A operação Anonymous IV tinha como meta cumprir somente mandados de busca e apreensão na casa de suspeitos de envolvimentos em milícias e grupos de extermínio que atuam na Grande Belém, mas durante o cumprimento das ordens judiciais, o policial da reserva da PM, David Roberto Soares Fonseca e Fonseca, acabou preso e autuado em flagrante. Com ele, a Polícia Civil encontrou uma picape branca usada em pelo menos sete situações que resultaram no assassinato de oito pessoas, em Belém e Ananindeua, ano passado. O veículo tem registro de roubo e estava com o chassi adulterado.
As casas de outros três policiais do 6º Batalhão, que também são investigados, foram alvos do cumprimento das ordens judiciais. Entre as residências que a Polícia Civil percorreu estavam a da esposa de David, no Paar; de uma soldado que mora em um condomínio no Icuí-Laranjeira; e de um cabo que mora no conjunto Geraldo Palmeira – e que, inclusive, já responde a processos na Justiça Militar.
Os cumprimentos também foram feitos na casa de um cunhado do PM da reserva, que fica no conjunto Cidade Nova VII, e de outro civil que mora no conjunto Icuí-Guajará. A Polícia Civil cumpriu ainda mandados de busca e apreensão na casa dos pais de David Roberto. O cunhado dele responde a processo por violência doméstica.
As ordens judiciais foram expedidas pelo juiz Cristiano Magalhães Gomes, da Comarca de Ananindeua, e resultaram na apreensão de uma pistola ponto 40, um revólver calibre 38 (com o número de série raspado), munições, balaclavas, aparelhos de telefone celular e notebooks, além de uma motocicleta.
“O objetivo da busca e apreensão é descobrir provas que comprovem o envolvimento destas pessoas”, frisou o delegado-geral da Polícia Civil, Alberto Teixeira, durante a divulgação do balanço da operação, na sede da Delegacia Geral, em Belém. “A operação Anonymous IV é realizada a partir de uma força-tarefa da Polícia Civil que combate as milícias e grupos de extermínio. Nós implantamos este grupo específico de investigações desde o início da nossa gestão, ano passado”, disse.
Teixeira ressaltou ainda que esta etapa das investigações apura o envolvimento de um grupo envolvido em oito homicídios na Região Metropolitana. “Mas é possível que este número de crimes seja maior, chegue a 13 assassinatos. Mas isto está a cargo de uma investigação minuciosa e feita por uma equipe especializada.”
Para ele, o caso do PM da reserva é o que mais chama a atenção nesta fase das investigações, até agora. Lembrou que David Roberto Soares Fonseca entrou para a reserva em 2017, após ter sido baleado nas costas e ficado paralítico. “Na época, ele alegou que ficou ferido durante uma intervenção policial”, ressaltou.
O crime contra o policial foi no bairro do Guajará. “O veículo foi todo adaptado à condição de cadeirante dele. Além disso, não é um veículo comum, digamos assim, para ser usado em locais de crime de homicídios”, observou o delegado-geral. “A aquisição do veículo, por ele, foi de forma ilícita, já que o carro tem registro de roubo. Ele foi autuado por crime de receptação, adulteração de identificador de veículos e posse de armas de uso restrito”, pontuou Teixeira, ao reforçar que a prisão do PM da reserva não estava prevista. “Se deu mediante do que se encontrou e apurou no cumprimento dos mandados de busca e apreensão”, acrescentou.
Alberto Teixeira ainda explicou que a Corregedoria da PM acompanha o caso e que a prisão do PM da reserva será apurada pela Delegacia de Crimes Funcionais.
Grupo de extermínio é suspeito de cometer diversos homicídios
Dos oito assassinatos nos quais o grupo é investigado, seis foram em Ananindeua. Um no distrito de Icoaraci e outro no distrito de Outeiro. Todos em 2019. De acordo com a Polícia Civil, nem sempre as vítimas possuíam antecedentes criminais.
Uma das pessoas mortas pelo grupo foi Marcela Oliveira O’Reilly, em 27 de dezembro de 2019. Ela foi executada dentro do apartamento onde morava, no residencial Águas Lindas. De acordo com testemunhas, quatro homens chegaram em um carro branco (a picape) e a alvejaram. Um dos tiros atingiu a cabeça da vítima. O caso teve ampla repercussão na época porque Marcela tinha passagem por tráfico de drogas e estelionato. Em vida, teria se apresentado como empresária na internet e anunciava empregos, mas tudo não passava de um golpe, conforme a Polícia Civil investiga.
PISTA
A presença da caminhonete branca também esteve no homicídio de Gabriel dos Santos Sarmanho, em 20 de setembro do ano passado, em Icoaraci. O crime ocorreu na rua Furo do Maguari. A vítima caminhava pela via quando dois homens encapuzados desceram de um carro branco e a executaram.
O mesmo modo operante se deu em Outeiro, no dia 8 de agosto de 2019. Henrique Pablo Carvalho da Silva, 20, foi morto a tiros na rua da Assembleia. O crime foi dentro da casa dele e, segundo as investigações apontam, três homens encapuzados desceram de uma picape branca e invadiram a residência, executando Henrique com vários tiros.
A ação do grupo também foi registrada no conjunto Cidade Nova - onde inclusive mora o PM da reserva. Em 17 de março de 2019, ou seja, há quase um ano, Edson William Maia de Andrade, 25, foi executado na porta da casa dele. As informações levantadas indicavam que ocupantes de uma caminhonete branca efetuaram vários disparos contra a vítima. Duas pessoas teriam ficado feridas, além de Edson William, que acabou morrendo ainda no local do crime. “Temos informações de que em alguns destes crimes o PM da reserva estaria dirigindo o carro. Inclusive, ele teria chegado a efetuar disparos de dentro do veículo”, ressaltou Alberto Teixeira.
As outras vítimas dos homicídios do grupo investigado são: José Wilton Felinto Amorim, Armando Magno de Castro Júnior, Andrelino de Freitas Miranda e Luis Fernando Moraes Nascimento.
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