No distrito de Icoaraci, em Belém, encontra-se o espaço conhecido como Baixada Fluminense. Apesar de ser bem próximo à movimentada avenida Augusto Montenegro, o grande terreno tem aspecto interiorano.
A paisagem é composta por ruas com colinas, planícies e pontes que interligam uma vastidão de casas. Lá, há 65 anos moram muitas famílias. Mas tudo que construíram juntos está prestes a ser demolido.
Isso por que, na última segunda-feira (29), foram notificados de que seriam remanejados de lá até 30 de setembro para dar lugar a uma obra da Prefeitura de Belém.
Segundo um dos moradores da baixada, o vigilante Cláudio Melo, de 46 anos, emissários do prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) chegaram de surpresa, convocando toda a comunidade para uma reunião para notificar sobre o remanejamento e informar que eles iriam para um conjunto residencial no bairro do Tapanã.
“O problema não é nem sair daqui, mas é que querem que a gente vá para muito longe. Lá, não teríamos nada”, ressalta. Portanto, a proposta dos moradores é que, ao menos, sejam remanejados para uma área próxima à baixada, para não deixar totalmente para trás toda a história que tiveram no local a ser deixado por ordem da Prefeitura.

(Foto: Ricardo Amanajás)
TRANSTORNOS
A dona de casa Nazaré Melo, 63, se mudou para a Passagem São Vicente de Paula, na Baixada Fluminense, há 47 anos, quando se casou. Natural de Cachoeira do Arari, essa foi a primeira casa realmente sua na Região Metropolitana de Belém. “Vi crescer muitos filhos de criação aqui e agora tenho dois netos aqui em casa”.
Como querem que a gente se enfie em um apartamento agora?”, indaga, aflita com a possibilidade do tamanho dos apartamentos para onde seriam realocados não ser o suficiente para acomodar todos os 8 integrantes da família. Nazaré também se preocupa com o neto, de 10 anos, que é autista e precisa de atenção especial. “Ele não pode ficar sozinho em um espaço apertado”, relata.
A comerciante Josiane Lima, 30, mora há 25 anos no local e reitera os prejuízos com a mudança à força. Para ela, o remanejamento traria grande perda também à educação, já que, onde estão é próximo à Escola Municipal de Ensino Fundamental Ogilvanise Moreira de Moura. “Os professores já conhecem todos os pais. As crianças podem até ir sozinhas pra escola, já estão acostumadas”, destaca Josiane Lima.
REMANEJAMENTO
O assessor de relações públicas de Icoaraci, José Feio, confirmou o remanejamento e informou que o caso é de responsabilidade da Secretaria de Habitação de Belém (SEHAB).
O DIÁRIO entrou em contato com a assessoria da Prefeitura de Belém, para saber o posicionamento oficial sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
De acordo com Cláudio Melo, a comunidade pretende entrar com uma ação conjunta no Ministério Público.
RESPOSTA DA PREFEITURA
De acordo com a nota enviada pela prefeitura, a SEHAB pretende, através do projeto Oasis, remanejar as famílias para o empreendimento Viver Primavera, do programa Viver Belém.
Esclare ainda que o objetivo é tornar a área em um parque, protegendo as nascentes e realizando tratamento de esgoto.
Ainda de acordo com a nota, o Viver Primavera terá uma infraestrutura com ruas asfaltadas, calçadas, meio-fio, drenagem subterrânea, sistema de abastecimento de água e de esgoto, iluminação externa, praças, quadras poliesportivas, centros comunitários, posto de saúde, creches e área destinada ao comércio.
(Alice Martins/Diário do Pará)
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