A doméstica Luciléia Costa Reis, 42 anos, levava uma vida pacata. De casa para o trabalho e do trabalho para casa. Revezava com a irmã, N.C.R, 45 anos, os cuidados com o apartamento de uma magistrada aposentada em Belém. No feriado de 15 de novembro do ano passado, Luciléia deveria substituir N.C.R, por volta das 7 da manhã. Pontual, ela se atrasou, pela primeira vez em 18 anos. A patroa e a irmã começaram a ficar preocupadas, até que os vizinhos do bairro Castanheira ligaram avisando que, mais do que preocupação, o atraso era motivo para desespero. A doméstica fora assassinada dentro de casa, vítima de 25 facadas. O rosto estava deformado.
Seis meses e meio se passaram desde aquela manhã. Até a última sexta-feira, 30 de junho, quando falaram à reportagem do DIÁRIO, os parentes não tinham qualquer informação sobre o andamento do caso. Não se sabe, até agora, quem seria o autor ou autores do crime. “Ela era uma pessoa tranquila. Não costumava sair, não tinha hábito de beber. O laudo do Instituto Médico Legal revelou que ela havia consumido álcool. Tudo é muito estranho”, conta a patroa de Luciléia que a conhecia há 18 anos. “Ela e a irmã vieram do Maranhão, passavam boa parte do tempo aqui”, detalha. A dor e a revolta ainda estão presentes e, mais do que isso, a sensação de que o crime poderá ficar impune.
Esquecimento
Casos como esse se repetem com uma frequência fora do aceitável no Pará, estado que está entre os mais violentos do País. Às estatísticas de crimes soma-se outra triste estatística: a da impunidade. Os números não são precisos, mas a estimativa da Associação dos Delegados de Polícia do Pará (Adepol) é de que, a cada 10 crimes cometidos aqui, apenas um é solucionado.
Considerando que apenas neste ano, já foram 2.281 mortes violentas no Estado, pode-se afirmar que existem pelo menos 2 mil crimes sem solução. O acumulado de 2015 para cá soma mais de 9 mil casos que não chegaram a ser concluídos, de um total de 10.108 mortes violentas. Os dados foram extraídos do Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP). Na prática, a polícia tem 30 dias para as investigações, podendo solicitar prorrogação. O problema é que, sem estrutura, a maioria dos casos acaba ficando mesmo no esquecimento.
Família desistiu de caso da chacina da Condor
Entre os casos também sem respostas ainda está, por exemplo, o do servidor do Hemopa, Evandro dos Santos Sá, 38, uma das vítimas da chacina da Condor no início de junho. “Resolvemos deixar nas mãos de Deus. Não esperamos mais nada. Não estamos acompanhando o caso e nem queremos falar sobre isso”, disse ao DIÁRIO por telefone uma cunhada de Evandro. A mesma posição têm tomado parentes de várias vítimas de crimes violentos na capital paraense.
Desmonte da polícia dificulta prisão dos criminosos
O presidente da Associação dos Delegados do Pará, Maury Mascote Marques, diz que a falta de solução para crimes violentos no Pará é consequência direta da falta de estrutura das polícias. O principal problema, afirma ele, é a carência de pessoal. Hoje, o Estado conta com 2,6 mil policiais civis, incluindo delegados, investigadores e escrivães.
Em 2002, eram 3 mil para uma população de 4,5 milhões de habitantes. Em 15 anos, a população quase dobrou. Hoje é de 8 milhões, mas o número de policiais caiu. “Não temos como atender à demanda”, admite Moraes, afirmando que o ideal seria pelo menos triplicar esse contingente. O mesmo se dá com a Polícia Militar. O ideal seria que o Estado tivesse 45 mil militares, mas são apenas 15 mil. “Temos 30 dias para concluir uma investigação, os processos vão se avolumando. Não damos conta. Estamos adoecendo”, lamenta o representante dos delegados.
Maury explica que na última década o Estado criou novas delegacias, mas sem aumentar o contingente de pessoal. Uma solução meio improvisada foi colocar policiais para trabalhar nas folgas. “A pessoa trabalha e quando deveria folgar, descansar, volta para trabalhar. Ninguém segura muito tempo”.
Em números
Uma guerra particular
Só neste ano, já foram 1.960 homicídios no Pará
De 1 de janeiro de 2015 a 28 de junho de 2017, são 8.974 homicídios
Pará tem apenas 2.684 policiais civis. Em 2002 eram 3 mil
30% do efetivo está com algum tipo de licença
Na prática ficam 1.878 policiais civis para atender todo o Estado
O Estado tem ainda 15 mil policiais militares, que cuidam de 8 milhões de habitantes
(Rita Sooares/Diário do Pará)
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