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Glória Caputo, símbolo da música clássica paraense

As mãos deslizam suaves sobre o piano, criando acordes perfeitos. O coque impecável, a maquiagem discreta e o porte de bailarina revelam a face mais conhecida de Maria da Glória Boulhosa Caputo, nome que se tornou sinônimo de música no Pará. E não é para

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As mãos deslizam suaves sobre o piano, criando acordes perfeitos. O coque impecável, a maquiagem discreta e o porte de bailarina revelam a face mais conhecida de Maria da Glória Boulhosa Caputo, nome que se tornou sinônimo de música no Pará. E não é para menos. Há 33 anos, Glória se dedica a árdua tarefa de levar aulas de instrumentos de sopro, corda e piano a crianças e jovens da capital e do interior do Estado. O que pouca gente sabe, contudo, é que nem só de recitais, palcos e aplausos vive Glória Caputo. A dois meses de completar 71 anos, ela comanda uma fazenda no Marajó, onde também coordena um programa de aulas de música para 380 crianças nas comunidades do Genipapo e de Conceição do Arari.

Em Belém, há 12 anos, comanda outra escola com 280 crianças, que vêm de escolas públicas e estudam gratuitamente. Na capital, o projeto é patrocinado pela empresa Vale. Nas horas de folga, nada de música, o que faz Glória relaxar é pilotar o barquinho de seis metros pelos furos em volta de Belém. “Paro, como um camarão no bafo, tomo um açaí”, conta. Nesta entrevista ao DIÁRIO, a professora conta um pouco da sua trajetória musical, fala de investimento na cultura e da polêmica Lei Rouanet.

P: Como começou seu amor pela música?

R: Meu pai tocava violão popular e minha mãe cantava música de seresta. Na época, fazia parte da educação da mulher tocar algum instrumento. Meu tio-avô tocava piano e violino e o outro tio que era padre tocava flauta transversal. Já a minha avó cantava ópera, não profissionalmente, e tocava piano. Nasci em ambiente musical, mas não erudito. Na fazenda dos meus pais, no Marajó, as pessoas se reuniam nas noites de luar. Os vaqueiros tocavam cavaquinho, rabeca, caixinha de fósforos. E eu dormindo, no colo da minha mãe.

P: Quando a senhora decidiu que seria artista?

R: Aos 6 anos, fiz minha primeira tentativa de estudar. Descobri que nós tínhamos um vizinho e que os filhos iam estudar no (conservatório) Carlos Gomes, e aí eu falei pra minha mãe para ir também. Como não tinha quem me levasse, eu ia com os vizinhos. Aos 8 anos, fiz uma nova tentativa. Minha irmã foi estudar acordeon na academia Belas Artes e eu ia com ela. Aos 9, continuei insistindo. E aí, sim, comecei regularmente no conservatório.

P: Nunca mais abandonou o piano?

R: Nunca. Quando terminei o conservatório, casei e me mudei com meu marido pra a Bahia, onde tive aulas com grandes professores. Viajávamos muito por causa da profissão dele (o geólogo Mário Caputo). Aí, eu sempre aproveitava para ter aulas aonde quer que fôssemos. Tive aulas no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos, em 1979.

P: Quando a gente pensa em ensino de música, principalmente de erudita, pensa em algo para uma elite...

R: (interrompendo) Não, não. Música é uma só. Apenas são gêneros diferentes. Como tem jazz, MPB, música folclórica, também tem a música clássica.

P: Mas não há dificuldades em levar a música erudita para crianças carentes?

R: Olha, a música é inerente ao ser humano. Desde a hora que você nasce, sua mãe já canta para você dormir. Está nos nossos batimentos cardíacos. Temos ritmo no nosso corpo. Música não é privilégio de uma classe. E as crianças estão sempre abertas a qualquer coisa. Se você der coisas boas, ela vai absorver coisas boas.

Quando Glória Caputo voltou a Belém, em 1983, foi convidada para ser diretora do Conservatório Carlos Gomes, que era ligado á Secretaria de Educação. “Os primeiros anos foram extremamente difíceis, porque não tínhamos orçamento próprio”, lembra. Só em 1986, após reuniões com a professora de música, o então governador Jader Barbalho criou a Fundação Carlos Gomes, que passou a ter autonomia financeira.

P: Mas e a situação financeira da família deles?

R: Esse é realmente um grande problema. Apesar de as aulas no conservatório serem gratuitas, a criança passa por um teste e muitas acabam desistindo por questão econômica. Alguns conseguem vencer esses obstáculos, mas outros não conseguem. Quando a Fundação Carlos Gomes foi criada, nós recebemos uma verba e decidi investir tudo em instrumentos para que as crianças que não pudessem comprar tivessem o instrumento para ensaiar.

P: O que deixa a senhora mais feliz nesse trabalho?

R: Olhar para traz e ver a quantidade de bons músicos que nós ajudamos a formar. Muitos eu já nem reconheço, mas me abraçam e me chamam de mãe.

P: A senhora acredita que a música pode mudar a vida das crianças?

R: Sim. A mudança é enorme. Eu sinto um carinho muito grande de pessoas que passaram por aqui, pelo Vale Música e pelo conservatório e que não fizeram carreira de musicista, mas seguiram outras profissões e vêm me relatar o quanto essa iniciação foi importante. Tocar um instrumento é muito difícil. Então, na hora em que uma criança consegue isso, ela mostra que é capaz de muito mais. A música eleva a autoestima das crianças. E desenvolve o intelecto, a parte motora, a concentração, a disciplina, que são valores essenciais para vencer na vida.

P: A Lei Rouanet tem sido alvo de polêmicas e recentemente foram confirmadas fraudes na liberação de recursos. Como a senhora avalia essa lei?

R: É fundamental para ajudar os projetos. Afinal de contas, nós vivemos hoje com o nosso projeto graças à Rouanet. Se você olhar o grau de exigência que eles fazem (mostra uma prateleira cheia de pastas)... Tudo isso aqui é prestação de contas. Eu fico atônita sem saber como eles podem fazer algum tipo de fraude, porque cobram muito. Para que ocorra (a fraude), tem de haver uma conivência.

P: E como a senhora avalia a política cultural no Estado do Pará?

R: É uma questão complexa. Todos os dias, a gente abre os jornais e vê mortes violentas. As cadeias não comportam mais as pessoas, a saúde está ruim. E isso acaba pesando mais. As pessoas pensam: “Como investir em música, em meio a tantos problemas?”. Mas a minha experiência diz que esses investimentos poderiam ajudar a resolver esses e outros problemas. Hoje, temos 86 alunos que saíram daqui para a universidade. Mais de 30 estão na orquestra do Theatro da Paz, outros estão no Exército, outros na Marinha. Essas pessoas têm uma profissão. Não estão nas ruas contribuindo para o aumento da violência. Minha defesa é a da educação. Esse é o grande remédio para os males do Brasil.

(Rita Soares)

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