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'É preciso, antes de tudo, entender as pessoas', Jader Filho

Criado há 35 anos para ser a voz da oposição em pleno regime militar, o Diário do Pará passou por transformações nos últimos 17 anos que o levaram a ser o líder do mercado paraense: investimento em pessoal, equipamentos e projetos gráficos mais modernos.

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Criado há 35 anos para ser a voz da oposição em pleno regime militar, o Diário do Pará passou por transformações nos últimos 17 anos que o levaram a ser o líder do mercado paraense: investimento em pessoal, equipamentos e projetos gráficos mais modernos. No comando das mudanças, o diretor-presidente Jader Barbalho Filho, 41 anos, para quem o atual momento é ainda mais desafiador que o período de luta pela liderança. “Está havendo uma revolução da informação sob todos os aspectos em todos os canais. Então é um desafio que todos terão que enfrentar”, diz ele, nesta entrevista onde fala do novo momento da comunicação no mundo, das mudanças que vem promovendo no grupo e vaticina: “O DIÁRIO é um jornal com posição política, mas tem responsabilidade com o leitor”.

Como você avalia a atual fase do jornalismo no Brasil e no mundo?
É um momento de transição. Um momento de passagem, em que as empresas, não apenas de comunicação, precisam ter em mente que está havendo uma revolução na maneira como as pessoas consomem informação. Estas sempre vão querer informação. O que muda são as plataformas. Impresso, online, TV, rádio, ou qualquer outra plataforma. Vão surgir cada vez mais opções para se buscar essas informações. Terá sucesso quem conseguir entender o que as pessoas desejam. O leitor de jornal impresso vai continuar existindo e nós temos de estar cada vez mais antenados para saber o que ele quer, quais as suas necessidades. Da mesma forma que é preciso estar atento aos que consomem informação no tablet ou em outros formatos mobile.

Como atender a tantas demandas diferentes?
É preciso, antes de tudo, entender as pessoas. A forma como vamos nos comunicar está muito vinculada à compreensão da linguagem que elas querem. É preciso compreender, também, quais são os interesses, que tipo de notícia e de informação elas desejam. Estamos buscando cada vez mais nichos de mercado. As pessoas querem informações exclusivas e de qualidade.

Como o grupo está se preparando para a transição?
Estamos buscando cada vez mais a unificação, a convergência das nossas plataformas, para que elas conversem. Tanto sob o aspecto de custos quanto sob o do conteúdo. No atual momento econômico, a gente tem de ser mais produtivo para não perder qualidade, para não deixar de atender o consumidor. O mercado diminuiu para todos os segmentos de uma maneira geral. São pouquíssimas as áreas que conseguiram se ampliar. No mercado de comunicação, o que está se ampliando é o mercado online, mas o ritmo de crescimento ainda é lento diante da crise que o País enfrenta.

Como o leitor, telespectador e internauta vai perceber essa convergência, na prática?
Nós buscamos essa unificação por uma questão de produtividade, mas também porque os veículos precisam conversar. Você tem o exemplo do jornalismo online. Nele, nós podemos usar áudios produzidos nas nossas rádios, os vídeos da TV, e os textos do jornal. Estamos buscando cada vez mais ser um player multifacetado, atendendo aos diversos segmentos da sociedade. Mas, fundamentalmente, convergindo toda nossa equipe, unificando para entender e atender os nossos clientes com qualidade.

Vira e mexe alguém anuncia a morte do jornal impresso. Você acredita nisso?
Não. Também anunciaram a morte do rádio quando chegou a televisão, mas o que ocorreu é que o rádio teve de se readaptar. Com o jornal é a mesma coisa. Ele precisa encontrar o seu lugar. Nenhum veículo nosso tem um faturamento e um alcance que o nosso jornal tem hoje.

Então, você ainda acredita no veículo impresso?
É inegável que vai haver uma pulverização maior da informação em razão das diversas plataformas, e todas terão de passar por algum tipo de ajuste, adaptação. Veja o que está acontecendo com a TV e os serviços de streaming. E com o rádio, a partir das novas tecnologias para ouvir música, como o Spotify. Com o jornal, será a mesma coisa. O problema não está no jornal impresso. Está havendo uma revolução da informação sob todos os aspectos em todos os canais. Então é um desafio que todos terão de enfrentar. É como se placas tectônicas estivessem se movimento e, obviamente, isso vai exigir uma reacomodação dentro do mercado. Quem vai vencer essa disputa é aquele que conseguir antevê para onde o mercado vai e compreender os recados do consumidor.

Hoje uma pessoa com celular pode registrar um fato, contar esse fato e divulgar pela internet. Nesse cenário como é que você enxerga o papel do jornalista?
O mais importante nessa disputa é a credibilidade. A Internet e as redes sociais deram voz a muitas pessoas, mas isso traz problemas também. Quantas vezes você vê as pessoas compartilhando noticiais falsas? Qual a diferença de quem compartilha sem qualquer checagem para o jornalista sério? Obviamente o jornalista vai checar, dar informação com credibilidade. O leitor que vem buscar um veículo como nosso sabe da responsabilidade que a gente tem. Credibilidade é o que vai separar o joio do trigo. As pessoas vão buscar a informação naquele veiculo que não vai entregar produto falso.

Qual sua avaliação do jornal nesse momento?
No início dos anos 2000, nosso objetivo era alcançar a liderança e já vão mais de 10 anos que estamos como líder do mercado local. Alcançamos muitos objetivos. Eu posso dizer que quase tudo o que imaginamos, conseguimos alcançar. Mas os desafios continuam e, hoje, talvez, até maiores. O jornal, como todos os veículos do mundo, está passando por um processo de transição. Mas o DIÁRIO chega aos 35 anos forte, sólido, e mesmo assim não pode se acomodar. O jornal que quiser se perpetuar tem que ficar muito atento para o que vai ocorrer adiante.

Do ponto de vista social, que papel você acha que o DIÁRIO deve desempenhar na sociedade paraense?
Eu acho que um veículo de comunicação tem diversos papéis: de fiscalizador do poder público, de divulgador da nossa cultura, de apoiar nas causas que são importantes para a sociedade. Nós existimos a partir da sociedade. É ela que nos dá audiência, compra nossos produtos. O jornal tem de retribuir parte daquilo que recebe todos os dias.

Que imagem você gostaria que o DIÁRIO tivesse perante a população?
Um jornal que defende os interesses da sociedade. Um veículo local, que fala para a gente, que busca levar para nossos leitores a informação da sua rua, do seu bairro. Somos um jornal paraense. Trazemos a informação nacional e internacional. Mas nosso foco, o nosso olhar é paraense.

O DIÁRIO nasceu em uma conjuntura política, é muito associado a grupo político, e essa associação parece mais forte em momentos de forte polarização como o atual. Qual a sua opinião sobre isso ?
O Estado do Pará passa há muitos anos por esse cenário de dualidade. Não é de agora, e todos os jornais daqui tiveram uma origem a partir de grupos políticos. Essa é uma característica do nosso Estado. Nós sempre tivemos um perfil de jornal crítico aos governos e governantes. E acho que isso foi muito importante para que a gente chegasse à liderança, porque o DIÁRIO mostrava o que os outros não mostravam e isso começou a atrair a curiosidade. O DIÁRIO, como todo jornal, tem uma posição política, mas tem de ter responsabilidade com o leitor, de levar a informação com seriedade. Podemos ter posição. O que não podemos é deturpar a informação para o leitor. Podemos criticar ou elogiar, mas sempre dentro dos limites da verdade. Fazendo isso, o leitor se sente respeitado.

(Rita Soares/Diário do Pará)

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