Muito mais do que um lugar onde mora gente pobre, gente que rouba, gente que mata, o bairro da Terra Firme é um lugar onde mora gente, com a mesma dor e a mesma delícia de serem o que são, como qualquer pessoa. É isso que tenta provar, para si mesma e para o mundo, a organização de moradores do bairro, em parceria com o Museu Emílio Goeldi, no microprojeto “Escrevendo Nossa História Outra Vez: Jornal O Tucunduba”.
Desde 1985, o museu desenvolve no local o projeto “O Museu Goeldi Leva Educação e Ciência à Comunidade”. Em 2009, para comemorar os 25 anos da parceria entre a instituição e o bairro, numa atividade do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), alguns representantes da Terra Firme, assim como de vários outros bairros que fazem parceria com museus em todo o Brasil, foram a Salvador. Mas a TF, como o bairro é carinhosamente apelidado, foi a única comunidade que não quis mostrar lamentações.
“Fomos o único bairro que teve repercussão na mídia. Ficamos conhecidas como as Mulheres da Amazônia”, comemora Eliete Carvalho, a “Neci”, que, junto com Francisca Rosa, a “Chiquinha”, Maria Francisca, a “Chicona”, Jéssica Louiza e a professora Helena Quadros, coordenadora do Núcleo de Visitas Orientadas ao Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, representaram o bairro.
No mesmo ano, veio uma comissão do Ibram visitar a TF. O bairro se mobilizou em questão de dias. “O que diziam sobre o bairro para o Ibram era que a Terra Firme só tinha mazela. Nós lotamos a praça e recheamos de atividades culturais”, se empolga Neci, que se orgulha do fato de que, após a apresentação, o Ibram divulgou que o bairro já havia sido aclamado a receber um projeto, sem ao menos ter que concorrer.
O TUCUNDUBA
O microprojeto “Escrevendo Nossa História Outra Vez: Jornal O Tucunduba” visa fazer uma relação entre jovens e adolescentes de 15 a 29 anos, para que, em contato com a própria realidade onde vivem, seja possível contar a história que não costuma aparecer nos livros ou nos jornais que a comunidade assiste, lê ou escuta. “O Tucunduba era um projeto dos moradores do bairro que existiu há 23 anos, e nós fizemos questão de resgatar o nome. Nós fizemos a seleção de 10 adolescentes e jovens, que passaram por oficinas com a jornalista Luciana Kellen”, detalhou a professora Helena Quadros.
No dia 4 de novembro do ano passado, na UFPA, o editor executivo do DIÁRIO William Silva deu uma palestra aos futuros jornalistas da comunidade sobre o processo que envolve a produção de um jornal. “É muito importante que os jovens contem a história do bairro”, frase dele que marcou a todos.
As pautas foram escolhidas criteriosamente. Os grupos, divididos. E, superando pontes, becos, sol e chuva, a garotada foi ouvir histórias quase esquecidas de um tempo em que a única terra seca era onde hoje está localizada a paróquia São Domingos de Gusmão, e as pessoas caminhavam convidando “Vamos à terra firme?” assim, com o significado de um lugar melhor. Cada jovem repórter foi se encantando com a espetacular história de pessoas reais que pareciam mais distantes do que são.
DESCOBERTA
“Eu descobri que eu não conhecia nada do bairro onde eu moro”, confessou Maíra Souza, 20 anos. Sentimento semelhante tiveram Débora Gonçalves, 16 anos, e Maiara Rodrigues, 17 anos, moradoras de outros bairros que foram convidadas pela professora Helena Quadros por estarem desenvolvendo trabalhos com ela no Museu Goeldi. Como a maioria, vieram à Terra Firme achando que em cada esquina haveria um engatilhar de revólver. “Eu vim pra cá achando que o bairro era perigoso e não é como pensei”, entregou Maíra, moradora do bairro da Cabanagem. Débora, que mora em Fátima, descobriu que a TF é “muito rica em cultura”.
