Todos os anos, milhões de pessoas se reúnem para acompanhar o Círio de Nazaré. Entre elas estão os promesseiros, fiéis que fazem promessas durante o ano e vão à procissão como agradecimento. Geralmente, levam consigo objetos que representam a graça alcançada, feitos de miriti ou de cera.
Os objetos de cera, por exemplo, uma tradição secular no Pará, são produzidos em larga escala durante essa época do ano, movimentando não apenas o sentimento de fé, mas também a economia paraense. Só a Casa Círio, loja e fábrica de velas e parafina, em Belém, tem uma demanda que chega a 120 mil peças no período do Círio.
INUSITADOS
Segundo Pedro Chaves, proprietário, as peças mais procuradas são as de partes do corpo humano, casas e santinhas. Mas, de vez em quando, chegam pedidos inusitados. “Quem quer um pedido diferente geralmente procura a gente só no início de outubro, mas neste ano já temos um: um cavalo de cera, que ainda vamos criar”, diz. Para Chaves, a fábrica tem a obrigação de transformar a promessa em produto.

Partes do corpo humano estão entre as peças mais procuradas. (Foto: Cezar Magalhães/Arquivo)
Já há 30 anos no ramo, Chaves recorda de alguns casos memoráveis, como um homem que pediu para fazer um boneco de 1,7 metro e uma senhora que por 5 anos encomendou um galho de maniva para pagar uma promessa. “Ela morava do outro lado do rio e todo ano vinha aqui para mandar fazer o galho. Ela tinha uma plantação que passou por uma enfermidade e, então, fez a
promessa”, lembra.
INSTRUMENTO A FAVOR DA RELIGIOSIDADE
Alguns fiéis adquirem os objetos de cera não apenas por ato de fé, mas para espalhar a religiosidade. É o que fazem a professora Ester Sá, 47 anos, e a técnica administrativa Sandra Suely, 45. As duas amigas compram objetos de cera para dar de presente e também para darem de lembrança às residências que recebem a novena de peregrinação. “Faço um enfeite com um CD, um fuxico bem grande, bordado, frutinhas e uma santinha de cera para deixar nas casas”, conta Ester, que fabrica artesanalmente os artefatos. “O Círio é meu Carnaval. É uma tradição, um momento em que as famílias confraternizam, movimenta o coração da gente”, diz Sandra.

Devota segura cabeça feita de cera durante o Círio: pedido atendido. (Foto: Irene Almeida)
Para a artesã Graça Brasil, 65, os objetos de cera representam saudade e também seu meio de subsistência. “Compro as santinhas e transformo para o meu sustento, coloco manto e adereços e revendo”, esclarece. “Gosto de ter a minha santinha também, porque o Círio representa tudo pra mim, dá saudade de minha mãe, traz lembranças da infância”, revela.
(Alice Martins Morais/Diário do Pará)
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