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POLÍCIA

Assassinato de professor completa um mês

Durou menos de 20 minutos. Entre o tempo que Raimundo Lucier Marques Leal Junior, de 59 anos, saiu de casa até o momento em que o telefone da casa de Fátima Leal tocou, o relógio cravaria esse tempo. Metade de uma partida de basquete. Em 20 minutos, tudo

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Durou menos de 20 minutos. Entre o tempo que Raimundo Lucier Marques Leal Junior, de 59 anos, saiu de casa até o momento em que o telefone da casa de Fátima Leal tocou, o relógio cravaria esse tempo. Metade de uma partida de basquete. Em 20 minutos, tudo o que Fátima Leal acreditava, sonhava, planejava, deixou de existir. Lucier, engenheiro e professor universitário, havia sido morto, alvejado por três tiros. Ele saía com o carro de uma oficina, localizada na avenida Duque de Caxias, entre as travessas Enéas Pinheiro e Pirajá, em Belém, quando foi surpreendido por um homem. Tocaia, morte por encomenda. Fuga em moto. Do outro lado da rua, o mandante observava, no ar refrigerado de um veículo.

As estatísticas da violência urbana registram mais um caso. Jornais e TVs estampam manchetes. Suspeitas, análises, interrogações. Indignações e curiosidade mórbida. Um mês depois, a manchete se torna canto de página, nota curta na TV.

Fátima Leal remexe em coisas. Separa livros, roupas e objetos pessoais. Encontra cartões de aniversário, bilhetes carinhosos, pequenas lembranças. Nessas horas chora. Como ainda derrama lágrimas intensas ao lembrar ‘aquele’ sábado, de sol forte.

“Ele tinha cortado as unhas. Saiu. Depois voltou para fazer a fisioterapia nos pés. Diabético, tinha passado por uma cirurgia e estava tendo dificuldades em se equilibrar. Depois da fisioterapia, me disse que iria na oficina ver um problema do carro. Eu disse que poderia até ir, mas estava fazendo umas coisas. Não fui. Ele era apaixonado por música. Gostava muito do Bolero, de Ravel. Eu encontrei uma versão que iria mostrar a ele. Não pude”, diz Fátima Leal, em outra manhã.

No dia 23 de setembro, os dois completariam 34 anos de casamento. No dia 15 de setembro, Lucier comemoraria 60 anos de vida. Os dias deixaram de ser contados ou planejados dessa forma para Fátima Leal. Ela tem precisado lidar com coisas como o pagamento do cartão de crédito de Raimundo Lucier, pagar as dívidas, consertar o carro. “De repente minhas atividades triplicaram”, espanta-se. “Nunca me preocupei com isso, com algumas coisas. Até minha conta de celular ele pagava. É complicado. Perdi o marido, o pai, o amigo, o conselheiro profissional, a pessoa com quem eu trocava ideias sobre o trabalho”. Fátima também é engenheira, com pós-graduação. Mestrado e doutorado.

Há outros vazios. O da cama, compartilhada por mais de três décadas. O lugar na mesa, à hora do almoço. Os lugares antes frequentados. A viagem que não será mais feita. Os detalhes da casa. A porta de vidro separando sala e corredor, a biblioteca, a tranca da porta. A vida sempre foi feita disso. As ausências são preenchidas por pequenas coisas. Fátima Leal esbarra em mensagens no computador, anedotas, encontra cartões da época de namoro. “Ele ainda está em todos os cantos”, diz.

Fátima Leal emagreceu cinco quilos. Nas 48 horas seguintes à morte de Lucier, apenas se sustentava com água. Daquele sábado, guarda lembranças turvas. A voz ofegante de uma mulher ao telefone perguntando se ela era a mulher do engenheiro. A mesma voz dizendo que havia ocorrido um acidente. Depois um tiroteio. No meio do caminho, medo e esperança disputavam espaço. “Achava que ele estava ferido, que poderia ser atendido. Cheguei e um policial foi logo dizendo que o ferido tinha ido à óbito”.

Há muitos fins na história que passou a ser vivida por Fátima Leal. Os começos e recomeços é que tem sido mais complicados. Desde a demora para liberação do corpo até coisas prosaicas como as compras de supermercado, hábito cultivado por Lucier. “Ele sempre dava prioridade às minhas coisas, me dava a oportunidade de estudar. Eu casei com o diploma de um lado e a certidão de casamento no outro. Não tive um tempo de maturação nisso”.

O filho Aldrin Leal, 32 anos, observa. Voltou do Rio de Janeiro para tentar ser um esteio. Em cima de um piano, na sala, o retrato de toda a família. O casal e os dois filhos, Anna e Aldrin. “A família rompeu as estruturas, os papéis tiveram que ser redefinidos. Esse é o resultado do ‘corretivo’ que seria dado ao meu pai”, diz Aldrin. “A vida estava em ordem. Ele estava feliz”, complementa a mãe.

Não há mais planos no universo próximo de Fátima Leal. A reconstrução tem sido paulatina. Aldrin diz que todos na casa pensam em como Lucier agiria na tomada de algumas decisões. A mesa foi rearranjada para que a ausência não seja tão fisicamente notada. Aldrin tem sentado no lugar onde ficava o engenheiro e professor. “Queria ter dado ao meu pai o prazer de brincar com um neto. Não vai acontecer”, diz.

Trinta e quatro anos são quase 18 milhões de minutos. Vividos, compartilhados, sonhados e planejados. Mutilados em 20 minutos. Ou menos. Um tiro, uma ligação e fim. Só os dias e noites que insistem em não obedecer a essa lógica. Fátima Leal sabe disso. E segue. (Diário do Pará)

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