguma coisa desse jeito”, lamenta a estudante Dayane do Nascimento, 21 anos, que deveria estar assistindo a aulas no 2º ano do ensino médio.

Somente na semana passada, a escola foi assaltada duas vezes. Na terça-feira (26) à noite, três homens encapuzados invadiram a unidade de ensino enquanto os alunos assistiam à aula. “Fizeram um arrastão. As pessoas começaram a gritar, foi horrível”, lembra Dayane. A professora Ilta Oliveira, 51, nunca vai esquecer o dia 21 de março. Ela participava da matrícula estudantil, quando um criminoso encapuzado, armado com um facão, pulou o muro dos fundos da escola.

Ela e mais duas funcionárias foram ameaçadas. “Ele queria o celular. Me fez levantar a blusa para provar que eu não tinha”, conta ela, que acabou tendo a aliança roubada.

MERENDA

Na escola, que possui 2 mil alunos, até o diretor, Edilberto Silva, reconhece o problema. Na madrugada da segunda-feira (25), a instituição foi alvo de arrombadores, que levaram parte da merenda escolar, três botijões de gás de cozinha e o bebedouro. “Em 37 anos de magistério, nunca vi uma violência desse jeito. É vergonhoso para uma escola”, reclama o diretor.

Em nota, a Seduc disse que se reuniu com o Comando de Policiamento Escolar da capital e com uma comissão formada por pais de alunos e professores, e definiu que será montada uma estratégia de reforço de segurança. A rotina escolar só foi retomada na última quarta-feira (4).

PASSAR NO VESTIBULAR: UM SONHO DISTANTE

Kristiele Botelho, de 16 anos, admite não se sentir nem um pouco preparada para tentar uma vaga no curso de Direito, em 2017. Estudante do 2º ano do Ensino Médio, da Escola Estadual Paes de Carvalho, ela integra um Conselho Escolar que tenta melhorar a situação do colégio de várias formas: de visitas ao Ministério Público a mutirões com alunos. “Há duas semanas, solicitamos a vinda de um técnico para ver o bebedouro. A água é suja, enferrujada e quente”, relata.

Para quem vai só com o dinheiro da passagem do ônibus, o jeito é se contentar com a água que tem. Os picos constantes de energia já queimaram vários aparelhos de ar-condicionado . Manter o ânimo para estudar é difícil. “São duas horas e meia para ir. Saio de casa às 5h30. E mais duas para voltar. E ninguém faz nada. Estamos cansados”, desabafa Kristiele. “Já teve professor que interrompeu aula porque passou mal de tanto calor. Imagina isso para quem está se preparando para o vestibular!".

A estudante Dayane lamenta o prejuízo para o aprendizado. (Foto: frame)

"EU O INCENTIVO PARA QUE NÃO DESANIME"

A situação da Escola Estadual Temístocles de Araújo, no bairro da Marambaia, foi parar na capa do DIÁRIO da última terça-feira (26). Na foto, um grupo de alunos tenta ter aulas no corredor. O motivo? Uma reforma que se arrasta por quase 1 ano e até agora nem metade do trabalho foi concluída, conforme relato de Haroldo Freitas, 55. Além de professor de Geografia da escola há 20 anos, ele é pai de Caio, de 16, que tenta dar continuidade ao Ensino Médio e pretende tentar uma vaga no curso de Direito, no ano que vem. “Eu o incentivo o tempo todo para que ele não desanime”, conta o pai.Professores levam de casa ventiladores e equipamentos eletrônicos para oferecer um mínimo de conforto aos estudantes.

SEM TUTOR

A Escola Estadual Paes de Carvalho, no bairro da Campina, em Belém, completar 175 anos em 2016. Mesmo assim, não tem a atenção necessária do Poder Público. A assistente administrativa Ana Paula Queiroz, 48, não pode nem pensar em trabalhar. Seu filho Raimundo Neto, 17 (foto no alto), cursa o 3º ano do Ensino Médio , mas precisa de um acompanhante a todo momento, porque é autista e hiperativo. Ela conseguiu um parecer favorável do Ministério Público do Estado (MPE), no ano passado, para que a Seduc providenciasse um tutor que acompanhasse o jovem. Mas, até agora, nada. “Na última reunião que tive com a Seduc, deram como justificativa que o governador anunciou corte de gastos e não tem dinheiro. Então, tenho de vir todos os dias”, diz Ana.

(Carolina Menezes/Diário do Pará)

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