Uma das principais preocupações que a chegada da chamada Quarta Revolução Industrial traz é a mudança no cenário dos empregos: surge o temor de um "armagedom" das vagas de trabalho, com ondas de pessoas desempregadas e sem possibilidade de colocação no mercado. No entanto, com formação adequada e visão sobre essas mudanças, os impactos serão bem menores.
Segundo o estudo “O futuro dos empregos” (The future of jobs), do Fórum Econômico Mundial, algumas habilidades serão cada vez mais valorizadas nas próximas décadas, tais como: flexibilidade cognitiva (disponibilidade para aprender conhecimentos diversos), visão de futuro e raciocínio lógico e matemática.
A aprendizagem ativa (vontade de continuar sempre absorvendo novos conhecimentos), capacidade de gerir informações, a escuta ativa, o pensamento crítico e a capacidade de se auto gerenciar (sem necessitar que um superior fique o tempo todo monitorando o trabalho) são algumas competências apontadas como necessárias.
Além disso, as capacidades de tomar decisões, de ler e interpretar cenários e de resolver problemas complexos, aliadas ao potencial para manter boas relações interpessoais, são outras competências que serão muito valorizadas no “profissional do futuro”.
Para saber mais sobre o que o mercado espera das pessoas com as constantes mudanças tecnológicas, o DOL conversou com Emerson W. Dias, empreendedor, consultor, colunista de blogs como “Dinheirama”, coach e escritor do livro “O inédito viável”.
Acredito em um mercado de trabalho mais individualizado, porém integrado.Individualizado porque cada profissional será praticamente uma empresa. As possibilidades que a tecnologia oferece mudam o enfoque do trabalhador para prestação de serviço cada vez mais, o oferecimento de um talento individual ou produção de uma ideia autoral.
Vejo no futuro muito mais trabalho em serviços do que em produção. Neste sentido, a qualificação é fundamental e a transdisciplinaridade de conhecimentos também. É preciso mesclar os conhecimentos e experiências: isso é o que chamo de integração, é uma individualidade conectada.
Com diversas funções consideradas operacionais e repetitivas sendo realizadas por robôs e máquinas, como os profissionais dessa geração devem se posicionar no mercado? Existem áreas que já são consideradas “em alta” para os próximos anos?
Sim. As áreas de tecnologia como cientista de dados, uso de inteligência artificial, big data, além de medicina preventiva e entretenimento são as áreas que devem comandar no futuro, assim como no passado foi a indústria automobilística. Quando eu era estudante os engenheiros automobilísticos eram o que havia de mais moderno. Hoje, um engenheiro de computação que desenvolve games tem mais prestígio e remuneração.
Porém, o estudante não pode cometer o erro de achar que tudo é tecnologia. Existem áreas que tem grande potencial para o futuro e não dependem de tecnologia como fator principal, por exemplo a educação, que é, sem dúvida, o grande desafio do futuro.
Como aumentar a produtividade através do trabalho? Só se conseguirá com educação. Outra área é cuidados para longevidade. A população está envelhecendo, teremos mais velhos que jovens no futuro. Além dessas, tem também a área de sustentabilidade, meio ambiente, compliance, dentre outras.
E porque não pensar em soluções para grandes centros urbanos? Famílias menores, vida mais corrida, tem enormes oportunidades aí. Enfim, diminui-se o uso do braço no trabalho, aumenta a demanda por cabeças pensantes.
A revolução 4.0 deve chegar ao Brasil com uma velocidade rápida. Você acredita que os profissionais e estudantes devem se preparar a partir de agora? Como você acha que pode se dar uma boa formação para esses novos desafios?
Sim, esse fenômeno é irreversível, mas não podemos achar que, ao chegar, vai mudar tudo de uma vez. Por exemplo, já tem mais de 100 anos que aconteceu a 2ª revolução industrial (advento da eletricidade e linhas de produção) e ainda tem 1 bilhão de pessoas sem acesso à energia elétrica no mundo. A 1ª revolução tem 200 anos (máquinas a vapor e ferrovias) e ainda tem gente sem transporte urbano. Gente que nasce e morre sem ter percorrido um raio de 100 quilômetros de distância.
Então é preciso ter cuidado com afirmações catastróficas ou super otimistas, mas o que posso dizer é: não pare de estudar e desenvolver competências. Essa conexão de competências muitas vezes distintas é o melhor plano de seguros que você pode adquirir para o futuro. E aprenda desde já, educar-se financeiramente. É preciso ter reservas financeira para suportar transições de carreira e isso deve acontecer cada vez mais no futuro.
Você acredita que, caso não nos preparemos para a Indústria 4.0, os gaps sociais já existentes no País podem ser ainda mais exacerbados?
Sim, as pessoas mais qualificadas tendem a capturar as melhores oportunidades, e sem oportunidades não há como se qualificar, o que distancia cada vez mais pobres e ricos. Os governos têm um grande desafio para o futuro que é o emprego. No longo prazo, isso deve se ajustar,. Foi assim em todas as outras revoluções, mas, no curto e médio, ninguém tem uma solução pronta e caberá ao Estado prover o suporte para esta transição.
A rapidez com que a indústria 4.0 corta empregos não é percebida com a geração de novos empregos em outros setores. Este tempo de adaptação da economia pode ser crítico, talvez uma calamidade social.
Existe uma grande oportunidade que independe de indústria 4.0, que é a chamada economia da base da pirâmide. Sou partidário de que as empresas abracem de vez a causa e desenvolvam produtos e serviços para esta parte da população. Como prega C.K. Prahalad, é preciso erradicar a pobreza com lucro: este é um caminho para ocupar profissionais já, sem esperar pelo pior cenário, que é a diminuição dos postos de trabalho por causa da indústria 4.0
(DOL)
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