Estocar água da torneira e até mesmo da chuva tem virado uma rotina para a população da Grande Belém, afim de driblar as constantes interrupções no serviço de distribuição feitas pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). Outra alternativa é a construção de poços artesianos residenciais, que costumam fornecer uma água de maior qualidade que a da superfície, mas não livre de riscos.
Segundo o sondador da empresa Louro Perfurações de Poços, Ricardo Horvath, a procura pelo serviço cresceu nos últimos dois anos. “Os principais motivos que a gente percebe dos clientes são reclamações da baixa qualidade da água da Cosanpa e das frequentes faltas d’água”, diz.
Já o proprietário da Pará Solos Perfurações, Hélio Cavalcante, prevê um aumento dessa demanda, por causa da constante falta de água. “As pessoas não gostam da água da Cosanpa porque tem muito cloro, e a tubulação que quebra facilmente e entrega uma água contaminada”, aponta.
QUALIDADE
Ao contrário do que defendem os empresários, o geólogo especialista em recursos hídricos, Ronaldo Mendes, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM), da Universidade Federal do Pará (UFPA), avisa que, apesar de a água da superfície (igarapés, lagos, etc.) ser mais vulnerável, a qualidade e os riscos de contaminação da água subterrânea dependem muito da profundidade e da localização do aquífero (lençol) de onde é captada.
“Naturalmente, a água subterrânea é realmente de maior qualidade, mas os aquíferos mais próximos do solo, os chamados lençóis freáticos, têm maiores riscos de contaminação que os mais profundos, os aquíferos confinados”, alerta. O geólogo também conta que os lençóis freáticos inferiores a 50 metros de profundidade estão mais expostos à contaminação por água de esgoto, sobretudo em regiões mais baixas e sem tratamento sanitário adequado. “Mas isso é muito variável, depende do terreno e da região. Por isso, antes de abrir um poço, é preciso fazer um estudo desse solo”, orienta.
Mendes garante que Belém está em uma região de abundância de aquíferos de água subterrânea. Em qualquer lugar que se cavar, se encontrará água. “Mas as características do solo e da água mudam de área para área. Não pode ser feito de qualquer jeito”, lembra.
O empresário Jorge Silva, 61, tem dois poços há mais de 20 anos em sua casa, na Cidade Nova 3, em Ananindeua. “Bebemos a água de um deles há anos. Nunca tivemos problema”, relata.

AUTORIZAÇÃO
Por lei, a água subterrânea é um bem comum, mas não particular. “Não pode ser usada de forma indiscriminada. Ninguém é dono da água, ela é de todos”, ressalta o geólogo.
Segundo Ronaldo Mendes, para se abrir um poço de captação de água dos aquíferos subterrâneos é necessário pedir autorização à Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Nos casos de poços residenciais para consumo familiar de até 5 mil litros por dia, a outorga é dispensada e a construção autorizada sem maiores procedimentos. Mas, se o consumo for superior, um geólogo é enviado ao local para verificar as condições do terreno e autorizar a construção. A Secretaria precisa autorizar também a exploração do poço construído, registrando as finalidades e a quantidade máxima permitida.
(Arthur Medeiros/Diário do Pará)
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