plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 23°
cotação atual R$


home
POLÍCIA

Caso Patrick: Ainda à espera de paz

Na última quinta-feira, 23 de fevereiro, o Instituto Carlos Gomes tinha agendado para aquela manhã, entre vários outros, o teste de Patrick Botelho da Silva, que aos 16 anos iria buscar o aperfeiçoamento para o canto. A música era um dos instrumentos que

twitter Google News

Na última quinta-feira, 23 de fevereiro, o Instituto Carlos Gomes tinha agendado para aquela manhã, entre vários outros, o teste de Patrick Botelho da Silva, que aos 16 anos iria buscar o aperfeiçoamento para o canto. A música era um dos instrumentos que o adolescente acreditava ser útil para encantar crianças e jovens como ele às mensagens cristãs. Fato raro para o rapaz, Patrick não foi ao compromisso. Nem podia. Estava morto, assassinado a facadas três dias antes, no final de uma passagem escura, próximo a uma praia, em Mosqueiro.

Neste domingo, menos de uma semana depois do crime ainda sem respostas, a morte de Patrick inspirou uma caminhada, logo nas primeiras horas da manhã no balneário que é chamado de ‘bucólico’. Se ainda é cedo para rever o apelido, Mosqueiro ainda não sabe, mas os moradores têm a certeza de que algo se partiu e se perdeu com o homicídio que enlutou o distrito.

“Não tem nada ainda. Nada”, afirmava, um tanto agitado, o delegado Nilton Neves, logo ao chegar quinta-feira de manhã à Seccional do Mosqueiro. “O caso está sendo conduzido pela Divisão de Homicídios de Belém”, informava, esquivando-se de mais respostas às perguntas feitas.

A Seccional Urbana de Mosqueiro costuma ser um lugar tranquilo e de pouco movimento. Duas pessoas esperavam para falar com o chefe de operações na manhã de quinta-feira. Nem uma tormenta nos semblantes. Assim como é aparentemente sossegada, certamente não teria estrutura para impedir uma multidão enfurecida de fazer justiça com as próprias mãos. É o que se comenta entre os moradores de Mosqueiro, caso os responsáveis pela morte de Patrick sejam levados para lá quando forem pegos. Na Polícia Civil, a palavra é justamente essa: quando, e não ‘se’ forem pegos. “É questão de tempo”, garante o delegado Neves.

Tempo deixou de ser palavra amiga para os familiares de Patrick. Desde a última segunda-feira, ele se arrasta. As palavras são ditas entre lágrimas e silêncios profundos. Alternam-se. Na sala da avó, a professora aposentada Elizete de Almeida Silva, 66 anos, os dias têm sido de orações. Numa pequena mesa, altar improvisado, a imagem de Nossa Senhora do Ó ampara a carteira de identidade de Patrick. Na parede, o pedido: ‘Jesus, livrai-nos do mal’.

Era naquela sala, logo à entrada da casa de alvenaria ao fim de uma passagem, que Patrick costumava dormir, principalmente depois da separação dos pais. Atava a rede vermelha e repassava, no caderno, as anotações das tarefas que precisava dar conta. A letra bonita, grande e redonda mostrava a organização metódica do adolescente, que sempre grifava de vermelho as coisas mais importantes do dia a serem feitas.

Havia muita coisa a ser feita no início da semana. No domingo à noite, Elizângela de Almeida Silva, 38 anos, tia de Patrick, não demorou muito assistindo aos blocos carnavalescos no desfile de Mosqueiro. “Eu senti um aperto, uma dor. Voltei pra casa me sentindo mal”, lembra. Patrick chegou logo depois. Tinha passado o dia com o pai, Aguinaldo Junior. Depois fora à igreja. Estava envolvido profundamente na organização do bloco ‘Alegrai-vos’, ligado à Paróquia Nossa Senhora do Ó, padroeira de Mosqueiro.

“Tia, o que tu tens?”, perguntou ao vê-la acamada. “Dor, mas já vai passar”, ouviu como resposta.

Na segunda-feira, Patrick levantou às 8h30. Fez o de costume. Tomou banho, escovou os dentes e tomou café. Foi até o quarto da tia e pediu dois reais para a van. “Não tenho, pede pra tua avó”, respondeu Elizângela, estranhando que o sobrinho, como de costume, não fosse até ela na cama dar um beijo de bom-dia.

À avó, Patrick pediu e recebeu o dinheiro, informando que iria passar o dia na igreja. “Vai com Deus”, recomendou Elizete.

“Fique a senhora com Ele também”, respondeu Patrick. Na saída de casa, o adolescente encontrou a prima Marília Silva, 38 anos, professora dele no ensino fundamental. Marília ia a um curso preparatório para concursos. “E aí, Tick, quando é o Carnaval da igreja?”, saudou, chamando o primo pelo apelido. “Amanhã”, Patrick respondeu. Patrick usava uma bermuda preta e uma camisa azul sem mangas. Despediram-se quando ele desceu próximo à igreja e Marília seguiu caminho. “Foi a última vez que o vi”, diz a professora.

Pai ainda procura pistas pela ilha

A igreja era um lugar onde Patrick se sentia em casa. A religiosidade dele já era velha conhecida entre os familiares. Uma vizinha guarda uma foto de Patrick com três anos, desfilando no feriado de Sete de Setembro fantasiado de Papa. Quando criança, em vez do futebol, o menino gostava de brincar de rezar missa. Cursando a 7ª série, dizia à avó que pretendia formar-se em Teologia. Chegou a pensar em seguir a vocação de padre. Algumas namoradinhas, aqui e ali, não pareciam atrapalhar a fé.

Não deviam ser 10h ainda quando Patrick adentrou o salão paroquial da igreja. No muro ao lado, uma pintura chamava atenção para o ‘Alegrai-vos’. Patrick estava feliz. No dia anterior, logo depois do almoço com o pai, havia voltado à igreja. Percorreu as ruas de Mosqueiro num carro volante, chamando para a festa e tentando vender as camisas para o bloco cristão. “Vamos vender tudo”, havia prometido ao amigo Caio Douglas.

Menos de 12 horas depois de ter chegado à paróquia, Patrick agonizava. O hiato fundamental de tempo que separa o adolescente de tudo o que sonhara com o pesadelo ainda está envolto em mistério. Às 19h30, ele teria sido avisado de que alguém o chamara lá fora. Essa é uma versão. Outra diz que ele recebeu um telefonema. São versões. Patrick saiu, deixou documentos com uma amiga na paróquia e não mais retornou.

“Pega ele, pai. Pega ele”. Essas palavras ecoam na cabeça de Aguinaldo Junior desde a madrugada de terça-feira, quando Patrick não resistiu mais aos ferimentos. Na quinta-feira de manhã, insone desde a segunda-feira, sem comer quase nada desde então, Aguinaldo percorre a Beira Mar, a avenida que testemunhou a morte de Patrick. Junto a mais quatro amigos, Aguinaldo bate de porta em porta. Procura alguém que tenha visto, ouvido algo. Ou uma imagem em alguma câmera de segurança. Tem sido em vão. “Isso é o que me intriga. Ninguém viu nada, ninguém viu ele descendo, ninguém sabe de nada”, inconformava-se por não poder cumprir ainda o último pedido do filho.

A frase de Patrick é um apelo desesperado de quem vivenciou o terror em sua forma mais profunda. A passagem Santa Tereza, por onde ele foi levado até o barracão abandonado, é íngreme e escura à noite. É preciso cuidado no caminhar para não tropeçar em pedras soltas. Ao fim dela, do lado direito, há uma barraca de praia que serve de abrigo a quem quer sexo sem ser incomodado. É o que indicam os restos de preservativos jogados por lá. A mancha de sangue já seco é o que lembra agora o que se passou na segunda-feira à noite.

Jovem lutou bravamente contra a morte: amava a vida
Patrick foi espancado, possivelmente abusado sexualmente e esfaqueado. No corpo dele, foram encontradas três perfurações abdominais e três nas costas. Ainda não há uma noção exata de quanto tempo durou a tortura, nem quantos dela participaram. O que se sabe é que Patrick lutou para viver. Arrastou o corpo ferido por cerca de cinco metros. Seus gemidos foram ouvidos por um segurança. Patrick estava nu, a cueca enfiada à boca, a bermuda amarrando os pés, a camisa prendendo as mãos.

No início da noite de segunda-feira, Elizângela estava na praça de Mosqueiro, quando recebeu a chamada ao celular. “Vem para cá agora que aconteceu uma coisa grave”, ouviu. Ligou para a filha Maiara, 20 anos, e informou o que pouco sabia. Maiara estava acompanhando uma amiga no hospital. Viu quando a ambulância chegou. “Por que não me disseste que era com o Patrick?”, retornou em desespero a ligação. Ninguém sabia o que havia ocorrido de fato até então.

Os familiares chegaram rapidamente. Uma das enfermeiras de plantão era parente também. À avó, recomendou que fosse forte. Dificilmente o neto sobreviveria. Uma das facadas recebidas por Patrick foi visceral. Muito sangue foi perdido. Mesmo assim, o adolescente manteve-se lúcido grande parte do tempo. Na ambulância, reclamava de dores fortes, quando o veículo passava por um buraco maior. Ao pai, relatou a cor escura do veículo e possivelmente a placa com as iniciais JVK. E repetiu várias vezes para o pai pegar os responsáveis. No singular e no plural.

Patrick sofreu três paradas cardíacas antes de entrar na sala de cirurgia. A perda de sangue fez com que sofresse o que na linguagem médica é chamado de choque hipovolêmico. O coração não tem mais sangue para bombear ao resto do corpo. Logo após a primeira parada cardíaca, parecia que fazia uma força extrema para voltar à vida. Ia e voltava. A terceira vez foi a última.

No cemitério de Mosqueiro, a sepultura de Patrick, um adolescente magro, de 1,80 de altura, é simples. Ainda não há cruz nem lápide. Apenas velas constantemente acesas e flores. Próximo a dele, há mortos que receberam inscrições como ‘aqui descansa em paz’. Na de Patrick só o vazio. Talvez porque o adolescente que se fantasiava de ‘Palhaço Caneludo’ para distrair crianças enquanto os pais assistiam a missa, que fazia parte da banda católica Luz Divina, que integrava o Grupo de Oração Cristã e que sempre dizia ser melhor estar na igreja do que na rua fazendo coisas erradas, ainda não esteja totalmente em paz. Embora mereça. (Diário do Pará)

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em Polícia

    Leia mais notícias de Polícia. Clique aqui!