As eleições deste ano, sem dúvida, ficarão na memória da família Campelo. Anteontem pela manhã, o que era para ser apenas uma ocorrência por infringir a “Lei seca” se tornou uma trama complicada que resultou em escoriações, denúncias de agressão, vizinhos indignados e Policiais Militares precisando se defender das acusações de abuso de autoridade. O caso aconteceu na passagem São Pedro, nas proximidades da rua Lauro Sodré, Terra Firme. Na Seccional Urbana do bairro, enquanto os policiais acusavam três homens de desacato à autoridade, pelo menos três pessoas acusavam os PMs de terem feito uso desnecessário da força.
A confusão se formou quando os Policiais Militares faziam ronda pelo bairro. Ao constatarem que o bar de seu Antônio Portal, 63 anos, estava vendendo bebida alcoólica com a Lei seca em vigor, conversaram, e depois deram voz de prisão ao proprietário. O enteado de seu Antônio, Robert Campelo, 25 anos, estudante, foi averiguar a situação. A partir daí, há duas versões da história.
Robert exibe marcas de escoriações no tronco, nos braços e nas costas. Segundo ele e testemunhas que estavam no local, o estudante foi vítima de agressões desnecessárias por parte dos policiais que teriam chegado, inclusive, a lhe causar lesões usando tasers, as armas de choque. “Não havia necessidade nenhuma de fazer isso. Eles chamaram reforços e invadiram a minha casa. Queriam me levar preso no ‘camburão’, aí eu disse que não era nenhum vagabundo e que iria na frente, com meu padrasto. Foi então que eu corri, tropecei, machuquei o supercílio e eles me agrediram ainda mais e me prenderam”, relata.
Robert conta ainda que ficou algemado no carro da PM passando mal durante vários minutos e só conseguiu ajuda porque se contorceu até apanhar o celular para pedir socorro. Catarina Ribeiro, 36 anos, técnica em enfermagem, conta que precisou socorrer o amigo que teria ficado “esquecido” no carro da PM, na passagem da Ligação. “Ele já estava quase sem pulso quando eu cheguei lá. Sorte que eu conheço gente no PSM do Guamá e ele foi logo socorrido”, relata. A irmã e a mãe de Robert também exibem marcas e, segundo os familiares, teriam sido agredidas na ação da PM.
OUTRO LADO
Segundo os PMs, toda confusão se formou porque os policiais foram desacatados pelos moradores. “Nós chegamos lá para conversar. Ele (seu Antônio) sabia que a Lei seca está em vigor e que não poderia estar trabalhando. O problema é que nós fomos agredidos, nos chamaram de vagabundos, dos piores nomes, e isso caracteriza desacato à autoridade”, conta um dos policiais. De acordo com o policial, em momento nenhum os PMs usaram armas de choque ou agiram com violência.
“Ele (Robert) resistiu à voz de prisão. Primeiro disse que ia colaborar e depois fugiu, tropeçou numa senhora e caiu no chão. Os arranhões que ele tem, além da queda, devem ter sido feitos quando ele tava lá no meio das grades de cerveja”, explica.
Outro PM confirma a versão do primeiro. “A irmã dele se machucou porque tentou se agarrar a ele (Robert) enquanto nós estávamos tentando detê-lo, foi no meio do empurra-empurra. As pessoas já chegam com uma versão final da história, mas ninguém fala como a situação chegou nesse ponto”, se defende. Segundo os policiais, Robert não foi tirado antes da viatura porque uma multidão impedia que a PM se aproximasse do carro.
De acordo com os PMs, a ação foi acompanhada por um capitão e havia sido fiscalizada por um sargento. Segundo os policiais, a área é reconhecida por ser ponto de venda de drogas. A família Campelo nega qualquer relação com o narcotráfico e sugeriu, além do corpo de delito, exame toxicológico para refutar as acusações de que Robert estava sob efeito de álcool ou drogas.
O caso foi registrado e será acompanhado pelo diretor da Unidade Pró-Paz da Terra Firme, Vinícius Pinheiro.
(Diário do Pará)
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