A coordenação do microprojeto Tucunduba é de Dona Maria Madalena, 63 anos, dona da casa onde funciona a sede do Ponto de Memória. Mulher de poucas palavras, é o exemplo vivo de que, como ocorria com naturalidade em outras épocas, contar histórias para que os mais novos gravem e passem adiante é fundamental para que seja preservada a cultura e a memória de um povo.
O resultado? Orgulho das mães dos jornalistas, que assinaram o contar de histórias de sua gente na primeira edição de “O Tucunduba”. E mais: “Era emocionante ver o taberneiro que foi entrevistado colocar na vitrine da loja um exemplar do nosso jornal”, se orgulha a professora Helena Quadros.
Luta para preservar a identidade
Feira que funciona até as 21h, para que os moradores, filhos e netos do interior, possam chegar do trabalho e tomar açaí? Só a Terra Firme tem. Caravana da paz que mobiliza em torno da paz igrejas protestantes pentecostais de várias denominações e a igreja católica? Só a Terra Firme tem. Mulher briguenta que defende com unhas e dentes o bairro em que vive, como Neci, provavelmente, é só a Terra Firme que tem.
“Na época do prefeito [de Belém] Ajax de Oliveira, ele mudou o nome do bairro pra Montese, que é o nome de uma batalha francesa que só ele conhece. Nós então nos mobilizamos e fizemos uma caravana até a Câmara Municipal de Belém, fizemos abaixo-assinado e mostramos que queremos que haja melhores serviços públicos aqui, e não que mude o nome, que é parte de nossa identidade”, bradou Neci, guerreira que só ela.
Mas a Terra Firme também tem gente como o mestre de artistas do palco da vida Otávio Freire, que encontrou na Terra Firme razão fundamental de fazer teatro e criou, inclusive, a própria linha: “O Paradoxo do Impacto em Linhas Quebradas”. “O grande paradoxo da vida é viver a vida para morrer bem”, filosofa.
“O paradoxo do impacto é preparar as pessoas para o palco da vida. Pois a nossa vida é toda cheia de personagens. Na frente da namorada somos um. Na frente do chefe, outro. Eu trabalho para que as pessoas evitem críticas e conflitos que não levam a nada e partam para a realização em conjunto”, argumentou. Para ele, ajudar uma pessoa é ajudar todas as pessoas que a cercam. “Ninguém sofre só”, enfatiza.
Exemplos de vida e solidariedade
Otávio é o tipo de pessoa que não faz a gente prestar atenção no que ele diz sem querer. Ele, que tem talento de sobra pra ter pleiteado uma carreira de sucesso em grandes palcos comerciais, escolheu libertar jovens e adolescentes que encontraram no teatro identidade de grupo. E o palco das suas peças? É em qualquer esquina ou becos de um bairro onde a única praça, por exemplo, na verdade é um espaço amplo e cimentado na frente da igreja.
Também mora na TF o boxer Robson Fonseca, 31 anos, que sobreviveu às tentações da criminalidade e, enfrentando adversários nos ringues, chegou a ser quatro vezes campeão brasileiro de boxe e fez parte por três anos da seleção brasileira.
Saltos maiores deu Fernandson Ruan, 21 anos, que aprendeu aos nove anos de idade a dar saltos na “terra” não tão firme assim das serragens. De tanto saltar bem, ele foi indicado por um amigo para fazer shows em parques na Europa. “Passei um mês na Alemanha, dois meses e meio na Bélgica e tempo semelhante na Holanda. Mas passei poucos dias na França”, esnoba Fernandson, que, da serragem que serviu para aterrar uma área de igapó, conseguiu ir a lugares que muitos jovens da idade dele que moram em condomínios fechados jamais foram.
Mas a Terra Firme não é importante só porque tem gente organizada, guerreira, filósofa, boa de briga ou boa de salto. A Terra Firme é importante porque tem gente. (Diário do Pará)
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