
“Casos que envolvem as classes altas ganham prioridade na Polícia”. (Foto: Divulgação)
A triste realidade dos altos índices de violência no Pará encontra eco no cenário precário da Polícia Civil no Estado. Responsáveis pela apuração de crimes, como assassinatos e roubos, os policiais reclamam de delegacias caindo aos pedaços ou fechadas, equipes reduzidas e desmotivação entre os servidores. O Presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil do Pará (Adepol), Ivanildo Pereira dos Santos, 52 anos, revela, nesta entrevista exclusiva ao DIÁRIO, detalhes do funcionamento interno da Segurança Pública no Estado. O retrato é muito preocupante. Delegado há 15 anos, Santos recebeu nossa reportagem na sede da Adepol, no centro de Belém. Ele admitiu que os serviços prestados à população são “de péssima qualidade” e disparou: “Isso é resultado de investimentos totalmente equivocados”.
P: Durante o processo de reivindicação salarial, a Adepol fez uma blitz nas delegacias. Qual o cenário encontrado?
R: Um cenário de contradições. Delegacias novas, recém-inauguradas, mas fechadas à noite por falta de efetivo. Enquanto isso, as grandes seccionais de Belém, onde a demanda é grande, estão em situação precária e os policiais trabalhando em condições quase sub-humanas. Um exemplo claro é a Seccional de Marituba. A sala de atendimento do delegado, por exemplo, está cheia de mofo na parede. Já teve delegado com sérios problemas de saúde, por ser alérgico ao mofo. É uma unidade que está insalubre para se exercer um trabalho com dignidade.
P: Em geral, em que condições os policiais trabalham no Pará?
R: A estrutura é precária e o efetivo é reduzido. Não há profissionais suficientes para atender à demanda, nem mesmo em casos de homicídio e roubo. A maioria das delegacias que funcionam à noite tem equipe reduzida: um delegado, um escrivão e três investigadores. Se dois policiais saírem para atender a uma demanda, ficam só o delegado e o escrivão no local. E o que é pior, se os policiais tiverem de fazer uma abordagem, como são apenas 2, eles estarão vulneráveis diante do risco de enfrentamento com criminosos.
P: Com o efetivo reduzido, como vocês decidem que casos serão investigados ou não?
R: Quando você tem, por exemplo, quatro homicídios em uma delegacia e o efetivo não consegue dar conta de apurar todos com celeridade e eficiência, acaba-se dando prioridade para um ou outro. Geralmente, são priorizados aqueles determinados por ordem superior, porque são mais visíveis diante do apelo midiático e político.
P: São priorizados os que têm mais repercussão?
R: São. Os casos que envolvem pessoas da classe média, classe alta ou autoridades ganham prioridade na investigação da Polícia. Infelizmente.
P: Então, significa que as pessoas mais pobres são preteridas pelo sistema?
R: Infelizmente, essas são as mais prejudicadas.
P: Muita gente até desiste de registrar ocorrências por causa da demora no atendimento...
R: Atribuímos isso ao sucateamento que o Governo do Estado vem relegando à Polícia Civil, que passa quatro, cinco anos sem concurso. Isso faz com que o efetivo seja reduzido. Seja pela aposentadoria, ou porque o profissional vai atrás de melhores oportunidades em outros concursos públicos.
P: Qual a consequência desse sucateamento?
R: Ficamos com um atendimento de péssima qualidade, demorado e que causa transtornos. A pessoa perde muito tempo em uma delegacia, para fazer uma simples ocorrência.
P: Isso contribui para a subnotificações de crimes?
R: Com certeza. É o que nós chamamos de cifra negra. Ou seja, são aquelas demandas que ocorrem, mas não são notificadas nas delegacias. Muitos dos crimes que ocorrem em Belém, principalmente contra o patrimônio, não são registrados, porque o cidadão acha que isso não vai resolver o problema dele.
P: Essas condições já foram apresentadas às autoridades do Estado?
R: Já foram, inclusive, objeto de estudo de alguns delegados, em cursos de especialização. Sempre que é feita aquela famosa reunião para avaliação de desempenho, o pessoal toca nesse assunto, mas não tem resposta positiva por parte da gestão da polícia.
P: O senhor acha que falta dinheiro ou o problema é de gestão dos recursos?
R: Eu posso falar, com conhecimento de causa no tema, que o problema principal é o investimento equivocado na área de segurança pública. Não é falta de recursos.
P: Qual a sua opinião sobre a decisão de manter delegacias fechadas à noite?
R: É um verdadeiro absurdo. Decorre da política equivocada de se construir prédios novos, as chamadas UIPPs (Unidades Integradas Pró-Paz). A ideia de UIPPs é muito boa, desde que, em paralelo, ocorra o investimento em recursos humanos. Não adianta ter prédio novo, moderno, se não tem efetivo para trabalhar.
(Rita Soares/Diário do Pará)
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