A polícia teria entrado na casa de um homem paraplégico no horário da noite, sem mandado de busca e apreensão, e o torturado diante da esposa e das filhas, uma delas com seis meses de idade - que teria tido até mesmo a fralda descartável revistada após ser arrancada arbitrariamente pelas autoridades. Esse fato, que mais parece ter acontecido a uma pessoa que viveu durante a ditadura militar, teria ocorrido no final da noite de quinta-feira (7) com um homem preso por suspeita de tráfico de drogas.
Segundo os policiais, uma denúncia anônima feita por um morador levou uma equipe de policiais militares até a residência de Edson Craveiro Santos, 30 anos, que, juntamente com sua esposa, Carina Martins Modesto, 24 anos, estariam portando 15 pacotes de pasta base de cocaína, na rua J Freitas, no bairro do Tapanã.
O tenente que comandou a ação não foi encontrado pela reportagem para explicar detalhes da operação, e nenhum outro policial quis falar em nome do comandante. O DIÁRIO fez várias ligações ao celular do mesmo, sem sucesso. Já Edson, sentado a uma cadeira de rodas com a roupa toda suja, não titubeou em dizer que a droga foi forjada, e que a ação policial seria uma possível represália por conta de uma denúncia dele à Corregedoria da PM, que teria resultado na prisão de três policiais após supostamente tentarem extorquir deles cerca de R$ 2 mil.
COMO ACONTECEU
“Primeiro chegaram dois policiais e bateram à minha porta. Perguntei se eles tinham mandado, e eles disseram que não. Só que eles foram tão educados, que, como não tinha nada a esconder, permiti que entrassem. Só pedi que não bagunçassem toda a casa. Só que, logo em seguida, entraram outros que foram logo me batendo na cara. Os que vieram depois é que trouxeram a droga no bolso. Depois chegaram a agredir minha filha de oito anos e tentaram agredir minha esposa com minha filha de seis meses no colo”, relatou.
Após a primeira agressão, a casa de Edson foi toda revirada, conforme o DIÁRIO constatou indo até o local. Lá foi encontrada, em cima de uma penteadeira de madeira, uma frauda descartável toda rasgada. A fralda teria sido tirada, pelos policiais, da filha de seis meses de Edson e Carina, supostamente para averiguar se havia drogas escondidas.
SESSÕES DE TORTURA
Enquanto a casa era revirada, Edson teria passado por pelo menos 15 sessões de tortura, segundo ele. “Eu acho que só não apanhei também porque disse que estava com seis meses de operada”, argumentou Carina, que supostamente viu o marido, uma pessoa com deficiência, ser atirado ao chão e receber chutes no peito.
“Eu desmaiei duas vezes depois que amarraram um saco plástico na minha cabeça. Eles me acordavam jogando água na minha cara. O detalhe é que eles estavam sem identificação na farda. Vejam a minha roupa como está toda melada de lama. Ela ficou assim porque fizeram isso comigo no chão. Estou com uma dor imensa nas nádegas, que quase não sento na cadeira de rodas, e meus ouvidos estão todos doloridos”, denunciou.
Vizinhos teriam sido ameaçados pelos PMs
O DIÁRIO foi ao local e encontrou a cozinha, onde as sessões de torturas teriam sido praticadas. Jarras vazias, o chão com vestígio de que água teria sido derramada e sacolas plásticas rasgadas estavam na cozinha revirada.
“Eu vi ele gritando muito. Pedindo socorro desesperado. Todos os vizinhos próximos estavam ouvindo, mas ninguém tinha coragem de chegar lá. Eu fui pra rua e comecei a pedir ajuda. Alguns vizinhos vieram. A dona Vera chegou a ser agredida pelos policiais para que não entrasse”, recordou dona Maria da Silva, 42 anos. Para ela, é muito improvável que algum morador o tenha denunciado, porque ele seria um rapaz trabalhador.
“Ele recebe uma aposentadoria por causa da deficiência e ainda tem uma serraria. Ele não tinha porquê vender drogas”, alegou a prima de Edson, Lidiane Craveiro, 26 anos, que também teria sido impedida de entrar na casa durante a abordagem policial.
MOTIVAÇÃO
“Teve uma hora que eu tava gritando para que parassem de bater nele e um policial me chamou de vagabunda, porque eu tinha feito dois PMs serem presos, quando só queriam negociar”, detalhou Carina. Segundo ela, o policial se referia ao processo que levou três militares a serem presos após um bote armado pela Corregedoria, depois que a PM teria supostamente tentado forjar drogas na casa deles e exigido R$ 2 mil para se livrarem da acusação.
“Os policiais da Corregedoria foram dentro do carro com o Edson. E no momento em que os policiais estenderam a mão para pegarem o dinheiro da mão dele, receberam voz de prisão e estão presos até hoje”, explicou. Para o casal, tudo indica que a ação dos policias seria de vingança e intimidação. Vizinhos disseram que a PM teria levado da residência do casal uma pasta onde estariam os documentos referentes ao processo da Corregedoria.
“Eles fazem isso conosco porque, além de sermos pobres, eu e minha esposa já cumprimos pena. Eu por tentativa de assalto, há nove anos, e ela por furto, há sete. Nós já pagamos o que devíamos. Não acho que temos que ficar manchados para sempre e sofrer humilhação porque um dia erramos. Mas eu não vou me calar. Vou até o fim para exigir justiça”, se indignou Edson, que teria ficado paraplégico depois de levar um tiro de um desafeto.
Apesar de todas as denúncias, Edson e Carina foram autuados em flagrante por tráfico de drogas na Seccional de Icoaraci, pelo delegado Jaime das Mercês, pois, segundo a diretora Elizete Cardoso, apesar de negarem serem traficantes, uma vez apresentados pela polícia como tal, cabe a eles provarem na Justiça a inocência.
Edson esperou cerca de 12 horas para poder ser feito o procedimento. A razão disso é porque o sistema estaria fora do ar, segundo a direção do órgão.
A denúncia feita pelo casal não pôde ser confirmada, mas a Ouvidoria do Sistema de Segurança Pública informou que a partir de segunda-feira tomará as medidas necessárias em relação ao caso.
PROVIDÊNCIAS E ESCLARECIMENTOS
A OUVIDORIA PROMETE AGIR
A Ouvidora Estadual do Sistema de Segurança Pública, Eliana Fonseca Pereira, declarou que a partir de segunda-feira, assim que tiver acesso às matérias publicadas pela imprensa oficial e não oficial, entrará com representação junto às corregedorias competentes, como de praxe. “A Ouvidoria faz parte do Comitê de Combate à Tortura, e quanto a isso tomaremos providências porque não concordamos e não aceitamos tais práticas”.
A Ouvidora analisou ainda que toda a sociedade precisa se unir para que desrespeitos aos direitos humanos deixem de ser cometidos por servidores da Segurança Pública. “Em relação ao fato de ser deficiente, acreditamos que a Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD) também deva ser procurada. E o fato de crianças também terem sido envolvidas deve chegar ao conhecimento do Conselho da Criança e do Adolescente (Condac) de Belém. Todos temos que nos unir para que concretizemos políticas públicas nesse sentido”, pontuou.
POLÍCIA MILITAR ESCLARECE
A Polícia Militar do Pará informa que a ocorrência citada, resultou na prisão em flagrante de duas pessoas e mais a apreensão de 15 petecas de substância entorpecente que foram encontradas com os mesmos e encaminhadas à autoridade para fins de exame pericial.
Na ocasião, foi tombado o competente Inquérito Policial que apurará a responsabilidade dos envolvidos e os procedimentos adotados.
A Assessoria de Comunicação Social da PMPA informa que para quaisquer denúncias acerca de possíveis procedimentos indevidos ou excessos por parte de policiais militares, a comunidade pode procurar a Corregedoria da Polícia Militar, situada à avenida Magalhães Barata, complexo da Delegacia Geral da Polícia Civil ou ligar para o telefone 3222 8568.
(Diário do Pará)
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