Há 10 anos, um incêndio no bairro da Pedreira, em Belém, mudou a vida do jovem Rafael Cardoso, 26 anos. As marcas do fogo que queimaram a sua casa, ainda ardem em sua memória ao lembrar do acontecido. “Perdi tudo: família e amigos”, disse, tímido. Em poucas palavras, ele relata que foi depois do acontecido que entrou no mundo das drogas. “Hoje estou ‘limpo’, mas usei de tudo: cola, cocaína, óxi”, confessou.
Entre as consequências de ter perdido sua residência, ele virou morador de rua. E foi na Praça da Sereia, parte do complexo do logradouro da República, no centro da capital, que ele se instalou. “Quando cheguei aqui era bonito. E a gente só passava a noite”, lembra. Já hoje, à luz do dia, é possível encontrar outros moradores de rua, assim como Rafael, tomando banho, dormindo, comendo e até mesmo usando entorpecentes.
CHAFARIZ
A praça abriga em seu centro um chafariz do século XIX, no estilo eclético da Belle Époque. Porém, hoje está fechado por placas metálicas para obras, parte da comemoração dos 400 anos de Belém, mas os trabalhadores não são vistos por quem habita por lá. “Moro aqui e só os vi colocando a cerca”, contou Rafael.
É com a água do monumento, que faz parte de um conjunto alegórico em ferro fundido, importado da Europa, montado em 1904, que Rafael e sua esposa tomam banho, lavam roupa e até mesmo usam para beber, através de uma mangueira. “Minha vida é isso”, declarou. Em volta do chafariz, outro descaso: os canteiros são tomados por lixo e mato alto, já os bancos estão quebrados.
Uma placa de obra à frente da praça, já no cruzamento da Avenida Presidente Vargas com a Gama Abreu, informa que ali acontece a restauração e a reforma dos bens integrados do Complexo da Praça da República e da Sereia.
INSEGURANÇA É ROTINA NO LOCAL

Jaime Teixeira, taxista: sinais de abandono afastam as pessoas. (Foto: Ricardo Amanajás/Diário do Pará)
A obra, no valor de R$ 4.1 milhões, iniciou em 7 de dezembro de 2015 e tem prazo de conclusão de 10 meses. Ou seja, até outubro de 2016. Porém, quem vive por ali tem a sensação de que o monumento foi esquecido, junto com a praça, pelo poder público municipal. O taxista Jaime Teixeira, 67, trabalha no local há 20 anos.
Ele diz que o cenário do logradouro afasta a população. “Nem sinal de serviço no chafariz. As pessoas passam por aqui inseguras”, observa. Jaime também relata que os turistas já não observam mais a beleza da praça. “Eles fazem fotos apenas dos moradores de rua deitados”, conta. O guardador de carro Márcio Nogueira de Souza, 47, há 30 anos trabalha naquela área. Ele afirma que nunca viu a praça numa situação tão caótica.
INSEGURANÇA
“Agora com esse cercado ficou bem pior. As pessoas não passam entre o chafariz”, observa. O flanelinha também comenta que pouco se vê no espaço da guarda municipal. A reportagem esteve no logradouro por quase 1h, e também não viu nenhum policial ou guarda no espaço.
A Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) esclarece que as obras no monumento do chafariz da Praça da Sereia, que fazem parte do projeto de reforma e restauro de todo o complexo da Praça da República, já foram finalizadas, faltando refazer as instalações elétricas e aplicar a iluminação da fonte, o que deve ocorrer este mês.
Segundo a Seurb, em todos os pontos da Praça da República, a empresa responsável pela obra mantêm vigilância noturna. E guardas municipais fazem rondas pelos espaços da praça.

Há lixo, mato alto e bancos quebrados. Reforma do chafariz, prevista para acabar em outubro, está parada. (Foto: Ricardo Amanajás/Diário do Pará)
A PRAÇA
A Praça da Sereia fica no menor trecho do complexo da Praça da República. Abriga o Chafariz das Sereias e fica na Avenida Presidente Vargas com a Rua Gama Abreu. A origem do monumento não é clara, com registros no ano de 1884 e também em 1904.
(Roberta Paraense/Diário do Pará)
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