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Paraenses sofrem à espera de doação de órgão

“A cada momento do meu dia é uma esperança de meu telefone tocar para me chamarem para um transplante”. O depoimento é da dona de casa Erika Rodrigues, 34, paciente renal crônica há quase dez anos. Ela é uma das cerca de mil pessoas na fila de espera para

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“A cada momento do meu dia é uma esperança de meu telefone tocar para me chamarem para um transplante”. O depoimento é da dona de casa Erika Rodrigues, 34, paciente renal crônica há quase dez anos. Ela é uma das cerca de mil pessoas na fila de espera para transplante de rim no Pará. A demanda é alta, mas o número de doações é baixo e, por conta desse cenário, ontem, 27 de setembro, comemorou-se o Dia Nacional do Doador de Órgãos e Tecidos. O objetivo da data é conscientizar a população sobre a importância de ser doador e ajudar a salvar a vida de milhares de pessoas, como Erika.

No Pará, 38% das famílias negaram a doação de órgãos, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). No primeiro semestre deste ano, esse foi o percentual dos 29 familiares abordados por equipes médicas para a doação. Desse total, 11 disseram “não” à doação, o que reforça a campanha.

Erika começou sua batalha em 2009, mesmo sem fazer ideia do que se tratava. Por um ano, ela sentia dores de cabeça, inchaço nas pernas, hematomas e tontura, mas sempre ia e voltava do hospital com o diagnóstico errado. “Eles diziam que eu tinha hipertensão, até que passei muito mal e descobriram que eu era renal crônica e os dois rins já estavam comprometidos”, diz.

Desde então, faz hemodiálise três vezes por semana e já está na fila de espera há sete anos. Apesar de ter sido chamada para 19 tentativas de fazer o transplante e nenhuma ter dado certo, Erika não perde a motivação. “Quando você tem planos para o futuro, você consegue seguir em frente.”

A coordenadora da Central de Transplantes do Pará, Ana Beltrão, faz um apelo para que cada vez mais pessoas doem órgãos no Estado. (Foto: Wagner Santana/Diário do Pará)

É o que pensa também Tiago Souto, 20, que possui complicações renais desde que nasceu. Há um ano e meio, o quadro se agravou e ele precisou largar a escola para focar na saúde. Morador de Rondon do Pará, no sudeste do Estado, por um ano ele precisava acordar de madrugada para viajar a Ulianópolis, a 150 km de distância, e fazer as sessões de hemodiálise. Agora, ele já se mudou para Belém, onde continua o tratamento e há cinco meses está na fila de espera. “Tenho esperança de mudar minha vida e voltar a estudar, pensar no futuro”, contou.

FRUSTRAÇÃO

Quem está na fila de espera, como eles, tem de estar o tempo inteiro preparado para o transplante, porque nunca se sabe quando pode aparecer um órgão compatível. Mesmo assim, quando recebe a ligação da Central de Transplantes, ainda não é certeza de que tudo dará certo. Erika, por exemplo, passou por uma experiência que não deseja a ninguém. Há quase dois anos, estava tudo pronto para receber um novo rim. Todos os exames mostraram compatibilidade e, no dia 31 de dezembro, já fazia o preparatório para entrar na sala de cirurgia e iniciar o ano novo de uma forma totalmente diferente. No último instante, a família do doador decidiu voltar atrás da decisão. Não somente um rim iria para ela como o outro iria para outro paciente e os demais órgãos a outras pessoas.

HOSPITAIS DO PARÁ SÓ FAZEM TRANSPLANTE DE RIM E CÓRNEA

São mil pacientes à espera de um rim no Estado e cerca de 500 à espera de córnea. Em contraponto, em 2016, foram realizados no Pará apenas 195 transplantes de córnea e 57 transplantes de rim.

Segundo Ana Beltrão, coordenadora da Central de Transplantes do Pará, é fundamental ter cada vez mais doadores, porque, além da alta demanda e das dificuldades de se encontrar doadores compatíveis, há outros entraves que complicam o cenário. “No Estado, ainda há poucos hospitais que realizam transplante e poucos profissionais aptos”, aponta Beltrão. Os hospitais Ophir Loyola (córnea e rim), Saúde da Mulher (somente rim, porém já está credenciado o de medula óssea para convênios e particulares), Bettina Ferro (córnea pelo SUS) e Clínica Cinthia Charone (córnea privado e SUS) são alguns dos centros autorizados.

Em Santarém, por meio do SUS e da rede privada, realiza-se a captação de córneas e rins para transplantes. Também já está credenciado o transplante renal no Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA).

Atualmente, no Pará, são realizados apenas transplantes de rim e de córnea, mas é possível doar qualquer órgão hábil - nesses casos, serão levados a centrais de transplantes de outros Estados.

(Alice Martins Morais/Diário do Pará)

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