Após a divulgação da operação Carne Fraca, da Polícia Federal (PF), que durante 2 anos investigou um esquema de comercialização de carnes sem a devida fiscalização sanitária, muita especulação surgiu a respeito da qualidade dos produtos. Por esse motivo, o DIÁRIO conversou com especialistas para esclarecer sobre os cuidados que devem ser adotados desde a compra até o preparo dos alimentos.
Doutora em engenharia de alimentos e professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Pará (UFPA), Vanessa Albres Botelho ressalta que o consumidor não precisa restringir o consumo da carne e seus derivados por causa da situação denunciada pela PF. “A operação apontou um esquema. Isso não quer dizer que em todo o Brasil seja assim”, pontua. Isso porque, de acordo com a especialista, os produtos devidamente inspecionados possuem selo de qualidade federal que devem ser observados no ato da compra, assim como a validade, a embalagem e o aspecto da carne.
Quando um produto possui o selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), significa que, dentro do frigorífico de origem, há um posto do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA/Mapa), que coordena as etapas de fiscalização e inspeção até o produto receber o carimbo SIF. Em cada Estado, existe ainda o selo do Serviço de Inspeção Estadual (SIE), o que também atesta que o produto foi inspecionado.
Utilizar um produto fora da validade ou próximo de expirar é uma atitude arriscada para o consumidor, conforme a especialista. Além disso, ela explica que a pessoa deve sempre observar a temperatura de conservação do produto, indicada na embalagem. “A carne de hambúrguer, por exemplo, tem de ser vendida congelada. E o frango que possui um ‘gelo rosado’ é sinal que ele foi descongelado e recongelado”, frisa a especialista, acrescentando que o armazenamento correto do alimento, no freezer, diminui a velocidade de proliferação das bactérias que fazem o produto estragar.
Já a doutora em ciências e tecnologia de alimentos e professa da Faculdade de Tecnologia de Alimentos da Universidade do Estado do Para (Uepa) Vitória Seixas alerta que o consumidor nunca deve comprar um produto que não esteja refrigerado. E, no caso do frango, o ideal é comprar o congelado.
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LICENCIAMENTO
“Todo açougue precisa ter fixado na parede do estabelecimento o documento que comprova o licenciamento de funcionamento expedido pela vigilância sanitária, inclusive com data de vigência”, destaca. Ela também orienta que o consumidor opte pela carne moída no momento da compra. Além disso, observar a aparência da carne é outro ponto imprescindível. “A carne está estragada quando está com aspecto de amolecida, esverdeada e com um odor diferente”, pondera.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) informou que o Departamento de Vigilância Sanitária fiscaliza pontos de vendas de carnes em Belém, observando as inspeções, observa as condições higiênico-sanitárias, como ambientação e temperatura dos freezers. O órgão afirmou que em Belém não existe matadouro de bovinos e que essas carnes são oriundas de outros municípios, nos quais existe o SIE ou o SIF.
CARNE FRACA
Na sexta-feira (17), a PF deflagrou a Operação Carne Fraca, que investiga 21 frigoríficos do País suspeitos de participarem de um esquema que permitia a venda de carnes para dentro e fora do Brasil sem a fiscalização exigida.
Consumidor não deixa de comprar carne
Pedro Lucas diz que é observador quando vai comprar carne, sobretudo a questão da higiene Foto: Fernando Araújo)
A procura pela carne em açougues, mercados e supermercados de Belém parece não ter sido afetada com a Operação Carne Fraca. Na manhã de ontem, consumidores faziam fila para comprar carne em alguns açougues da capital paraense.
O açougueiro Mário Neles, 43 anos, afirma que a procura, durante o fim de semana, foi a mesma no açougue onde trabalha. Ele aponta que a única diferença percebida foi nas perguntas realizadas pelos consumidores antes de decidirem comprar o produto. “Algumas pessoas já estão perguntando de onde vem a carne, mas a gente explica que o nosso produto é de qualidade. A nossa carne é fresca, todo dia chega produto novo.”
Além de perguntar sobre a origem da carne, o técnico em segurança Pedro Lucas, 27, também costuma observar a higiene do local e a forma de manuseio. Ele conta que a família chega a gastar R$120 por semana apenas com carne. “A gente fica preocupado com essas notícias, mas eu sempre tive muito cuidado com isso.”
Nos supermercados, as bandejas com carne embaladas também não deixaram de ser procuradas pelos consumidores. Em um supermercado na Duque de Caxias, no Marco, muitos consumidores se dedicavam a escolher carnes, na manhã de ontem. O vigilante Nonato Soares, 52 anos, aponta que sempre dá preferência para os supermercados. “Eu não acredito que os supermercados vão vender carne de qualidade duvidosa.”
SUPERMERCADOS
Presidente da Associação Paraense de Supermercados (Aspas), Jorge Portugal diz que alguns consumidores ficaram preocupados após a Operação Carne Fraca. Ele aponta que grande parte das carnes vendidas nos supermercados locais é de rebanhos paraenses. “As carnes comercializadas aqui não têm problemas. São produzidas no próprio Estado e frigoríficos estão aqui, são inspecionados e estão dentro das normas”, tranquiliza. “A carne comercializada nos supermercados fica o tempo todo em refrigeração.”
A estratégia utilizada pela dona de casa Luciane Ferreira, 32, está em comprar apenas carne fresca. Ela conta que, mesmo antes da operação da PF, já mantinha esse cuidado. “Eu não fiquei muito preocupada porque eu não compro carne congelada, nunca gostei. Compro só carne fresca, pois a gente logo vê se está boa ou não.” (Foto: Fernando Araújo)

No mercado de carne da Pedreira, alguns consumidores fizeram mais perguntas do que o habitual. “Uma parte das pessoas perguntaram muito, mas a demanda ficou normal”, destacou o açougueiro João Pena, 65 (Foto: Fernando Araújo)
(Pryscila Soares e Cintia Magno/Diário do Pará)
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