“Isso tudo é uma bandalheira”. Foi assim que se manifestou, na tarde desta quinta-feira (29), em discurso breve, mas enfático, o funcionário público Marco Antonio Farias Soares, ao se referir às denúncias que pesam contra ele de maus-tratos contra a própria mãe, uma idosa de 86 anos. Marco Antonio é o filho que faltava depor na Delegacia Especializada em Atendimento ao Idoso (Deal). Ele é o responsável em administrar o dinheiro da pensão e da aposentadoria da idosa, que é portadora de mal de Alzheimer.
Durou aproximadamente três horas o tempo em que Marco Antonio prestou esclarecimentos à delegada Soranda Nascimento, responsável pelo inquérito policial. Durante o depoimento, Marco Antonio contou como fazia a divisão do benefício da mãe. Após prestar os esclarecimentos, foi combinado com a imprensa que Marco Antonio iria falar.
Ele se posicionou, ao sair da sala da delegada, em frente às câmeras e disse que tudo se tratava de uma “bandalheira”. “Quanto ao abuso sexual, foi feito exame e deu falso, isso tudo que falaram é uma bandalheira, é só isso que tenho a dizer”, declarou Marco Antonio, que estava acompanhado da filha e da advogada. Todos estavam incomodados com o trabalho da imprensa.
A delegada contestou a afirmação dada por Marco Antonio a respeito do resultado do exame. Ela disse que ainda não tinha recebido nenhuma informação sobre o resultado. “Foi feito exame na idosa de abuso sexual e de corpo de delito, mas o IML tem até 15 dias para nos fornecer esse laudo e até agora eu não obtive nenhuma informação. Eu não sei explicar porque ele (Marco Antonio) já deu o resultado como negativo”, declarou a delegada durante entrevista à imprensa.
BENEFÍCIOS
A idosa recebe, no total, um valor aproximado de R$ 6 mil, entre os benefícios de aposentadoria, que corresponde ao menor valor, e da pensão deixada pelo marido, maior valor. “Ele disse que três mil e quinhentos reais pagavam as despesas da casa da mãe e desse dinheiro retirava o valor do pagamento da acompanhante da idosa e o restante ele dividia entre ele e os dois irmãos”, disse a delegada.
A advogada Celia Niceto, que acompanhou Marco Antonio durante seus esclarecimentos na delegacia, informou que o cliente recebeu há dois anos a procuração da mãe para receber o dinheiro. Sobre esta declaração, a delegada Soranda Nascimento explicou que a procuração corresponde ao dinheiro recebido da aposentadoria, que é o valor de aproximadamente R$ 1.500,00, pois o dinheiro da pensão Marco Antonio já recebia aproximadamente há nove anos.
“Eu perguntei se ele tinha recibos dos valores das despesas que ele pagava na casa da mãe, mas ele disse que não tinha”, acrescentou a delegada. Pois o valor de R$ 3.500,00 supostamente gastos com a idosa não condiz com a realidade encontrada pela polícia. “A casa onde ela estava era abafada, cheia de mofo. Uma senhora idosa e com problemas de saúde não podia estar naquele estado”, acrescentou a delegada.
Os três filhos de dona Marialva Farias foram indiciados e a Justiça irá determinar a pena deles. De acordo com o entendimento da delegada, Marco Antonio vai responder por desvio de proventos.
INQUÉRITO
Antes do depoimento de Marco Antonio, a acompanhante da idosa, Maria Divina Santos, também compareceu à Deal para prestar depoimento. Ela disse que estava trabalhando na casa da idosa há alguns meses e recebia um salário mínimo para dormir todos os dias com a senhora. Pela manhã, outra pessoa recebia um valor para fazer os serviços domésticos na casa.
A delegada informou que em torno de cinco pessoas foram ouvidas e já pode considerar o inquérito por encerrado.
ESTADO DA IDOSA
Na tarde de ontem, o DIÁRIO foi até ao hospital onde Marialva está internada e, em conversa com uma enfermeira, que não quis declarar o nome, soube que a idosa está com o quadro estável e recebe atendimento adequado. Com relação aos familiares da paciente, a enfermeira disse que ela está sendo acompanhada por pessoas da família.
DISPARO DE DENÚNCIAS
Após o caso de Marialva, divulgado na imprensa, as denuncias se multiplicaram durante o dia de ontem. “Depois da divulgação desse caso, hoje (ontem) recebemos várias ligações. Aproximadamente 100 pessoas denunciando casos parecidos. A impressão que temos é que as pessoas tomaram coragem para denunciar, mas claro, nós temos que fazer um trabalho de investigação e apurar caso por caso”, falou Neivaldo Silva, diretor da Divisão de Operações Especiais (Dioe).
(Diário do Pará)
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