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Medo é rotina nos ônibus da Grande Belém

Basta que o ônibus se aproxime do cruzamento da avenida Roberto Camelier com a travessa Quintino Bocaiuva, em Belém, para que a apreensão tome conta do cobrador William França, 23 anos. Os batimentos cardíacos aceleram, os olhos buscam qualquer indício de

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Basta que o ônibus se aproxime do cruzamento da avenida Roberto Camelier com a travessa Quintino Bocaiuva, em Belém, para que a apreensão tome conta do cobrador William França, 23 anos. Os batimentos cardíacos aceleram, os olhos buscam qualquer indício de perigo e um suor frio escorre pela lateral do rosto. Não é para menos. Dentro do ônibus, ele já teve uma arma apontada para si mais de uma vez. Conhece bem o trauma, que já faz parte da rotina de quem usa e de quem trabalha no transporte coletivo na capital.

Nas quatro vezes em que já foi assaltado enquanto trabalhava, William testemunhou a mesma cena. Enquanto aguardava pelos passageiros que passariam pela catraca, o rodoviário viu subir os degraus do ônibus também os homens que, armados de revólveres, lhe obrigariam a entregar toda a renda obtida com a venda das passagens. Os bandidos recolheram o máximo de dinheiro possível e foram embora. Para quem permanece no coletivo, porém, ficam os efeitos da violência sentida. “A gente sabe que a qualquer momento pode ser abordado de novo”, destaca o cobrador, que atua na profissão há 4 anos e 2 meses.

Mais experiente na função, o motorista Manoel Xavier, 34, acumula também relatos de assaltos sofridos. Rodoviário há 16 anos, ele já foi abordado por criminosos 8 vezes, apenas no bairro do Jurunas. “A maioria dos bandidos anda bem arrumada. Quando a gente percebe, eles já estão dentro do ônibus”.

Na última ocorrência, o motorista lembra que o assaltante aguardava escondido, por trás do abrigo da parada de ônibus. Quando Manoel parou diante do aceno de um idoso, o ladrão saiu do esconderijo e saltou para dentro do veículo. Não havia mais nada que pudesse ser feito.

Pelas ruas

“Se a gente reagir, é pior”, declara Manoel. “Às vezes, temos sorte e eles nem mexem com a gente”, lembra. A violência não afeta apenas os trabalhadores do setor, chegando até a mudar os hábitos de quem anda pelas ruas da cidade. No encontro da avenida Fernando Guilhon com a Estrada Nova, no bairro do Jurunas, a costureira Cláudia Coutinho, 46, já nem sai mais de casa à noite. Tudo pelo medo.

Ela também evita estar nas ruas nos finais de semana. A maior parte do seu dia a dia é vivenciado dentro de casa. “A gente se sente coagida”, diz. A moradora aponta que a fuga dos assaltantes costuma ser facilitada pelas várias saídas e becos presentes no bairro. Sem a certeza da punição dos culpados, o silêncio acaba sendo também a escolha mais segura. “A nossa situação é muito difícil. Falar demais também pode ser perigoso”, diz.

Ocorrências criminosas já não causam surpresa

Enquanto se dirigia para a parada de ônibus localizada na rodovia Arthur Bernardes, no bairro de Val-de-Cans, a técnica em segurança do trabalho Suzane Carvalho, 32, não percebeu que corria pelo seu lado um homem que havia acabado de praticar um assalto no local. A notícia chegou a ela pelos demais pedestres da rua. “Agorinha mesmo disseram que ele tinha acabado de roubar uma pessoa que estava subindo no ônibus”, contou, sem esconder que a ocorrência já não lhe causava surpresa.

Apesar de já ter se mudado, Suzane conhece bem os perigos de sair de casa para trabalhar. Ela chegou a ser assaltada dentro do ônibus. As lembranças do momento de terror a acompanham até hoje. “Entraram 3 homens. Um ficou com a arma no motorista, outro no cobrador e o terceiro pulou a catraca pra roubar os passageiros”.

Desde o ocorrido, em outubro do ano passado, ela fica sempre apreensiva quando precisa pegar um coletivo que transite pela rodovia.

Na tentativa de evitar ao máximo essa experiência, a comerciante Aldenize Barros, 62 anos, já sai de casa sem praticamente nenhum pertence. Enquanto aguarda pelo ônibus na passagem Mirandinha, no bairro do Barreiro, só o que ela mantém nas mãos é o cartão de gratuidade do ônibus. “Eu saio de casa sem nada, nada, nada...”, diz, nervosa, enquanto corre para pegar o coletivo que se aproximava da sua estação.

Resposta

Em nota, a Polícia Militar informa que intensificou as operações de bloqueio e barreiras para abordagens a coletivos e motocicletas nas avenidas Senador Lemos, Pedro Alvares Cabral e rodovia Arthur Bernardes . Estas ações diminuíram em torno de 50% os assaltos a coletivos em toda área, desde o mês de abril ,nos bairros da Pedreira, Barreiro e Sacramenta. Informou ainda que o efetivo do 1º Batalhão continuará realizando as barreiras diariamente nas principais vias citadas, em pontos e horários alternados.

A corporação diz ainda que disponibiliza os telefones 190 e 181 para registro de ocorrências e atitudes suspeitas e garante o sigilo dos denunciantes.

(Cintia Magno)

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