Era madrugada de 26 de maio, uma sexta-feira, quando a família de uma menina de 16 anos estranhou ela não ter voltado para casa. A garota havia dito que iria estudar na casa de uma amiga e que voltaria ainda no início da noite. Preocupada, a irmã decidiu procurá-la. Algum tempo depois, ela chegou à casa no bairro do Aurá, em Ananindeua, onde ocorria uma “social” (como são chamadas as festas regadas a bebida alcoólica e drogas). Ao entrar no local, o choque. A menina estava nua, de pé, sem conseguir andar ou se mexer. A própria irmã a vestiu e levou para casa. O que ela ainda não sabia - e que foi relatado depois - era que sua irmã acabara de ser dopada e estuprada.
Após ser embriagada e, possivelmente, drogada, a menina foi estuprada repetidas vezes, por 8 homens, segundo apurou inicialmente a polícia, baseada em informações iniciais e no depoimento da vítima. Após 10 dias do crime chocante, o caso veio à tona e passou a ser investigado pela Delegacia Especializada no Atendimento a Criança e o Adolescente (Deaca). Mas, até agora, ninguém foi preso. Enquanto as diligências caminham em passos lentos, a vítima passou por uma semana difícil, em casa, onde prefere se isolar do mundo exterior.
Ameaças
Em uma entrevista ao DIÁRIO, ela deu declarações comoventes. A menina diz sentir vergonha de sair de casa. A garota revela sentir medo com o que pode acontecer, por isso não para de pensar em ir embora de Belém. Não sabe para onde, “talvez outro Estado”. A família dela também vive um temor particular. Desde que denunciaram a barbárie, passaram a receber intimidações e ameaças dos familiares dos suspeitos de serem os autores da violência sexual contra a menina.

No corpo da garota, as marcas de agressão física e da violência sexual.Foto: Maycon Nunes
O relato da vítima: “não quero mais morar aqui”
P: O que você lembra que aconteceu naquele dia?
R: Eu lembro que estava em casa quando me ligaram me convidando para ir à festa, mas eu respondi que eu ia fazer um trabalho da escola. Aí, eles (o organizador da festa e outros amigos) disseram que não, que era para eu ir para a festa porque todo mundo já estava lá. Aí eu falei que ia.
P: Quem estava na festa quando você chegou?
R: Quando eu cheguei lá, não tinha ninguém ainda. Depois que começou a chegar o pessoal da escola, porque a festa foi no horário da aula. Aí a gente começou a beber e tudo mais... E depois... Não lembro mais.
P: O que você bebeu?
R: Era bebida forte. Tinha vinho, 51... Comecei a beber e depois não lembro mais.
P: Você lembra como saiu da festa?
R: Eu lembro quando a minha irmã chegou. Eu não a vi direito, vi o vulto e reconheci a voz dela me chamando. No dia seguinte eu lembro que, quando acordei, estava em casa. Foi que vi como estava: Toda roxa, machucada. Sentindo dores.
P: O que você está sentindo?
R: Estou com raiva dele, só!
P: Como você acha que vai ser daqui em diante?
R: Não sei. Não quero mais morar aqui. Quero ir embora! Não quero ver ninguém. Não tenho vontade de ir para a escola, para o trabalho. Estou com medo e com vergonha.
A dor da mãe: “Ela me pedia: ‘Mãe, me ajuda’"
P:Em que situação você encontrou a sua filha no dia do crime?
R: Ela estava totalmente fraca... Não conseguia se mexer. Pedia o tempo todo “Mãe, me ajuda! Mãe, me ajuda!”. Tentando levantar e não conseguia. Quando cheguei lá, ela já estava vestida porque 5 minutos antes a minha outra filha já tinha chegado lá e vestido a bermuda dela. Quando a irmã chegou ela estava sem roupa, vestida somente com um ‘top’ azul. Dava para ver que alguém tinha colocado algo na bebida dela porque não era normal a pessoa estar daquele jeito. Não conseguia mexer os braços, as pernas e mal conseguia falar.
P:Ela disse que não quer mais morar na cidade. Pretendem se mudar?
R: Eu só não vou mesmo porque não tenho condições financeiras.
P:O que você espera destas investigações?
R: Eu quero que a polícia descubra o que aconteceu. Um dos que fizeram isso com a minha filha já esteve aqui em casa (no sábado, 27, após o crime) e contou que tinha abusado e que tinha usado camisinha. Que na segunda-feira ele ia contar tudo na delegacia. Mas quando ele ficou de frente para o delegado negou tudo.
P:Qual o sentimento que fica?
R: Eu quero Justiça. Eu quero que se descubra quem foram os acusados e que eles paguem pelo que fizeram! Os que tiverem culpa que paguem!
(Denilson D'Almeida/Diário do Pará)
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