Quando se fala de Belém na Belle Époque são comuns histórias de riqueza e ostentação. Perfumes, tecidos e mobília vinham de Paris. Como não poderia deixar de ser, esse glamour se estendia também a gastronomia. Os doces e sobremesas são um capítulo à parte nessa história. Artigos de luxo como manteiga inglesa, amêndoas, azeites e vinhos de safras especiais faziam parte da lista de ingredientes. O resgate dessas receitas foi o desafio assumido pela jornalista Lorena Filgueiras, 38, por sua sócia Bruna Garcia, 34. Criada em meio a aromas e sabores, Lorena juntou o jornalismo com a gastronomia. Pesquisou a história dos sabores que fizeram a alegria da era de ouro da borracha e hoje faz releituras dessas delícias. Nessa entrevista, ela conta como foi o trabalho de pesquisa, do prazer de comer doces sem culpa e, lógico, como hoje é domingo de Páscoa, fala também de chocolates.
Como começou o interesse pelo mundo dos doces?
Nasci em uma família de mulheres que cozinham maravilhosamente. Meu maior referencial sempre foi minha avó Maria Lúcia e um excepcional bolo de queijo que ela fazia e que perfumava a casa inteira. O dito bolo era um acontecimento muito celebrado por nós, os netos e pelos filhos. Com a minha mãe, Regina, aprendi a fazer o primeiro doce da minha vida: Monteiros Lopes (veja receita abaixo). Minha avó promovia um serviço de chá, uma vez por mês, para nos ensinar boas maneiras à mesa e nesta ocasião, fazia um chocolate quente com ovos batidos, quase uma gemada (chantilly era raro em Belém). Foi ela a grande responsável por me fazer amar a Páscoa, que gosto mais que qualquer outro feriado, até Natal e Ano-novo.
Você e sua sócia fazem pesquisas sobre os doces da Belle Époque para reproduzi-los. Por que essa opção?
A época é bem significativa: foi na Belle Époque que insumos mais sofisticados começaram a chegar a Belém, juntamente com novas técnicas e instrumentos de cozinha. O refinamento das classes mais abastadas urgia e Belém precisava acompanhar este processo: as mercearias, então muito frequentadas, passaram a ser preteridas e até vistas com maus olhos pelos novos-ricos e começaram a surgir cafés, espaços de convivência, onde era possível tomar chá (que vinha diretamente da Índia ou China), comer delicados bolos e doces inspirados/copiados da confeitaria francesa. Antes da Belle Époque os registros de receitas não eram tão precisos ou frequentes. Embora Belém tenha refinado muito seus hábitos e gostos durante a Belle Époque, a própria chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, décadas antes, mexeu bastante com o comportamento e paladares locais.
Ovos de Páscoa: recheios tradicionais (Foto: Divulgação)
Onde vocês encontram informações sobre os doces?
As pesquisas foram realizadas em bibliotecas públicas, privadas de Belém e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Também conseguimos folhear alguns cadernos de receitas, além da inestimável contribuição da historiadora e chef de cozinha Ana Roldão, que é a pesquisadora oficial dos hábitos gastronômicos da família real portuguesa no Brasil. Foram 6 meses de pesquisa para um livro, sobre doces que não são mais feitos em Belém porque as receitas se perderam no tempo ou não foram escritas.
O que mais surpreendeu vocês nessa busca pelos doces da Belle Époque?
Eu destacaria dois aspectos bem impressionantes: a riqueza das receitas de Belém da Belle Époque impressiona muito. São doces com muitas amêndoas, muitas gemas, baunilha. E a ostentação da burguesia paraense no consumo de artigos luxuosos (até para hoje): manteiga inglesa, vinhos franceses de safras especiais, azeite extravirgem de Portugal, além dos itens de “primeira necessidade”, como guipir francesa, veludos e sedas chinesas.
Algumas receitas de vocês resgatam sabores da infância de muita gente. É proposital?
Sem sombra de dúvida. Nosso maior objetivo é que as pessoas não percam suas histórias. Comer é a melhor rede social que existe, porque aproxima pessoas, porque nos leva a lugares em nossa memória afetiva que há muito deixamos de visitar, porque evoca sentimentos. Comer é um ato afetivo, sobretudo. Então resgatar os doces e, principalmente, suas histórias, é preservar memórias, é nos devolver um pouco da lembrança coletiva e individual da Belém de outrora.
Hoje é dia de comer chocolate. Ele é realmente o rei das sobremesas?
Olha.... risos. Eu acho que o quindim é o rei das sobremesas! Polêmicas, à parte, amo chocolate e falar de Páscoa, é salivar por ele, que é indispensável, mas não esqueçam do creme de cupucaçu, da taça da felicidade, do pavê de bacuri, da torta Maria Izabel, dos monteiros lopes, dos salva-vidas....
Você gosta de ovos de Páscoa? Como é a produção de vocês para essa época?
Em relação aos ovos de Páscoa, tivemos a intenção de produzir, este ano, ovos com recheios dos bolos. Como temos uma proposta bem clara, nossos ovos este ano ganharam um ar romântico porque são embalados em tule e com laços em seda. A Páscoa de outrora utilizava muito mais a baba de moça, doces convencionais, como aqueles à base de coco. Chocolate em Páscoa, no Estado, é uma novidade bem recente.
O bolo Antônio Lemos: resgate histórico (Foto: Divulgação)
FAÇA EM CASA
Monteiro Lopes
Para a massa:
- 400 gramas de farinha de trigo
- 200 gramas de manteiga
- uma pitada de sal (se você utilizar manteiga com sal, pode dispensar essa pitada)
Misture o trigo, a pitada de sal e a manteiga, em uma vasilha, com as mãos, até formar uma massa uniforme e lisa. Modele os monteiro lopes: modele como se fossem quibes. Leve ao forno por 25-30 minutos ou até assarem.
Para a calda
- ½ xícara de açúcar
- ½ xícara de açúcar refinado
- duas colheres bem cheias de achocolatado
Misture tudo e leve ao fogo baixo para misturar bem e espessar levemente.
Para finalizar
2 xícaras de açúcar refinado
Retire os Monteiros Lopes do forno, mergulhe metade do biscoito na calda cuidadosamente e passe no açúcar.
Serviço
Ficou com água na boca? A Doux du Jour recebe encomendas pelo telefone: (91) 99302-2265. Também pelo Instagram: @douxdujour.
(Rita Soares/Diário do Pará)
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