Abrindo a temporada das festas marianas de 2017 no Pará, ontem, o Círio de Macapazinho, a 15 quilômetros de Castanhal, no nordeste do Estado, reuniu fé, devoção e uma cultura que se renova a cada ano. Há nove décadas, a procissão fluvial se entrelaça com a história do município, que foi emancipado há 85 anos. Com o tema “Maria, Mãe e rainha das famílias”, a programação atraiu devotos de todas as idades, que não medem esforços para manter a tradição viva.
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Apesar de ser conhecido como Círio de Macapazinho, as homenagens se iniciam às margens do rio Apeú, na pacata agrovila de Boa Vista, distante oito quilômetros do centro de Castanhal. Depois de passar a noite na pequena e ornamentada Capela de Nossa Senhora do Livramento, a convidada ilustre, a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré, no início da manhã começou a receber as homenagens.
Quem contribui para materializar este patrimônio cultural do município é o aposentado Elias Moraes Resco, 73. Nascido e criado na agrovila, ele tem a missão de trasladar a imagem de Macapazinho, no dia anterior, à sua localidade. Embora toda a sua família esteja envolvida com os preparativos, o fiel cumpre os trabalhos, rigorosamente, apenas para agradecer. “Não é promessa, é amor. Todos os anos fazer isso é uma honra”, justifica.

Foto: Maycon Nunes
Os filhos, sobrinhos e primos do devoto são responsáveis por preparar a ornamentação amarela e branco da singela comunidade, ocupada por 40 famílias. “Este Círio faz parte das nossas vidas. Ele vem de herança, e hoje é vivido por meus netos”, revela.
AGRADECIMENTOS
A tradição também se perpetua na família da jornalista Daniele Belém, 33. Desde criança ela acompanha a procissão, mas ontem, no colo, carregava Esther, de três anos. “Minha filha vem desde a barriga. O momento é de agradecer nossa Senhora”, conta.
Membro do grupo de oito anjinhos que acompanham a embarcação que leva a berlinda, Ana Clarisse, 5, se orgulha de participar pelo segundo ano seguido da festividade. “Faço parte da igreja. O Círio é bonito e legal”, garante, mesmo distante da mãe, que a esperava no trapiche de Macapazinho.
Santinha curou maestro de um tumor na garganta
O professor aposentado Carlos Alberto Moraes, 61, se orgulha ao afirmar que deu aula para boa parte das pessoas que moraram na agrovila de Boa Vista. Para seus alunos, contar a história de como começou o Círio era assunto obrigatório. Ele conta que havia um maestro que costumava ensinar os moradores da região a tocar instrumentos. No entanto, parou de dar aula porque teve um tumor na garganta, mas foi curado. “Ele pediu à Nossa Senhora. Fez os exames e tinha sumido”.
A partir de então, ele, por dez anos, fez a programação sozinho. Com a idade avançada, antes de morrer, passou a coordenação da festividade à paróquia de Macapazinho, que é seguida até hoje.
Imagem é recebida com festa e emoção por mais de 5 mil fiéis
Com cinco livros empilhados na cabeça, Ana Carolina, 16, vivia um dos momentos mais prazerosos da vida. “Passei no vestibular, em uma faculdade pública. Vim agradecer”, conta sorridente, a caloura de Agronomia, do Instituto Federal do Pará (IFPA). “Participo deste Círio todos os anos, mas agora é diferente”.
Após a queima de fogos, a imagem seguiu pela águas do rio Apeú até o trapiche de Macapazinho. O percurso de uma hora e meia foi acompanhado por outras embarcações, que desligam os motores para ser ouvido o som da natureza, interrompido apenas pelos louvores e reza. “O tema fala da família e ainda no mundo de hoje essas comunidades as preservam. A tradição passa de pai para filho”, explica o pároco Adriano Sousa, da paróquia Cristo Rei, diocese de Castanhal.
Em Macapazinho, a imagem foi recebida por cerca de 5 mil fiéis, segundo o Corpo de Bombeiros. A escadaria do trapiche da praça estava coberta de areias coloridas. A procissão seguiu pelas ruas da comunidade e terminou com uma missa na Capela Central, às 12h.
(Roberta Paraense)
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