Mesmo com a tentativa de duas negociações, agentes da segurança pública deram apoio ontem ao cumprimento do mandado de reintegração de posse da Ocupação Terra Prometida, na travessa Quintino Bocaiuva com a avenida Bernardo Sayão, no bairro do Jurunas, em Belém. O terreno pertence à Prefeitura, que pediu à Justiça a desocupação. Cerca de 650 famílias ficaram sem teto. No despejo, houve confronto, desespero, feridos e pelo menos cinco prisões.
Informados sobre a reintegração desde o último dia 20, os moradores passaram a madrugada de ontem em vigília, cercando a área. De mãos dadas, crianças, adultos e idosos fizeram orações e entoaram louvores, pedindo proteção divina para que um derramamento de sangue não ocorresse ali. Mas, irredutíveis à iniciativa da Prefeitura, eles bloquearam o acesso ao terreno, com barricadas, pneus e pedaços de madeira queimados.
SEM ACORDO
Por volta das 7h, equipes da Polícia Militar e da Guarda Municipal de Belém, com auxilio de cães e cavalos, começaram a se posicionar, na Bernardo Sayão. Advogados da ocupação, representantes de entidades de Direitos Humanos e a liderança comunitária tentaram negociar com o oficial de justiça Pedro Moura, responsável pelo mandado e com o comando da PM, para que a reintegração fosse adiada, mas não houve êxito. “Por favor, estou clamando, implorando, para que vocês não entrem. Há idosos, grávidas, crianças que moram aqui”, suplicou o líder comunitário Sebastião Conceição Matos, 46. Mas a PM cumpriu o mandado, expedido pelo juiz Raimundo Rodrigues Santana, da 5° Vara da Fazenda Pública da capital. “Estamos tentando evitar um confronto, mas infelizmente a tropa está avançando”, disse Pedro Cavalera, presidente Comissões de Assistência Comunitária e Moradia Ordem dos Advogados do Brasil - seção Pará (OAB/PA).
DEFESA
A proposta da defesa era que fosse feita uma audiência pública, para cadastrar as pessoas da ocupação no programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, do Governo Federal, executado pela Prefeitura, antes da ação. “Isso evitaria confronto e reduziria um déficit habitacional”, explicou Cavalera.
Às 7h45, uma equipe do Corpo de Bombeiros apagou as chamas de uma das barricadas, pela Bernardo Sayão, e cerca de 20 agentes da segurança pública, sendo 80 guardas, acessaram a ocupação pela entrada do condomínio Aloysio Chaves.
À medida que a polícia adentrava o terreno, usando armas de efeito moral, os moradores revidavam com pedras e fogos de artifício. Responsável pela ação, o coronel da PM Sandro Queiroz avaliou a situação como “normal, com resistência”. Ele desconhece agressão física e diz que foram usados instrumentos de menor potencial ofensivo.
PM NO COMANDO
A tropa tomou o controle da área por volta das 10h. Do outro lado, já na Quintino Bocaiuva, moradores de várias vielas hostilizavam os PMs. Uma mulher trocou agressão física com um policial. “Não pode! Não pode! Eles não podem bater em uma mulher que chora pelos filhos”, gritava um popular.
Cinco pessoas são presas por resistência e desobediência
O assessor parlamentar da vereadora Marinor Brito, Edson Luís, e sua esposa foram detidos pela Polícia Militar e Guarda Municipal de Belém e levados à Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe) da Polícia Civil, acusados de desobediência e resistência à prisão. Além deles, o integrante da Frente Povo Sem Medo, Jorge André, e dois moradores da ocupação foram detidos e agredidos.
Segundo a vereadora, que acompanhou os envolvidos até a delegacia, a ação policial foi truculenta e descabida. “O morador disse que a polícia entrou atacando eles e ele foi para cima na tentativa de proteger a esposa e o filho. Esse morador foi agredido, foi encaminhado ao Pronto-Socorro do Guamá e levou ponto na cabeça e está com o ombro todo batido”, denunciou Marinor.
As cinco vítimas prestaram esclarecimento ao delegado de plantão, fizeram exames de corpo de delito e depois foram liberadas. (Emily Beckman/Diário do Pará)
A maioria das pessoas não tem para onde ir
Para as quatro mil pessoas que ocupavam o terreno, fica a incerteza de onde morar. Da janela de sua casa, o autônomo Aluísio Tavares, 48, observava a operação chorando: “Não tenho para onde ir. O que vou fazer com os meus três filhos e a esposa?”. clamava. Desolada, a desempregada Tamires de Jesus, 24, gritava no meio da rua, abraçada ao seu cachorro. “Tenho um bebê de dez meses e outras três crianças. Não tenho emprego, não posso pagar aluguel. Para onde vou?”, dizia.
Enquanto os moradores retiravam seus pertences para levá-los às casas de amigos e parentes, o autônomo Paulo Costa, 44, ajoelhado, clamava a Deus, em voz alta, por justiça. Ele morava no local há um ano, com dois filhos e a esposa. Ele fez o cômodo com madeiras de doação. “O pouco que eu tinha já tirei. Mas não tive condições de fazer um piso digno”, lembra. A PM tem até hoje para desocupar o terreno por completo. Ainda ontem, equipes da Celpa foram acionadas e desligaram a energia da ocupação.
(Roberta Paraense)
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