“A justiça tarda mais não falha”. O dito popular, que alguns duvidam, dessa vez se tornou realidade e os fiéis da autoridade podem levantar a bandeira verde da vitória. Adelino Lima Ferreira, um idoso quase sexagenário (59 anos), acusado de estupro contra a própria enteada teve o mandado de prisão preventiva cumprido pelos policiais civis da Divisão de Investigações e Operações Especiais (DIOE) na última quinta-feira, em São Caetano de Odivelas, onde mora atualmente com a família.
Ele é acusado de abusar sexualmente da enteada durante sete anos e, como resultado da violência sexual contra a menina, que na época tinha nove anos, um filho, um adolescente de 12 anos, é o fruto dos abusos do padrasto.
Passados os 15 anos, a jovem construiu uma família, casou-se e tem dois filhos, mas ainda sofre as consequências dos abusos. “Perdi parte da minha infância e a minha adolescência foi marcada pelo medo e pela vergonha. Ele me ameaçava, não podia falar para ninguém e o pior, minha mãe não fazia nada. Aos 16 anos, quando o meu filho já tinha dois anos, eu dei um basta em tudo aquilo e fugi de casa”, contou a jovem emocionada.
Mesmo depois de ter fugido de casa, ter deixado o filho com o padrasto e com a mãe - ambos registraram o garoto em nome do casal, e de ter encontrado uma família que a acolheu, passado algum tempo, a vítima reconhece que a Justiça tardou, mas não falhou. “A justiça foi feita. Não há nada oculto que não venha ser descoberto. Acredito que ele tem que pagar pelo que fez sim”.
ABUSO
A violência acontecia enquanto Clara Athayde Moura (47 anos), mãe da jovem vítima, não estava em casa. Na época, eles moravam no conjunto Tocantins, em Belém. Ela afirma ter sido abusada por várias vezes, mas a vergonha pelo que acontecia com ela e o medo que sentia por ser ameaçada constantemente pelo padrasto, provocaram o silêncio da enteada durante anos.
A jovem acredita ainda que a mãe suspeitava de tudo que acontecia. “Ela era conivente, por que quando eu tinha 15 anos eu denunciei e fui ameaçada. Ele mandou a minha mãe me buscar e voltar para casa. Mandaram eu me calar e não contar para ninguém. Alguns vizinhos sabiam, mas ele é tão cínico e tão manipulador que todos acreditavam. Depois disso, ele ficou agressivo comigo. A minha mãe é a primeira pessoa a apoiá-lo. Para ela seria normal se eu continuasse fazendo filhos com ele e registrando. Inclusive, esse menino que ele fez em mim e hoje tem 12 anos foi registrado em nome do meu padrasto e da minha mãe. Eles falsificaram a certidão de nascimento”, contou.
A jovem relevou que Avelino era separado quando conheceu Clara. A vítima morava com a avó materna e ele teria mandado buscá-la para morar com eles. “Acredito que ele já premeditava tudo. Ele dizia ser apaixonado por mim, mas esperou eu crescer um pouco para fazer o que ele queria”. Durante as relações, o padrasto humilhava a mãe. “Ele contava que ela não prestava mais como mulher, não satisfazia mais ele” revelou a adolescente.
Mesmo depois de ter engravidado, ele continuou os abusos contra a adolescente. Para a jovem, a parentela não apoia a atitude e a desvaloriza. “Dizem para eu ter pena dele, que não era pra ter feito isso. Eles ainda tentaram uma aproximação com ele. Na cabeça da minha mãe eu tinha que perdoar e conviver com um triângulo amoroso ou aceitar como pai, mesmo ele sendo acostumado com aquela situação”.
AJUDA
Aos 16 anos, a garota cansou de ser violentada e humilhada pela família. Foi quando ela encontrou Joseane Muniz, uma senhora que a acolheu em sua casa e passou a ajudá-la.
Durante os anos que a jovem morou com Jose, a mulher começou a desconfiar do comportamento da adolescente e investigou durante seis meses toda a história da menina.
“Percebi alguns comportamentos estranhos. Comprovei com relato de vizinhos e com outras pessoas que tiveram contato com a menina. Ela tinha transtorno de sono, não dormia quase, chorava muito. Não tinha nenhuma amizade, com 17 anos, ela era vaidosa, sendo uma garota bonita, comecei a observar. Procurei a família e constatei que não eram de baixa renda, achei mais estranho, por ser filha única. Eles me disseram que ela era rebelde, mas que a amavam muito. Tentaram ainda me usar para colocar de novo ela nas mãos dele. Quando eu disse que eu não queria mais ela em casa, ela implorou para não fazer isso, foi quando ela começou a contar aos poucos o trauma com a família. Mesmo sendo ameaçada por eles, corri atrás de Justiça, procurei três delegacias, Mulher, Cabanagem e São Brás, e diziam que eles iam pegar. Hoje com ele preso, me sinto recompensada. Valeu à pena e faria tudo de novo”, detalhou Joseane.
PRISÃO
A prisão foi decretada dia 1º deste mês pela juíza Maria de Fátima Alves da Silva, da Vara de Crimes contra Criança e Adolescente. Em menos de 48 horas, quando o mandado chegou nas mãos do delegado Neivaldo Silva, diretor da DIOE, imediatamente uma equipe de policiais civis foi montada e se deslocou até São Caetano de Odivelas.
Na delegacia estavam alguns familiares do acusado, que tentaram dificultar e impedir o contato da imprensa com Adelino. Para a polícia, o acusado confessou ter tido relação sexual com a enteada, que na época era uma criança, mas disse que “ela se insinuava para ele, e que aconteceu apenas uma única vez e foi justamente quando ela engravidou”.
“Ele atribuiu a uma criança essa ação, mas o relato não procede, não tem valor jurídico. O que ele tem que fazer é pagar o crime que cometeu. Responderá por estupro de vulnerável, inafiançável, imprescritível, já que a criança é a prova contundente do crime juntamente com a palavra da vítima e deverá pagar uma pena de oito a 15 anos”, afirmou Neivaldo Silva, diretor da DIOE. “A abordagem foi perfeita, dentro da técnica policial e não teve como ele e nem a família reagir. Parabéns à equipe. Agora a prisão dele será comunicada para o juiz e ele será transferido para o sistema penal”, concluiu.
“Ele atribuiu a uma criança essa ação, mas o relato não procede, não tem valor jurídico. O que ele tem que fazer é pagar o crime que cometeu. Responderá por estupro de vulnerável, inafiançável, imprescritível”.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar