O Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, não possui celas específicas para as presas LGBT. Mas, segundo a Susipe, lá, a maioria das presas assume ter relacionamentos com outras mulheres. Também é lá onde ocorre a maioria das visitas íntimas entre pessoas do mesmo sexo no sistema prisional do Pará.
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Na prisão, não desaparece a necessidade pelo afeto, companheirismo e pelos ganhos que uma relação pode trazer, sejam eles sentimentais, financeiros ou de segurança – motivos muitos parecidos com os que existem fora dos muros das unidades prisionais.
E como as opções, na prisão, são limitadas, até mulheres que nunca haviam se relacionado com outras, acabam se sentindo mais livres para se relacionar com pessoas do mesmo sexo.
É o caso de Paula (nome fictício). Encontramos com ela do lado de fora do CRC, em um domingo de visita. Bastante receosa de conversar com a reportagem, ela assumiu estar indo visitar a companheira.
Por cumplicidade e medo, ela ligou para pedir autorização à companheira, Joana (nome fictício), para conversar com a nossa equipe. Paula topou conversar desde que o nome real e imagens dela não fossem publicados.
“Se conhecemos aí dentro. Começamos um relacionamento depois de muita insistência. Ela é legal, carinhosa, gente boa. Saí há dois meses. Ela está presa por tráfico. Aí dentro é tudo certo, respeitam os nossos direitos, o nosso relacionamento. Só os bíblia [evangélicos] que se incomodam um pouco, mas ninguém mexe. Aqui fora ela só tem eu. Só eu que visito. A família dela é de Bragança. A gente pretende morar junto quando ela sair. Está marcado para os próximos dias. A gente quer se amigar e ser feliz. Sair da vida do tráfico. É muito difícil ficar aí dentro, só tendo um relacionamento mesmo (SIC)”.
Paula
Rosa (nome fictício) também se mostrou bastante receosa em conversar com a reportagem. Ela topou falar desde que cobrisse o rosto. Mesmo separada da companheira, ela estava na fila de visitas no domingo.
“Ela está há três meses por porte ilegal de arma. Se separamos, mas venho visitar. Se eu não vir, não vem ninguém. A família dela não apoia, ninguém apoia, querem ver ela mais no buraco. Ninguém aceita ela curtir com mulher. A família não aceita que ela esteja comigo há tanto tempo. Às vezes, eles [agentes penitenciários] implicam muito. Não pode entrar com brinco, não pode entrar com cordão, coisa que não vai fazer mal pra ninguém. Tenho uma filha e ela sempre foi uma boa companheira. Todos os casais tem discussão, mas ela já me ajudou muito, já fez muito por mim. A visita íntima [no sistema prisional] nós sempre tivemos e isso sempre foi respeitado (sic)”.
Rosa (nome fictício)
Kelly estava com uma sacola com produtos de higiene pessoal e algumas roupas limpas para levar para a companheira. Parte do salário, ela gasta para ajudar a namorada presa, a quem visita de 15 em 15 dias.
“Estamos juntas vai fazer dois anos. Nos conhecemos por cartas, fomos trocando. Vi que era uma pessoa bacana, legal e fomos nos aproximando. Ela está presa por homicídio, mas sei que não foi ela. Venho de 15 em 15 dias visitar porque moro longe, trabalho, é difícil. E ainda tem a revista, é constrangedor passar. Dentro da cadeia você vale o que você tem. Não é um mar de rosas, mas vai se levando. A visita íntima não existe. É muita gente. Mas é importante que tenha [a visita íntima] para a gente se ver. E ela não vai sair tão cedo.... Pretendo ficar com ela até quando Deus quiser. Não tenho ninguém aqui fora também. Mas não temos planos para quando ela sair. Isso a gente vê na hora”.
Kelly
Com o sorriso de felicidade estampado no rosto é fácil perceber que o dia é um dos mais aguardados para Laurinei Reis Souza, de 23 anos, custodiado pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe). É dia de receber a visita do companheiro Maykson Nascimento no Hospital Geral Penitenciário (HGP). Em uma união estável há um ano e oito meses, todas as quartas-feiras e aos domingos Maykson viaja de Inhangapi, município localizado no nordeste do Pará, até a cidade de Santa Izabel para ficar próximo do companheiro.
“O que vale é o que temos no coração. Para o amor não existem barreiras. Não existe nenhuma distinção pela escolha que eu fiz”, relata Laurinei.
“Eu sinto muita saudade dele, então eu faço questão de vir nos dois dias de visita. Aqui eu fico bem por tá perto dele e porque me tratam bem. Querendo ou não, isso me ajuda a chegar até aqui”, pontuou Maykson.
No espaço reservado para a população LGBT na Central de Triagem Metropolitana II (CTM II), em Ananindeua, o colorido nas paredes da cela define o sentimento que sempre está presente, mesmo quando a liberdade é interrompida: a alegria.
(Antônio Santos/DOL com informações da Agência Pará)
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