Depois do assassinato de 23 agentes de segurança registrados apenas nos quatro primeiros meses deste ano, sendo 21 policiais militares, o Governo do Estado parece ter finalmente saído da letargia institucional e começado a agir. Mas a sensação é que tudo é apenas mais do mesmo. De um lado, as reuniões e anúncios de medidas de gabinete. Do outro, dezenas de pessoas morrendo diariamente assassinadas na Região Metropolitana.
No pacote de medidas anunciado após uma reunião do governador Simão Jatene com a cúpula da Segurança Pública do Estado, na noite do último domingo (29), uma se sobressaiu: a troca da empresa responsável pelo bloqueio dos sinais de celulares nos presídios, já que, segundo o governo, a empresa atual alega dificuldades para fazer o bloqueio das chamadas nas penitenciárias.
Alguns questionamentos que não foram respondidos na reunião: há quanto tempo a tal empresa presta o serviço? Há quanto tempo ela vem alegando esse tipo de problema? A Superintendência do Sistema Penal sabia dos problemas? Por que só agora é que foram anunciadas medidas para resolver a questão num setor importante que é o sistema prisional e, principalmente, quando se sabe que a maioria das mortes que ocorrem aqui fora é ordenada de dentro dos presídios por celulares?
Ayala Colares Couto, doutor em Ciências do Desenvolvimento pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NaeaA) da UFPA e especialista em Segurança, ressalta que o atual governo confunde política de Segurança Pública com Política Pública de Segurança. “O que o governo faz agora tardiamente é anunciar uma política de Segurança Pública. A área de segurança demorou a interpretar o que estava acontecendo no Estado como um todo e o resultado é o que vemos todos os dias nos jornais”, pondera.
RESPOSTA IMEDIATA
Segundo Ayala, a criminalidade é dinâmica e trabalha em rede, organizando-se em pontos estratégicos, se antecipando às ações da polícia. “As ações só terão sucesso se vierem acompanhadas de medidas estratégicas nas áreas periféricas e de conflito, envolvendo a comunidade dentro de um contexto de cidadania”. Sem isso, os resultados não serão os esperados. “Assim, continuaremos com esse grave conflito social urbano entre o Estado e o crime organizado.”
o que se refere aos presídios, Ayala diz que estes não podem funcionar apenas como depósitos de seres humanos. “Sem ressocialização não há recuperação. O indivíduo preso precisa se integrar à sociedade de forma positiva. Sem isso o crime organizado cresce e aproveita essas pessoas que estão sem perspectivas, recrutando mais soldados e organizando a criminalidade de dentro das casas penais.”
DEPUTADO POLICIAL CRITICA DURAMENTE JATENE

Para o deputado estadual Soldado Tércio, o Estado vive um colapso na Segurança Pública. (Foto: Maycon Nunes/Diário do Pará)
Para o deputado estadual Soldado Tércio (Pros), o Comando Geral da PM perdeu a moral e o comando sobre a sua tropa. “O comandante geral Hilton Benigno é omisso e talvez não esteja levando ao governador o que de fatos estamos enfrentando hoje neste Estado. E o governador, por sua vez, faz cara de paisagem”, diz. “Há quanto tempo denunciamos a criminalidade, o crime organizado que impera aqui, o abandono estrutural da tropa? Só agora o governador resolve reunir a cúpula de segurança e anunciar medidas? Depois de tantas mortes?”, indaga.
Para o deputado, o governo não anunciou uma das medidas mais importantes e que vem sendo cobrada pela tropa há muito tempo: um programa habitacional urgente para policiais militares que possa retirá-los das regiões periféricas e do alvo contínuo dos bandidos. “No domingo, mataram uma companheira dentro da casa dela na presença de uma tia idosa! É mais uma morte que vai para a conta do governador e do comandante geral. Quantos mais terão de morrer?”, indaga.
Segundo Tércio, o comandante geral da PM não tem autonomia nem coragem para apontar para o governador os pontos necessários da segurança pública. “Ele (o comandante) faz apenas o contrário: baixa a cabeça. Hoje estamos vivendo um colapso na segurança pública com 23 mortes de agentes de segurança apenas este ano e o governador apenas reúne, reúne e sequer se pronuncia”, questiona. “Aí vem e anuncia que vai resolver o problema do bloqueio de celular nos presídios. Mas só agora, governador? Depois de tantas mortes?”, questiona. Para o parlamentar do Pros, o crime organizado na Região Metropolitana está sempre dois passos à frente da área de Segurança. “Neste momento, temos de pedir ajuda de onde puder vir: seja de outros Estados, seja do Governo Federal. Seja de fora do país... O que não pode mais é cidadãos de bem continuarem a morrer dessa forma nas ruas. Temos de agir com inteligência!”
(Luiz Flávio/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar