Responsáveis por entrecortar a cidade de Belém, os canais espalhados por diferentes bairros mantêm uma ‘vida própria’. Na beira dos canais, há quem estenda roupa, sente para conversar, guarde carro, brinque e até estique uma rede para descansar. O problema é que toda essa vida tem de ser dividida com muito lixo.
Do início ao fim do canal Água Cristal, na Marambaia, a sujeira invade a vala tomada pela água turva. Dependendo do perímetro, é possível encontrar pedaços de madeira, restos de construção, lixo doméstico, geladeiras, fogões, capô de veículos e bastante mato.
Na tarde ensolarada de ontem, o batedor de açaí, Eraldo Pinheiro, 36, capinava o mato alto que já tomava boa parte da lateral do canal. Diante de uma quantidade enorme de lixo, jogada na outra beira da vala, o objetivo da limpeza realizada por Eraldo não poderia ser mais nobre. “Um senhor me pediu para capinar porque ele fez uma promessa. A filha dele nasceu e ele vai plantar duas árvores em agradecimento”, revelou.
PRÁTICA COMUM
Eraldo conta ainda que trabalha às proximidades do canal há pouco mais de um ano e que o acúmulo de lixo no local é corriqueiro. “Às vezes, as pessoas queimam parte do lixo que jogam aí, mas sempre volta. Em cada esquina as pessoas vão jogando”, aponta, diante de uma ‘montanha’ de pedaços de madeira jogados à margem.
Mais à frente, ainda no Água Cristal, o turista Genival Saraiva, 57, aproveitava a presença de duas árvores na beira do canal para atar uma rede. Diante do calor intenso que tem tomado conta de Belém, ele viu no espaço um bom local para tomar um vento. A parte ruim fica por conta dos dejetos despejados de forma irregular. “Tem muito mato, bicho, dizem que tem até cobra”, enumerou o operário da construção civil.
Natural da cidade de São Paulo, Genival se deslocou até Belém nas férias de julho para visitar os familiares da esposa. O visitante não deixou de reparar na falta de cuidados com os canais da cidade. “Em São Paulo já é tudo canalizado. Aqui a gente vê que a água fica parada”, avalia. “Essas partes que estão mais limpas é porque os moradores mesmo capinaram ontem”.
Se aproximando da avenida Júlio César, o Água Cristal ainda dá abrigo para uma quantidade impressionante de geladeiras, fogões, televisões e até mesmo capô de carros. Às proximidades do grande amontoado de material reciclável, é possível ver um local de ‘reciclagem’ de ferro.
Passando a Júlio César, já no bairro do Barreiro, o canal encontrado passa a receber o nome de São Joaquim. O que permanece, porém, é a sujeira. As várias placas feitas de madeira clamam para que não se jogue lixo, mas o acúmulo no interior do canal deixa evidente a desobediência. “Os moradores fazem coleta para raspar essa parte, mas o ideal seria tirar tudo e isso aí só a Prefeitura”, considera a aposentada Ana Benedita Ribeiro, 63.Moradora da passagem Stélio Maroja há 29 anos, ela conta que a preocupação maior de quem convive com o canal é com a saúde, sobretudo a das crianças. Quando a água acumulada baixa, não é raro encontrar crianças brincando de empinar pipa de dentro do canal. “Dá muito um bichinho que ferra a gente. Bom seria tirar todo esse lixo e todo esse mato que fica aqui para cima.”
População reclama da coleta demorada
Já nas proximidades da avenida Pedro Álvares Cabral, o comerciante José Roberto de Freitas, 59, conta que faz coleta para mandar limpar a margem do canal que fica em frente ao seu comércio. Ao longo da mureta do canal, cestos de lixo instalados pelos próprios moradores tentam, da mesma forma, amenizar o problema. Durante a tarde de ontem, os cestos estavam completamente recheados de lixo doméstico. “Esse lixo é de dois dias que está acumulado, por isso os cestos estão cheios”.
Apesar de possíveis falhas no recolhimento do lixo por parte da Prefeitura Municipal de Belém (PMB), José Roberto avalia que a população também precisa criar consciência. “O povo não faz a parte dele. Não custa nada juntar tudo em um canto e pedir pra caçamba retirar”, considera. “O ideal era que todos se reeducassem”, sugere.
O QUE DIZ A PREFEITURA
Questionada sobre a existência de algum trabalho educativo para conscientizar a população sobre a necessidade de não jogar lixo nos canais e vias públicas, a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) informou, em nota, que “a Prefeitura de Belém investe cerca de R$ 2 milhões por mês para retirar lixo e entulho das ruas e margens de canais” e que, “de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, não é responsabilidade dos municípios recolher entulho e restos de construções”, mas que, “ainda assim, a Prefeitura de Belém faz o recolhimento do lixo despejado de forma criminosa na via pública”.
(Cíntia Magno/Diário do Pará)
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