Com o longo cabelo preso, de camiseta e calça jeans justa, Manu trabalha recolhendo latinhas, garrafas plásticas e outros objetos jogados pelos visitantes do Bosque Rodrigues Alves, em Belém. Vaidosa, ela também não dispensa batom e acessórios.
Manu faz parte do sistema penitenciário do Pará. Ela cumpre o regime semiaberto. Há seis anos, foi presa por tráfico de drogas. A detenta não integra as celas especiais voltada para os presos LGBT no Estado. Preferiu ficar junto aos outros presos.
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“Quando cheguei, o meu cabelo era comprido. Logo cortaram. Tive que passar pelo psicólogo. Também me colocaram roupa de homem”, lembra ela, que cortava e customizavas as peças para ficar mais feminina.
“Depois que eu estava quatro anos, chegou a pergunta se eu queria mudar de cela para outra cadeia. Aí não quis mais. Eu já trabalhava, fazia artesanato e era conhecida e respeitada”, garante.
Manu diz que quebrou o tabu dentro da cadeia e que precisou se impor. “Ser homossexual na cadeia é muito difícil. Não é fácil, não. A maior dificuldade é preconceito de presos e agentes. Venci tudo isso. Conversava muito. Sempre procurei ajudar todos que estavam na cela onde morava”, relata, dizendo que também era uma espécie de conselheira para outros presos trans que chegavam.

“Cortaram meu cabelo, queriam me vestir como homem”, relembra Manu sobre quando chegou ao sistema prisional. (Foto: Fernando Araújo/Diário do Pará)
É por isso, que ela acha importante ter as celas para LGBTs. “Hoje em dia nos cárceres deveria ter mais celas para homossexuais. O preconceito ainda predomina. É importante para a gente manter a nossa identidade. No começo isso não existia: cortaram o meu cabelo, me vestiam como homem”.
Por já ter seios, Manu conseguia não tomar banho de sol sem camisa, mas com uma blusinha cortada. “No cárcere, tem uns encubados que quando descobrem é espancado, estuprado. Graças a Deus não tive que passar por isso.”
Mas ela relembra momentos difíceis. “Uma vez, durante uma revista, sofri agressão. Rasgaram a minha roupa no meu corpo. Foi um constrangimento muito grande. É uma coisa muito severa”.
Nesse tempo presa, Manu só contava com o companheiro e a família dele. Eles ficaram juntos por quatro anos e oito meses no regime fechado. O relacionamento precisava ser mantido escondido para não incomodar os outros presos. “Nunca tive família para me visitar. Nunca tive visita. A família do meu companheiro que ajudava se eu precisasse de alguma coisa”, diz ela que é natural de São Luís, mas morava em Manaus.
Com a pena prevista para acabar este ano, Manu agradece por estar trabalhando no Bosque há cinco meses. “É muito difícil um homossexual, principalmente trans, ter oportunidade. Tive por causa do meu comportamento e de pessoas que acreditam que posso mudar. Tive muita sorte e pessoas que puderam estender a mão pra mim, porque de família, mesmo, não tive”.
Quando sair, ela já tem planos para a vida que pretende seguir. “Penso em montar meu salão. Trabalho com cabelo há mais de 30 anos. Abrir salão e me reintegrar à sociedade. Também quero voltar a morar em Manaus. Em outra dessa não caio mais”.
(Antônio Santos/DOL)
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