Além da redação e da área de Linguagens, códigos e suas tecnologias, os candidatos que se dirigirem à primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo (5), também terão que comprovar habilidades e competências em Ciências Humanas e suas tecnologias. A grande área de conhecimento engloba as disciplinas de história, filosofia, sociologia e geografia. Geralmente os textos e imagens de apoio podem apontar o caminho para delimitar exatamente o que a questão está pedindo.
Professor de história do colégio Ideal, Antônio Almeida lembra que, independentemente da disciplina, o Enem utiliza habilidades e competências que apontam verbos de ação intelectual como, por exemplo, ‘compreender’, ‘analisar’, ‘comparar’. Tendo isso em mente, ele orienta que o aluno fique atento à abordagem diferenciada que o Enem mantém com relação à disciplina de história. Se antigamente a disciplina era estudada com o intuito de decorar datas, nomes e fatos, agora exige capacidade de correlação entre o texto base e o conhecimento adquirido. “Tem que esquecer memória pura e trabalhar maturidade intelectual para fazer análise de situação”, recomenda.
Como exemplo, o professor aponta uma questão de história cobrada pelo exame em 2016. O item apresentava uma imagem que era uma fotografia de Paris, em que aparecia um Café – espécies de lanchonetes características da cidade – cujo nome, identificado em uma placa, dizia “Café do Brasil”. A partir deste cenário, a questão informava que a imagem representava a posição que o Brasil ocupou no cenário internacional. “A partir disso, tinha alternativas absurdas que diziam que o Brasil era formador de opinião, que tinha uma economia que dominava o mundo, e a alternativa correta que falava que o Brasil tinha um modelo agroexportador – de café, de açúcar, de cacau”.
MUDANÇAS
Ainda dentro do que pode ser cobrado, Antônio Almeida aponta que a prova de história no Enem apresenta uma espécie de eixo, que é a análise sociocultural. Segundo o professor, qualquer que seja o tema abordado no exame, deverá trabalhar esse perfil. “O indivíduo vai ter que fazer análise de mentalidade, imaginário, de religiosidade porque a pesquisa em história não trabalha mais a história do Estado, dos heróis, dos grandes eventos. A prova de história hoje procura compreender a construção da sociedade, as expressões culturais, as representações sociais”, explica. “Não se pode afirmar que vai cair sociedade colonial, por exemplo, mas, se cair sociedade colonial, virá religiosidade, relações de trabalho, imaginário”.
FILOSOFIA
Também dentro dos eixos que direcionam a prova, o fundamento que aparece com maior frequência na prova de filosofia do Enem é o que envolve a ética, moral e cidadania. Professor de filosofia do Ideal, Manoel Júnior destaca que os elementos do cotidiano são muito presentes na abordagem do Enem. “Elementos como o agir ético, a consciência moral estão muito inseridos na realidade da nossa vida cotidiana. Dentro de uma ação política, de uma ação moral, de uma ação propriamente dos valores sociais”, exemplifica o professor. “Então, aparece uma abordagem que aponta o indivíduo tendo compromisso com o corpo coletivo, fugindo de aspectos ligados ao interesse particular e passando a agir no interesse do bem comum.”
Ainda com base nas habilidades e competências exigidas, Manoel Júnior aponta que o aluno precisa saber diferenciar o agir ético do agir moral; diferenciar a ação consciente de uma ação somente obrigatória; e a participação ativa na ideia de cidadania e de bem comum. Também na filosofia, o texto base aliado ao enunciado da questão é fundamental para a identificação da opção correta. “O texto ou a imagem abrange muitas informações, mas o enunciado indica qual daquelas informações é mais relevante para ele poder marcar a opção correta”, orienta.
SOCIOLOGIA
A relação entre o texto e o enunciado também norteiam a prova de sociologia. Professor da disciplina no Ideal, Nelson Adrian aponta que o aluno deve se prender ao que o enunciado está pedindo. “Se de repente tem um texto falando, por exemplo, sobre Karl Marx, o aluno não tem que ficar se atentando às várias ideias desse autor. Ele tem que ficar atento ao que o texto e o comando pedem”.Por mais que o candidato tenha consciência que Marx trabalha com o conceito de lutas de classe, essa informação só será válida na prova se o enunciado pedir isso. “O Enem não está querendo saber o alto grau de conhecimento do aluno em determinados temas e autores. Ele quer saber o que o aluno sabe dentro daquele assunto”, orienta o professor.
Dentre as dicas para fazer uma boa prova de sociologia no Enem, Nelson recomenda verificar as questões de um ponto de vista social e econômico. Deve-se atentar especialmente para as questões ligadas a preconceito, discriminação, racismo, homofobia, xenofobia. “Devemos lembrar que está existindo uma espécie de reação ao modelo que atende a ideias fundamentalistas e radicais, como o caso do aumento de grupos chamados de neonazistas na Europa”, exemplifica o professor. “O Enem é um processo seletivo muito atual, então ele não aborda temas que estejam fora da nossa realidade. O resultado de tudo isso é que o aluno obrigatoriamente tem de estar bem informado”.
POR DENTRO DO ENEM
- Até ontem, 20% dos candidatos inscritos no Enem ainda não haviam consultado seus locais de prova. O endereço da prova pode ser consultado no site.
- Os estudantes de todo o Brasil que farão a prova devem ficar atentos aos locais para evitar contratempos, já que os portões serão fechados impreterivelmente às 13h, horário de Brasília, deste domingo.
- Neste ano, o Enem será realizado em dois domingos: 5 e 12 de novembro . Amanhã serão aplicadas as provas de linguagens, ciências humanas e redação, com 5 horas e 30 minutos de duração.
- No segundo domingo (12), vão ser realizadas as provas de matemática e ciências da natureza, com 4 horas e 30 minutos de duração. Nos dois dias, o candidato que sair da sala até duas horas após o início da prova terá sua nota zerada.
Inep recorre de decisão que barra regra de direitos humanos
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) ingressou ontem com um recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão que suspende a regra que dá nota zero a redação que desrespeitar os direitos humanos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que começa amanhã.
Como havia sido anunciado pelo ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PB), na quarta-feira (1º), o órgão quer manter vigente o item 14.9.4 do edital da prova de 2017, que estabelece que receberá nota zero a redação que “apresente impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação, bem como que desrespeite os direitos humanos, que será considerada ‘anulada’”.
O Inep foi notificado da decisão na noite de quarta (1º). O órgão diz que cumprirá a decisão judicial, mas afirma que como o caso ainda não está transitado em julgado e ainda se tenta a reversão da sentença, o ideal é que estudantes façam a prova de acordo com o edital, para evitar problemas futuros com a nota.
A decisão que suspende o artigo foi tomada pela 5ª turma do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) em 25 de outubro. Embora a decisão suspenda a possibilidade de a redação ser inteira zerada, ainda há um componente de avaliação que leva em conta “valores humanos” e que, segundo o MEC, podem ser zeradas caso haja desrespeito aos direitos humanos. Com isso, o candidato perderia200 pontos.
(Cintia Magno e Diário do Pará)
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