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Belém: contraste entre a fartura gastronômica e a pobreza

Na cidade que tem importante título ligado à gastronomia, ainda há muita gente que nem sempre tem o pão de cada dia. Em 2015, Belém foi considerada a Cidade Criativa da Gastronomia, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

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Na cidade que tem importante título ligado à gastronomia, ainda há muita gente que nem sempre tem o pão de cada dia. Em 2015, Belém foi considerada a Cidade Criativa da Gastronomia, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Dos restaurantes de alto padrão às barracas de rua, a capital do Pará tem a culinária como um diferencial.

Variedade de alimentos (Foto: Janduari Simões/Arquivo)

Na Ceasa, pessoas catam alimento do chão (Foto: Fernando Araújo)

Por outro lado, nos seus 402 anos - comemorados no último dia 12-, ainda há contrastes, sobretudo entre a diversidade gastronômica se contrapondo ao grande número de pessoas que vive na pobreza. É na madrugada que se inicia o abastecimento de produtos no Ver-o-Peso. A quantidade de alimentos que passa por ali impressiona. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-Pa), em média, por mês, são comercializadas 30 toneladas de hortaliças, legumes e granjeiros. Apenas de açaí, são 30 toneladas por ano, e de peixes, 300 mil toneladas pelo mesmo período.

No complexo, as barracas de comida são uma atração à parte. Às 9h, os balcões já estão lotados. Para o ambulante Daniel dos Santos, 36 anos, o peixe-frito com açaí é o melhor cardápio de Belém. “A gente come bem, e por R$ 15. Isso é fartura, às 10h da manhã”, brinca. Não recusar alimentos é uma regra na família do operador de máquinas Manuel Lucas, 65. “Não podemos estragar nada. Ensino minhas filhas a comer tudo que temos por aqui. E o açaí vai bem com tudo”.

Nas barracas das calçadas do centro comercial de Belém têm do prato feito às comidas típicas. E o cheiro é tentador. Carlos Alberto, 48, há 17 anos atrai seus clientes, na avenida 15 de Novembro, com o aroma da terra. “O tucupi e a maniçoba têm cheiro forte e atrativo. Não há quem resista”.

Carlos Alberto vende comida no centro comercial (Foto: Fernando Araújo)

Homem escolhe cebola que ainda dê para aproveitar, na Ceasa (Foto: Fernando Araújo)

DIFICULDADE

Por mais que a oferta de alimentos seja farta, há muita gente que não tem condições de comprar. Edivaldo Barata, 54, é gráfico, mas está desempregado. Ele que tem 11 filhos -dois morreram – morava com a companheira em um barraco na Pedreira. Por ali, não há energia elétrica e a comida é pouca. “Os vizinhos que me dão ou vou na feira catar”, diz. É a luz de velas, com apenas uma cama e caixotes que ele vive. “Quando chove alaga tudo. Os filhos já não estão mais aqui, e a mulher também já foi embora”, conta.

No Barreiro, uma imagem choca. Um barraco foi feito com madeira e telhas achadas no lixo. Dentro, 3 mulheres dividem o cômodo, forrado de retalhos de colchão e papelão. Ali mora Leidiane Araújo, 32, que sonha em sair dessa realidade. “Catamos comida na rua para sobreviver ou pedimos”. Com 12 anos, ela teve seu primeiro filho, que é casado e mora no Guamá.

A distância da caçula, que mora em Mosqueiro com a sua mãe, causa muito sofrimento para Leidiane. “Eu procuro trabalhar, mas não consigo. Já fui em hospitais, na prefeitura e não recebo apoio para sair dessa vida. A dor da fome é inexplicável e a da saudade também”, lamenta.

Quando a fome aperta, Claudia do Nascimento, 53, sai do bairro da Guanabara com família e vai à Central de Abastecimento do Pará (Ceasa), para catar frutas e legumes descartados pelos comerciantes. “Nada estraga. Tudo que está no chão, vai para o sopão”, explica. A ex-catadora do lixão do Aurá agora é carvoeira e, na função, nunca sabe o que vai ter no seu prato no outro dia. “Três vezes na semana a gente vem aqui”, observa Maria.

A lida começa às 4h, quando ela sai de casa acompanhada dos familiares, em uma carroça. “Pegamos do chão o que presta, cortamos a parte estragada e vamos enchendo os caixotes”, explica. Comer carne é difícil. “O dinheiro não dá. Às vezes, matamos uma galinha e comemos”, relata. E foi assim que ela criou seus filhos. “A fome dá, mas temos de confiar em Deus, amar muito e correr atrás”, diz.


(Roberta Paraense/Diário do Pará)

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