Iniciadas em 2014, as obras de 3 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que deveriam ter sido concluídas no ano passado, se arrastam nos bairros da Terra Firme, Jurunas e Marambaia, em Belém. Os recursos, no total de R$ 15 milhões, já foram repassados à Prefeitura pelo Ministério da Saúde, mas a população continua
sem atendimento.
Quando precisa, a gente vai para o Pronto-Socorro do Guamá”, conta o padeiro Andrey Santos, 21 anos, vizinho da futura Upa do Jurunas, próxima à avenida Bernardo Sayão. “A gente já perdeu a esperança (de ver a UPA funcionando)”, afirma. É para o PSM do Guamá que também corre a vendedora ambulante Maria Augusta dos Santos, 60, moradora do Jurunas. “Se funcionasse aqui, seria muito melhor, ficaria mais perto”. A prefeitura nega, mas o DIÁRIO apurou que as obras no Jurunas e na Marambaia estão completamente paralisadas por falta de pagamento às empresas responsáveis pelas obras.
No Jurunas, a obra está parada há exatos 18 meses – desde abril do ano passado. No local, quatro vigias se reversam para que não haja roubo de materiais. Logo na entrada, onde será a futura área de triagem, caixas de lajota e porcelanato atraem a cobiça. “Já roubaram, descobrimos onde estava o material e fomos buscar”, diz um funcionário que não quis ser identificado. Ele conta que houve também roubo de material elétrico. O local se deteriora a olhos vistos. Na sexta-feira, quando a reportagem esteve ali, não havia nenhuma placa indicativa de valores, início e previsão de término da construção.
Na Marambaia, a situação é semelhante. Apenas o vigia recebe os visitantes e as informações no local são de que a obra está parada. Na Terra Firme, uma placa anuncia a inauguração para julho do ano que vem. “Não há uma razão para tamanho atraso. A impressão que dá é que o prefeito Zenaldo Coutinho quer deixar a inauguração para o ano que vem apenas par faturar eleitoralmente”, diz o vereador Francisco Almeida, o Doutor Chiquinho, do Psol. “Depois que a obra for concluída, ainda será preciso equipá-las”, alerta o vereador, lembrando que não basta apenas cortar faixa e fazer fotos para que a população seja beneficiada. “É preciso botar para funcionar. Se não, vai ser como o BRT, que foi inaugurado às vésperas da eleição e não funciona”, critica.
ATENDIMENTO
As Unidades de Pronto Atendimento fazem parte de um projeto nacional do Ministério da Saúde. A intenção é garantir atendimento de baixa e média complexidade, nos bairros, para desafogar os hospitais de alta complexidade. Em Belém, por exemplo, o projeto prevê o funcionamento das 5 unidades que devem funcionar 24 horas, sete dias por semana. Com isso, esperava-se diminuir a pressão aos Prontos-Socorros do Guamá e da 14 de Março, para onde deveriam ir apenas os casos mais graves.
O atraso nas obras das UPAs gera um triplo prejuízo à sociedade. Priva os moradores dos bairros de atendimento próximo, impede a melhoria do atendimento nos prontos-socorros, que ficam superlotados e faz com que o custo das unidades aumente, já que a obra parada se deteriora, há roubo de material, entre outros prejuízos.
A placa diz que a entrega, só em julho de 2018 (Foto: Octávio Cardoso)
No Jurunas, material de construção está sendo roubado (Foto: Octávio Cardoso)
Andrey perdeu as esperanças de ver hospital funcionando (Foto: Octávio Cardoso)
Apenas duas unidades funcionam na capital: Icoaraci e Sacramenta
Apenas duas Unidades de Pronto Atendimento estão em funcionamento em Belém. A primeira a ser inaugurada, ainda na gestão de Duciomar Costa, foi a do Distrito de Icoaraci. Lá a situação é desoladora. Como é a única unidade para atendimento de urgência e emergência na área, está sobrecarregada. O aspecto geral do prédio é de sucateamento, com problemas visíveis no piso, nas centrais de ar, além de cadeiras e macas enferrujadas e quebradas.
Em uma vistoria feita no local, o Sindicato dos Médicos constatou que dois profissionais atendem em uma única sala. “Isso é bastante constrangedor, tanto para os médicos como para o usuário, que não tem nenhuma privacidade”, escreveram em relatório enviado à Secretaria Municipal de Saúde. Foi constatada também a falta de remédios e, embora a UPA deva funcionar 24 horas, o laboratório fecha às 8h da noite. Ou seja, quem chega após esse horário e precisa de exames terá de esperar o dia seguinte.
Na UPA da Sacramenta, a situação é melhor. Na sexta-feira pela manhã, a reportagem do DIÁRIO esteve no local. Não foi permitido fotografar, mas o local parece estar em bom estado e sem problemas de manutenção visíveis. Os pacientes contaram que o atendimento naquela manhã estava bem rápido. “O problema aqui é só quando tem muita gente. Já tive de esperar seis horas por atendimento. Cheguei às 3h da tarde e saí às 9h da noite”, contou o estudante Aldo Gomes, 24 anos. Na sexta-feira, Gomes levou a filha de cinco meses para atendimento e esperou menos de uma hora. Saiu satisfeito. Infelizmente, os moradores da Terra Firme, Jurunas e Marambaia ainda terão de esperar muito até poderem dizer o mesmo.
PREFEITURA DE BELÉM
- Embora, uma placa exposta nas obras da UPA da Terra Firme informe que a inauguração está prevista para julho do ano que vem, a Prefeitura informou, por meio de nota, que a unidade começará a funcionar em janeiro. Sobre as obras da Marambaia e Jurunas, a Prefeitura não deu prazos para conclusão.
- A Prefeitura admite que já recebeu 80% dos recursos a serem repassados pelo Ministério da Saúde, nega que as obras estejam paradas, mas diz que o ritmo foi “reduzido por causa da grave crise financeira no país”.
NÚMEROS
350 pacientes é quanto cada UPA pode atender por dia, se estiver funcionando. Ou seja, se as 3 unidades em obras já estivessem funcionando, mais de mil pessoas que procuram os prontos-socorros hoje, poderiam receber atendimento nos próprios bairros.
(Rita Soares/Diário do Pará)
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